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    Pavel Durov e seu aplicativo de mensagens “privadas” têm um novo rival: ninguém menos do que Elon Musk e seu XChat. Explicamos várias vezes no nosso blog que as alegações de Durov sobre a privacidade e a segurança do Telegram são exageradas, para dizer o mínimo. Aqui, vou apenas lembrar ao leitor que as conversas padrão (não secretas) no Telegram não são protegidas por criptografia de ponta a ponta, que é o requisito mínimo para que os dados do usuário permaneçam privados. Mas voltemos a Musk. N
     

XChat de Elon Musk: o novo aplicativo de mensagens é seguro? | Blog oficial da Kaspersky

24 de Junho de 2026, 10:00

Pavel Durov e seu aplicativo de mensagens “privadas” têm um novo rival: ninguém menos do que Elon Musk e seu XChat. Explicamos várias vezes no nosso blog que as alegações de Durov sobre a privacidade e a segurança do Telegram são exageradas, para dizer o mínimo. Aqui, vou apenas lembrar ao leitor que as conversas padrão (não secretas) no Telegram não são protegidas por criptografia de ponta a ponta, que é o requisito mínimo para que os dados do usuário permaneçam privados.

Mas voltemos a Musk. No final de abril de 2026, o aplicativo XChat foi lançado para usuários do iOS. O magnata da tecnologia vinha exaltando as qualidades do seu aplicativo de mensagens há muito tempo, alegando desde o início que se tratava de uma maneira incrivelmente privada e segura de se comunicar, representando uma ameaça direta ao Signal, WhatsApp, Telegram e iMessage. Hoje, analisamos se é prudente confiar nas <s>promessas de Musk</s> em relação a este novo serviço, detalhamos seus principais recursos e o comparamos à concorrência.

Criptografia no estilo Bitcoin

Musk falou sobre o XChat pela primeira vez em 1º de junho de 2025, naturalmente por meio da sua conta no X (o antigo Twitter). Quando um usuário perguntou quando o novo serviço seria lançado, Musk respondeu: “Essa semana, se não houver problemas de escalabilidade”.

Aparentemente, havia problemas de escalabilidade: a versão beta do aplicativo só foi lançada em setembro de 2025 e os usuários do iOS só obtiveram acesso total ao serviço em abril de 2026. Até o momento da publicação deste artigo, não havia informações sobre quando essa versão será lançada para o Android. Apesar disso, uma página do XChat já está ativa no Google Play, onde os usuários podem <s>enfileirar-se</s> para fazer um “pré-registro”, o que quer que isso signifique.

Mas, vamos voltar à postagem de Musk anunciando o XChat. Essa postagem específica chamou a atenção da comunidade de especialistas em privacidade e cibersegurança, e aqui está o motivo: o magnata da tecnologia informou que o serviço seria construído em uma “arquitetura totalmente nova” e apresentaria “criptografia no estilo Bitcoin”, além de ser escrito em Rust.

O anúncio de Elon Musk sobre o XChat

Elon Musk anuncia o lançamento do XChat, alegando que o novo aplicativo de mensagens é escrito em Rust e usa “criptografia no estilo Bitcoin”. Fonte

A comunidade de especialistas passou muito tempo tentando descobrir o que Musk quis dizer com isso. Afinal, o Bitcoin não é um sistema criptografado e anônimo de troca de dados. A blockchain utiliza chaves criptográficas públicas e privadas, mas para um propósito totalmente distinto: a assinatura de transações. Além disso, essas transações não estão escondidas de olhares indiscretos; elas estão disponíveis para qualquer um ver, para sempre. Simplificando: a fim de proteger os seus usuários, o Bitcoin não garante a privacidade deles, mas faz exatamente o oposto, ou seja, oferece transparência máxima.

É provável que Musk tenha usado a “criptografia no estilo Bitcoin” como uma estratégia de marketing. Na época do anúncio, o Bitcoin estava sendo negociado próximo de suas máximas históricas, e as criptomoedas dominavam as conversas. Tecnicamente, a versão beta do XChat, lançada em setembro de 2025, protegia as conversas dos usuários com um “tipo” de criptografia de ponta a ponta, mas isso foi implementado de uma forma que levantou sérias dúvidas entre os especialistas em criptografia.

E não sem uma razão. Normalmente, ao configurar um chat com criptografia de ponta a ponta, é gerado automaticamente um par de chaves criptográficas: uma pública e uma privada. A chave pública é usada para criptografar mensagens, enquanto a chave privada as descriptografa. Como outros usuários precisam da sua chave pública para iniciar uma conversa segura com você, essas chaves geralmente são armazenadas nos servidores do aplicativo.

A chave privada, no entanto, deveria ser armazenada somente no dispositivo do usuário, que é exatamente o que o Signal faz. Isso serve como uma garantia simples e firme de que nem a própria empresa nem qualquer terceiro que viole a infraestrutura dela possa acessar as conversas dos usuários, mesmo que realmente desejem.

Mas os projetos de Elon Musk seguem uma cartilha própria: os desenvolvedores do XChat decidiram que seria uma ótima ideia armazenar as chaves privadas dos usuários nos servidores do XChat. O X afirma que utilizará módulos de segurança de hardware (HSMs) para armazenar essas chaves privadas, dispositivos especializados projetados para impedir que até mesmo o proprietário do sistema tenha acesso fácil aos dados armazenados nele. No entanto, os especialistas também estão questionando a confiabilidade dessa configuração, e chegaram a uma conclusão sombria: se o X realmente quiser obter a chave privada de um usuário, é provável que consiga.

Entenda como as mensagens criptografadas do XChat funcionam na prática

Depois que os problemas de escalabilidade foram resolvidos quase um ano após o anúncio de Musk, o X lançou oficialmente o aplicativo XChat para iOS em abril de 2026. Agora, qualquer pessoa pode usá-lo. Mas do ponto de vista prático, a situação envolvendo conversas criptografadas parece ainda mais complicada do que no Telegram.

De acordo com a Central de Ajuda da rede social, para usar a criptografia de conversas de ponta a ponta no XChat, ambos os usuários devem ter uma conta no X e configurar o XChat. Além disso, deve haver algum tipo de conexão entre eles:

  • Seguir um ao outro ou estar inscrito na conta um do outro
  • Ter trocado mensagens anteriormente
  • Ter aceito uma solicitação de mensagem direta
  • Ser membros da mesma assinatura Premium Business/Premium Organization no X

Se os usuários não seguem um ao outro e não interagiram antes, pode ser que o XChat ainda permita que eles enviem uma solicitação de mensagem. No entanto, essa solicitação inicial não estará abrangida pela criptografia de ponta a ponta.

Pelo menos é assim que o processo é descrito na documentação da ajuda oficial do aplicativo de mensagens. Parece complicado demais? Não se preocupe: isso funciona de forma completamente diferente na prática. Ou melhor, não funciona. Eu consegui enviar uma mensagem para outro usuário que NÃO havia configurado o XChat. O aplicativo em si, é claro, não me avisou sobre isso.

O XChat permite que os usuários enviem mensagens para pessoas que não configuraram o aplicativo

O aplicativo permite iniciar uma conversa com um usuário que ainda nem configurou o XChat, sem qualquer aviso.

A história fica ainda melhor. O usuário para o qual eu enviei uma mensagem recebeu uma notificação na versão da Web do X, mas não conseguiu acessar a mensagem. Aqui está o motivo: antes de usar o XChat, é necessário criar um PIN de quatro dígitos. No entanto, o PIN é solicitado na primeira vez que o usuário tenta acessar o aplicativo, ou seja, antes mesmo dele ter a chance de criar um PIN. Além disso, o usuário recebe um aviso de que, sem o PIN, não será possível visualizar conversas anteriores criptografadas.

O XChat solicita um PIN antes mesmo do usuário criar um

O usuário deve inserir um PIN para descriptografar mensagens anteriores antes mesmo de concluir a configuração inicial do XChat.

A única solução que encontrei para poder usar o XChat foi tocar em “Esqueceu o PIN?” (ainda que esse PIN nunca tenha existido), confirmar a minha identidade e criar um novo PIN (ou melhor, o primeiro). Conforme já mencionado, isso faz com que você perca o acesso ao histórico de conversas, não podendo ler nenhuma mensagem enviada a você no XChat antes de ter configurado oficialmente o aplicativo.

XChat: o novo Telegram, WhatsApp, Signal… ou talvez o novo Facebook Messenger?

Todos esses obstáculos com relação ao PIN existem por um motivo. Lembre-se, ao contrário do WhatsApp e do Signal, os desenvolvedores do XChat decidiram armazenar as chaves privadas dos usuários no próprio servidor do aplicativo. Sendo assim, o aplicativo usa esses PINs de quatro dígitos para criptografar essas chaves.

De acordo com a documentação da ajuda do XChat, esse mecanismo foi projetado para garantir a integração “perfeita” entre vários dispositivos. É difícil ignorar o fato de que WhatsApp e Signal resolveram esse problema sem recorrer a artifícios questionáveis, como requisitos de PIN ou o armazenamento de chaves privadas em servidores.

O problema é que soluções alternativas como essas invalidam qualquer alegação de privacidade e segurança do aplicativo. Um PIN (a principal solução alternativa adotada) não é considerado a maneira mais segura de proteger dados confidenciais. Mencionamos várias vezes que combinações de quatro dígitos são fáceis de decifrar usando técnicas de força bruta, especialmente porque o XChat oferece 20 tentativas generosas para inserir o código certo.

O XChat avisa sobre o bloqueio após 20 tentativas malsucedidas

O aplicativo permite até 20 tentativas para inserir o PIN de quatro dígitos. Após o limite ser atingido, o XChat avisa que o acesso às mensagens será perdido permanentemente.

Como se não bastasse a implementação confusa de criptografia de ponta a ponta quando comparada à de outros aplicativos, a impressão geral é de que não faz sentido usar o XChat. Um jornalista da Wired fez um comentário certeiro: o aplicativo se parece mais com o Facebook Messenger do que com o WhatsApp, Signal ou Telegram. Mas enquanto as pessoas geralmente abrem o Messenger para ler mensagens enviadas pela mãe ou pela avó, o XChat parece destinado a três tipos de pessoas: as que querem investigar o seu sobrinho estranho que passa todo o tempo livre no X, as que ainda acreditam na promessa de US$ 500 mil em Bitcoin feita por John McAfee e fãs de Elon Musk.

Então, qual é a conclusão sobre o XChat?

A melhor maneira de encerrar esta postagem é com uma citação de um especialista em cibersegurança: “Se o que você busca é segurança, use o Signal. Se o que você quer é falar com praticamente qualquer pessoa usando mensagens criptografadas, use o WhatsApp. Se toda a sua vida gira em torno do X, suponho que isso seja melhor do que nada.”

Se você usar o XChat, a regra número um é não criar um PIN previsível: jamais use o ano do seu nascimento ou, pior, a sequência 1234. Também é importante não esquecer esse código, porque se isso acontecer, todo o seu histórico de conversas desaparecerá para sempre. Por fim, assim como acontece com suas outras senhas, você não deve armazená-la no aplicativo de notas, mas sim em um gerenciador de senhas seguro. Isso não apenas evitará que você tenha de memorizar dezenas de combinações de caracteres, como também reduzirá o risco de perder o acesso a dados e conversas importantes.

Para saber mais sobre mensagens seguras em outros aplicativos, confira nossas outras postagens:

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  • Como proteger sua organização contra vulnerabilidades de Wi-Fi do AirSnitch Stan Kaminsky
    Na conferência de segurança da informação NDSS Symposium 2026, realizada em fevereiro em San Diego, um renomado grupo de pesquisadores apresentou um estudo que revelou o ataque AirSnitch, capaz de contornar o recurso de isolamento de clientes Wi-Fi, também conhecido como rede de visitantes ou isolamento de dispositivos. Esse ataque permite conectar-se a uma rede sem fio por meio de um ponto de acesso e, a partir daí, acesse outros dispositivos conectados, inclusive os que usam identificadores de
     

Como proteger sua organização contra vulnerabilidades de Wi-Fi do AirSnitch

12 de Maio de 2026, 09:00

Na conferência de segurança da informação NDSS Symposium 2026, realizada em fevereiro em San Diego, um renomado grupo de pesquisadores apresentou um estudo que revelou o ataque AirSnitch, capaz de contornar o recurso de isolamento de clientes Wi-Fi, também conhecido como rede de visitantes ou isolamento de dispositivos. Esse ataque permite conectar-se a uma rede sem fio por meio de um ponto de acesso e, a partir daí, acesse outros dispositivos conectados, inclusive os que usam identificadores de rede (SSIDs) diferentes no mesmo hardware. Os dispositivos-alvo podem facilmente estar em sub-redes sem fio protegidas por WPA2 ou WPA3. Na verdade, o ataque não quebra a criptografia; ele explora a maneira como os pontos de acesso lidam com chaves de grupo e roteamento de pacotes.

Na prática, isso significa que redes de visitantes oferecem um nível muito baixo de segurança real. Se as redes corporativa e de visitantes estiverem no mesmo dispositivo físico, o AirSnitch permite que um invasor conectado injete tráfego malicioso em SSIDs vizinhos. Em alguns casos, ele pode até realizar um ataque man-in-the-middle (MitM) completo.

A segurança do Wi-Fi e o papel do isolamento

A segurança do Wi-Fi está em constante evolução. Sempre que surge um ataque viável contra a geração de proteção mais recente, o setor responde com algoritmos e processos mais complexos. Esse ciclo começou com os ataques FMS, usados para quebrar chaves de criptografia WEP, e continua até hoje. Exemplos recentes incluem os ataques KRACK ao WPA2 e os FragAttacks, que afetam todas as versões do protocolo de segurança WEP até WPA3.

Atacar redes Wi-Fi modernas de forma eficaz (e discreta) não é uma tarefa simples. A maioria dos profissionais considera que usar WPA2/WPA3 com chaves complexas e separar redes por finalidade costuma ser suficiente para a proteção. No entanto, apenas especialistas sabem que o isolamento de clientes nunca foi padronizado nos protocolos IEEE 802.11. Fabricantes diferentes implementam esse isolamento de formas distintas, usando a Camada 2 ou 3 da arquitetura de rede (ou seja, no roteador ou no controlador Wi-Fi), o que significa que o comportamento de sub-redes isoladas varia bastante dependendo do ponto de acesso específico ou do modelo do roteador.

Embora o marketing afirme que o isolamento de clientes é ideal para impedir que visitantes de restaurantes ou hotéis ataquem uns aos outros, ou para garantir que visitantes corporativos não possam acessar nada além da Internet, na prática, esse isolamento muitas vezes depende do fato de ninguém tentar explorá-lo. É justamente isso que a pesquisa sobre o AirSnitch demonstra.

Tipos de ataques AirSnitch

O nome AirSnitch não se refere a uma única vulnerabilidade, mas a toda uma família de falhas de arquitetura em pontos de acesso Wi-Fi. Também é o nome de uma ferramenta de código aberto usada para testar roteadores quanto a esses pontos fracos específicos. Ainda assim, os profissionais de segurança precisam lembrar que a linha entre teste e ataque é bastante tênue.

O modelo desses ataques é sempre parecido: um cliente malicioso se conecta a um ponto de acesso com isolamento ativado. Outros usuários (as vítimas) estão conectados ao mesmo SSID ou a SSIDs diferentes no mesmo ponto de acesso. Esse cenário é comum; por exemplo, uma rede de visitantes pode estar aberta e sem criptografia, ou um invasor pode simplesmente obter a senha do Wi-Fi de visitante se passando por um visitante legítimo.

Para determinados ataques AirSnitch, o invasor precisa saber previamente o endereço MAC ou o IP da vítima.  Em última análise, a eficácia de cada ataque depende do fabricante do hardware (veja mais detalhes abaixo).

Ataque de GTK

Após o handshake do WPA2/WPA3, o ponto de acesso e os clientes compartilham uma Group Transient Key (GTK) para lidar com o tráfego de broadcast. Nesse cenário, o invasor encapsula os pacotes destinados a uma vítima específica dentro de um pacote de tráfego de transmissão. Em seguida, ele envia esses pacotes diretamente à vítima, falsificando o endereço MAC do ponto de acesso. Esse ataque permite apenas a injeção de tráfego, o que significa que o invasor não recebe uma resposta. Mesmo assim, já é suficiente para enviar anúncios de roteamento ICMPv6 maliciosos ou mensagens DNS e ARP ao cliente, ignorando efetivamente o isolamento. Essa é a forma mais universal do ataque, funcionando em redes WPA2/WPA3 que usam uma GTK compartilhada. Alguns pontos de acesso corporativos, no entanto, permitem a randomização da GTK por cliente, o que neutraliza esse método.

Redirecionamento de pacotes de transmissão

Nessa versão do ataque, o invasor nem precisa se autenticar primeiro no ponto de acesso. Ele envia pacotes ao ponto de acesso com um endereço de destino de transmissão (FF:FF:FF:FF:FF:FF) e a sinalização ToDS definida como 1.  Como resultado, muitos pontos de acesso tratam esse pacote como tráfego de transmissão legítimo, o criptografam usando a GTK e o enviam para todos os clientes na sub-rede, incluindo a vítima. Assim como no método anterior, é possível encapsular o tráfego especificamente destinado a uma única vítima dentro dos pacotes.

Redirecionamento via roteador

Esse ataque explora uma falha de arquitetura entre as Camadas de segurança 2 e 3 presente no hardware de alguns fabricantes. O invasor envia um pacote ao ponto de acesso, definindo o endereço IP da vítima como destino na camada de rede (L3).  No entanto, na camada sem fio (L2), o destino é definido como o próprio endereço MAC do ponto de acesso, evitando que o filtro de isolamento seja acionado. O subsistema de roteamento (L3) depois encaminha o pacote de volta à vítima, contornando completamente o isolamento da L2. Assim como nos métodos anteriores, trata-se de um ataque apenas de transmissão em que o invasor não vê a resposta.

Roubo de porta para interceptação de pacotes

O invasor se conecta à rede usando uma versão falsificada do endereço MAC da vítima e inunda a rede com respostas ARP dizendo: “este endereço MAC está na minha porta e SSID”.  O roteador da rede alvo atualiza suas tabelas MAC e começa a enviar o tráfego da vítima para essa nova porta. Com isso, o tráfego destinado à vítima acaba sendo recebido pelo invasor, mesmo que a vítima esteja conectada a outro SSID.

Se o invasor estiver em uma rede aberta e sem criptografia, isso significa que o tráfego destinado a um cliente em uma rede protegida por WPA2/WPA3 pode acabar sendo transmitido “em claro”, permitindo que qualquer pessoa próxima o capture.

Roubo de porta para envio de pacotes

Nessa versão, o invasor se conecta diretamente ao adaptador Wi-Fi da vítima e o bombardeia com solicitações ARP, falsificando o endereço MAC do ponto de acesso. Como resultado, o computador da vítima passa a enviar seu tráfego ao invasor em vez da rede. Ao combinar essas duas técnicas de roubo de porta, um invasor pode, em vários cenários, realizar um ataque completo de MitM.

Consequências práticas dos ataques AirSnitch

Ao combinar várias dessas técnicas, um hacker pode realizar algumas ações bastante graves:

  • Interceptação completa de tráfego bidirecional para um ataque MitM. Isso significa que o invasor pode capturar e modificar dados entre a vítima e o ponto de acesso sem que ela perceba.
  • Movimentação entre SSIDs. Um invasor em uma rede de visitantes pode alcançar hosts em uma rede corporativa restrita, desde que ambas usem o mesmo ponto de acesso físico.
  • Ataques ao RADIUS. Como muitas empresas usam a autenticação via RADIUS no Wi-Fi corporativo, um invasor pode falsificar o endereço MAC do ponto de acesso para interceptar os pacotes iniciais de autenticação RADIUS. A partir daí, ele pode tentar descobrir o segredo compartilhado por força bruta. Com isso em mãos, ele pode criar um servidor RADIUS e um ponto de acesso falsos para capturar dados de qualquer dispositivo que se conecte a eles.
  • Exposição de dados não criptografados em sub-redes “seguras”: o tráfego que deveria estar protegido por WPA2/WPA3 pode ser retransmitido a um cliente em uma rede de visitantes aberta, ficando exposto a qualquer pessoa próxima.

Para executar esses ataques com eficiência, um hacker precisa de um dispositivo capaz de transmitir e receber dados simultaneamente com o adaptador e o ponto de acesso da vítima. Em um cenário do mundo real, isso geralmente envolve um notebook com dois adaptadores Wi-Fi usando drivers Linux configurados especificamente para esse tipo de operação. Vale destacar que o ataque não é totalmente discreto: ele gera um grande volume de pacotes ARP, pode causar pequenas instabilidades no Wi-Fi quando é iniciado e reduzir a velocidade para cerca de 10 Mbps. Mesmo com esses sinais, ainda representa uma ameaça real em muitos ambientes.

Dispositivos vulneráveis

Como parte do estudo, vários pontos de acesso e roteadores corporativos e domésticos foram testados. A lista incluiu produtos da Cisco, Netgear, Ubiquiti, Tenda, D-Link, TP-Link, LANCOM e ASUS, além de roteadores com firmwares populares na comunidade, como DD-WRT e OpenWrt. Todos os dispositivos testados apresentaram vulnerabilidade a pelo menos algumas das técnicas descritas. Mais preocupante ainda: os modelos D-Link DIR-3040 e LANCOM LX-6500 foram vulneráveis a todas as variações do AirSnitch.

Curiosamente, alguns roteadores já contam com mecanismos de proteção que bloqueiam esses ataques, mesmo que as falhas de arquitetura de base continuem presentes. Por exemplo, o Tenda RX2 Pro desconecta automaticamente qualquer cliente cujo endereço MAC apareça simultaneamente em dois BSSIDs, o que na prática impede o roubo de porta.

Os pesquisadores destacam que qualquer administrador de rede ou equipe de segurança de TI que leve a proteção a sério deve testar suas próprias configurações. Essa é a única maneira de identificar exatamente quais ameaças se aplicam ao ambiente da organização.

Como proteger a rede corporativa contra o AirSnitch

O risco é maior para organizações que operam redes Wi-Fi de visitantes e corporativa no mesmo ponto de acesso, sem segmentação adicional por VLAN. Também há riscos significativos para empresas que utilizam RADIUS com configurações desatualizadas ou segredos compartilhados fracos para autenticação sem fio.

Em resumo, é preciso deixar de tratar o isolamento de clientes como uma medida real de segurança e passar a vê-lo apenas como um recurso de conveniência. A segurança real precisa ser tratada de outra forma:

  • Segmentar a rede com VLANs. Cada SSID deve ter sua própria VLAN, com marcação de pacotes 802.1Q aplicada de ponta a ponta: do ponto de acesso até o firewall ou roteador.
  • Implementar inspeção de pacotes mais rigorosa no nível de roteamento, dependendo dos recursos de hardware. Recursos como Inspeção dinâmica de ARP, DHCP snooping e limitação do número de endereços MAC por porta ajudam a proteger contra a falsificação de IP/MAC.
  • Ativar chaves GTK individuais por cliente, se o equipamento for compatível.
  • Usar configurações mais robustas de RADIUS e 802.1X, incluindo conjuntos de cifras modernos e segredos compartilhados robustos.
  • Registrar e analisar anomalias de autenticação EAP/RADIUS no SIEM. Isso ajuda a identificar diversas tentativas de ataque além do AirSnitch. Outros sinais de alerta a serem observados incluem um mesmo endereço MAC aparecendo em diferentes SSIDs, picos de solicitações ARP ou clientes alternando rapidamente entre BSSIDs ou VLANs.
  • Aplicar segurança em camadas superiores na topologia de rede. Muitos desses ataques perdem força se a organização tiver implementado TLS e HSTS de forma abrangente em todo o tráfego de aplicações corporativas, exigir o uso de VPN ativa em todas as conexões Wi-Fi ou tiver adotado plenamente uma arquitetura de confiança zero.

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