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Tokenomics na cibersegurança: ataques de negação de carteira e custos das operações de SOC

Recentemente, fizemos uma postagem sobre tokenomics e ataques de “negação de carteira” (denial of wallet): um novo tipo de ataque DDoS que busca gerar gastos excessivos com tokens de IA. Antes de começarem a proteger os processos de IA de seus colegas contra essa nova ameaça, os profissionais de segurança precisam considerar que as próprias atividades do departamento de segurança da informação também podem ser alvo desse tipo de ataque. Como as equipes de segurança estão testando e implementando ativamente diferentes formas de automação baseada em IA, a ameaça de interferência externa destinada a paralisar o sistema de defesa pode afetar diretamente seus próprios processos e tecnologias.

A Elastic estima que, conforme a arquitetura do SOC baseado em agentes, a triagem de um único alerta de um host pode custar US$ 0,69 com um conjunto de agentes especializados ou US$ 3,42 com um agente de uso geral capaz de executar 14 tipos diferentes de tarefas.

No entanto, esses valores médios ocultam uma enorme variação nos custos. A qualquer momento, o processamento inicial de um alerta simples (como, por exemplo, mil tokens) pode desencadear uma investigação sobre o processamento de milhões de entradas de registro, chamadas de API, e de outros dados relacionados, consumindo milhões de tokens em questão de minutos.

A própria Elastic reconhece que utiliza o modelo Claude Sonnet 4.6 em seu SOC. Isso levanta uma questão imediata: o que acontece quando o orçamento se esgota ou os filtros de segurança do modelo são acionados? No pior cenário, o SOC baseado em IA aciona uma “orquestra de agentes” para investigar eventos suspeitos que se assemelham a movimentos laterais na infraestrutura. O agente faz uma chamada à API da Anthropic, mas o orçamento mensal do departamento já se esgotou, e a API retorna erros. A investigação fica paralisada, e a equipe só percebe o problema meio dia depois. Além disso, se os “filtros de segurança” de um grande provedor de IA, que estão em constante mudança, classificarem as solicitações do SOC como maliciosas, o mesmo poderá ocorrer mesmo que ainda haja orçamento disponível. Isso ficou evidente na experiência da Hugging Face ao investigar a invasão de sua infraestrutura pela OpenAI.

É claro que um invasor tem interesse em provocar esse tipo de situação. O invasor pode aumentar diretamente os custos da equipe de defesa ao inserir prompts maliciosos nos dados que ela processa, como registros DNS TXT, cabeçalhos HTTP, comentários no código e nomes de arquivos, sabendo que esses prompts serão analisados pelos sistemas de segurança da informação. No ataque GhostJacking, registros do WAF são usados como vetor para a injeção de prompts. Em outro método, apresentado em um estudo acadêmico, pesquisadores conseguiram atacar as próprias proteções de segurança dos LLMs, aumentando a latência das solicitações em 148 vezes e o consumo de tokens em 63 vezes. Em teoria, o sistema continua funcionando normalmente, mas o processamento dos alertas fica muito mais lento e os custos associados aumentam significativamente.

O perigo das falhas silenciosas

Em sistemas baseados em agentes, o esgotamento do orçamento nem sempre gera um erro explícito com a mensagem “limite de solicitações excedido” e um alerta imediato aos responsáveis. Em determinadas configurações, pode ocorrer degradação silenciosa: quando uma solicitação ao modelo excede o tempo limite, o sistema muda automaticamente para um modelo mais barato, reduzindo a qualidade das respostas e interrompendo a execução de subagentes e tarefas periódicas. Enquanto isso, a equipe de segurança pode passar horas acreditando que tudo continua funcionando normalmente.

Como controlar os custos da IA na cibersegurança

Gerenciar os custos, é claro, não se resume a “evitar gastos excessivos”. O setor já caiu nessa armadilha ao implementar soluções SIEM: quando as empresas passaram a pagar de acordo com o volume de telemetria coletada, começaram a restringir seletivamente a coleta de registros, nem sempre de forma eficaz. Como resultado, surgiram pontos cegos na detecção de ameaças. O mesmo pode acontecer com os tokens, mas de forma mais rápida e em maior escala. Uma política de redução de custos mal planejada pode comprometer a profundidade das investigações e a qualidade das respostas. Sem uma política desse tipo, a decisão sobre o que cortar ficará a cargo do analista de plantão às 3h da manhã, e não do arquiteto ou do CISO durante a fase de projeto do sistema. Outra possibilidade é que o próprio fornecedor do sistema imponha limites automaticamente.

Alguns princípios simples ajudam a evitar aumentos previsíveis de custos e a gerenciar melhor situações realmente imprevisíveis.

Não recorra à IA para analisar informações que podem ser verificadas por meio de consultas convencionais. Tarefas repetitivas e previsíveis devem continuar sendo executadas da maneira tradicional, com regras e consultas a dados. Essas regras e consultas podem ser desenvolvidas com o auxílio da IA, mas devem funcionar de maneira determinística. O modelo deve ser usado apenas quando for realmente necessário avaliar uma situação ambígua.

Estabeleça limites rigorosos e emita alertas imediatos aos usuários sempre que forem ultrapassados. Combine diferentes tipos de limite, como limites por tarefa, limites diários e assim por diante. Os alertas de violação dos limites devem chegar imediatamente tanto aos analistas de plantão quanto aos responsáveis por todo o sistema.

Defina com antecedência o que fazer quando um limite for atingido. A decisão entre interromper o processo para economizar, mesmo que isso reduza o controle, ou continuar e arcar com os custos deve ser tomada antes que ocorra um incidente.

Restrinja as permissões dos agentes e as ferramentas às quais eles têm acesso. Quanto mais restrito o conjunto de ações, melhor será seu desempenho em tarefas específicas. Isso também reduz as oportunidades de elevar os custos e a probabilidade de exploração por agentes externos.

Examine rigorosamente os dados externos não confiáveis. Solicitações, consultas, mensagens, comentários e campos técnicos de texto livre, como registros DNS, cabeçalhos HTTP e nomes de arquivos, podem servir tanto para injetar prompts maliciosos quanto para sobrecarregar deliberadamente o sistema. Limite o tamanho desses dados e monitore a carga de trabalho que geram.

Para evitar interrupções causadas por provedores externos e manter o controle total sobre os dados da organização, avalie a possibilidade de usar modelos locais implantados na própria infraestrutura, pelo menos nas atividades de segurança da informação. Embora não sejam os modelos mais avançados, sua especialização e seu ajuste fino com dados da empresa podem garantir bom desempenho e reduzir o risco de falhas inesperadas.

Em arquiteturas mais complexas, os LLMs podem ser divididos em níveis de gravidade. A primeira linha de defesa, responsável por roteamento, filtragem de ruído e enriquecimento de dados é tratada localmente por modelos compactos. Isso reduz significativamente a imprevisibilidade dos custos. O segundo nível conta com um modelo local de maior porte, responsável pelo trabalho analítico principal: correlacionar eventos, testar hipóteses e reconstruir o cenário do incidente. Esse modelo também não gera custos por solicitação, mas tem capacidade limitada, o que pode causar gastos além do orçamento, sobrecargas e acúmulo de eventos em filas. Apenas casos excepcionais e realmente complexos são encaminhados a modelos avançados na nuvem, de preferência com a aprovação explícita de um analista. Nesse modelo, ainda há custos variáveis, mas eles ficam restritos a poucos casos. Cada encaminhamento é uma decisão consciente, e não uma consequência inesperada de um script executado durante a noite.

Na prática, essa abordagem reproduz o modelo clássico de SOC em vários níveis: a primeira linha faz a triagem, e a terceira conduz as investigações. A diferença é que essas funções são desempenhadas por modelos, e não por pessoas.

Tokenomics de cibersegurança: ataques de Denial of Wallet

Há pouco tempo, muitas empresas começaram a implementar agentes de IA em uma ampla variedade de fluxos de trabalho. Rapidamente, o custo de uso desses agentes se tornou uma questão urgente para as empresas. Além disso, a questão vai muito além do departamento financeiro. Além das preocupações orçamentárias, surgiram problemas de confiabilidade, estabilidade operacional e até de segurança da informação. Isso ocorre porque o custo de automatizar um mesmo processo varia significativamente entre implementações, é imprevisível e pode ser afetado por fatores externos.

Além disso, para um agente malicioso, qualquer processo automatizado com IA e vulnerável a influências externas é, na prática, um alvo conveniente para o “novo tipo de ataque DDoS”. Relatórios de erros de aplicativos, avaliações de produtos ou solicitações de suporte técnico podem, assim como qualquer outro dado externo processado pela empresa com IA, ser usados em um ataque para aumentar o consumo de tokens (fragmentos de palavras que são a unidade básica de entrada e saída de um LLM).

Um ano de crescimento explosivo… nas contas

Em 2026, grandes empresas gastaram pela primeira vez muito além do orçamento destinado a seus sistemas de IA. A Uber já havia gasto todo o orçamento anual até abril, enquanto uma empresa não identificada não definiu limites de gastos para o Claude e gastou US$ 500 milhões em um único mês. Embora os provedores de IA anunciem regularmente preços mais baixos e modelos mais eficientes, a transição de chatbots para sistemas agênticos que operam de forma contínua e autônoma aumenta o consumo de tokens em centenas ou milhares de vezes.  Ao mesmo tempo, o modelo de “assinatura fixa de US$ 20 ou US$ 100” para empresas é coisa do passado. Todos os principais provedores estão migrando clientes corporativos para o modelo de pagamento conforme o uso.

Como resultado, as empresas estão enfrentando um problema já conhecido pelos setores de armazenamento em nuvem e telecomunicações. Sem sistemas especializados de contabilização e gerenciamento de custos, uma organização só descobre quanto um determinado processo ou projeto custou depois de concluí-lo. Nos setores de telecomunicações e nuvem, esse problema acabou sendo resolvido com o desenvolvimento de sistemas sofisticados de faturamento, e os clientes desses setores até adotaram o termo especializado FinOps. No caso da IA, esse processo ainda está em estágio inicial. Além disso, a natureza probabilística da IA generativa torna esse problema ainda mais difícil de resolver.

Consumo imprevisível de tokens

Para entender por que os custos aumentam tão rapidamente e são tão difíceis de prever e controlar, precisamos lembrar como funciona um modelo de linguagem e o que o transforma em um agente de IA. O modelo não armazena informações de estado. Em outras palavras, não retém informações entre as interações. A cada nova etapa, todo o histórico de trabalho de uma determinada tarefa (o contexto) precisa ser reenviado ao modelo: o prompt inicial, o raciocínio anterior, o conteúdo dos arquivos lidos e as respostas de todas as ferramentas. A cada etapa, essa “recapitulação” fica mais longa, especialmente se a tarefa envolver loops iterativos. Se uma etapa falhar, a resposta não for clara ou uma ferramenta retornar um erro, o agente simplesmente tenta novamente, aumentando ainda mais o tamanho do contexto. E, se a tarefa for executada por vários agentes, que dividem o trabalho entre si e trocam resultados, esse volume aumenta proporcionalmente ao número de agentes. Como resultado, o consumo de tokens não aumenta gradualmente, mas em saltos, e é quase impossível prevê-lo no início da tarefa.

Ao executar duas sessões diferentes de um agente de IA para resolver exatamente a mesma tarefa (dois tíquetes de suporte técnico, duas tarefas de análise e assim por diante), a quantidade de tokens consumidos pode variar. A diferença pode chegar a 30 (!) vezes. Isso depende do número de etapas, erros e tentativas necessárias para concluir a tarefa. O aumento do consumo de recursos não depende necessariamente da complexidade da tarefa. Há casos conhecidos em que a IA ficou presa em um “loop de raciocínio” e desperdiçou uma quantidade absurda de recursos em tarefas triviais.

Três gerações de IA em sistemas corporativos consomem recursos de maneiras completamente diferentes:

  • Machine learning clássico (ML). Normalmente, trabalha com dados bem estruturados e não exige muitos recursos computacionais. O consumo de recursos é previsível e baixo. É um item de orçamento fixo;
  • Um chatbot ou outro assistente de IA baseado em LLM. Ele consome tokens, mas o ritmo é definido por uma pessoa: o funcionário inicia a tarefa manualmente, avalia o resultado e interrompe o processo. O custo aumenta aproximadamente de acordo com o número de usuários ativos e pode ser estimado com base no número de licenças;
  • Um agente autônomo de IA. Uma pessoa define um objetivo e deixa o sistema trabalhar sozinho. O próprio sistema decide o que fazer e quantas etapas são necessárias. O custo continua aumentando até que a tarefa seja considerada concluída, sem um limite previsível.

Tokenomics em ataques: Denial of Wallet, o novo DDoS

Como as chamadas a LLMs são significativamente mais caras que as chamadas de software convencionais, automatizar tarefas corporativas rotineiras pode sair muito caro. Por exemplo, o Gartner estima que resolver uma única solicitação de suporte ao cliente usando um LLM custa aproximadamente US$ 3. É fácil imaginar como invasores poderiam bombardear uma empresa com milhares de solicitações longas e sofisticadas geradas por um LLM barato, causando um prejuízo financeiro significativo. Como o processo é automatizado, as anomalias podem não ser detectadas imediatamente.

Se um invasor souber qual sistema de agentes e qual LLM são usados em um processo de negócios, poderá realizar um ataque mais preciso e causar danos significativamente maiores. Os autores do estudo GitInject estimaram que um invasor capaz de criar incidentes no GitHub em uma organização que usa agentes de IA para análise de erros pode, com um único ataque (antes da ação dos mecanismos de defesa do GitHub), causar até US$ 111 em prejuízos e consumir 400 minutos do GitHub Actions da conta da vítima. Naturalmente, esse ataque pode ser repetido várias vezes, sem nenhum custo para o invasor.

O maior risco, embora seja difícil quantificá-lo em termos financeiros, vem de ataques que induzem os LLMs a um raciocínio excessivo. No artigo OverThink, os autores demonstraram como uma tarefa formulada de maneira inofensiva, quando enviada a um modelo de linguagem, produz um resultado correto, mas, nesse processo, consome 46 (!) vezes mais tokens do que deveria. Além disso, todas as tarefas testadas pelos pesquisadores passaram pelos filtros de segurança existentes.

Na nova versão do guia OWASP Top Risks for Language Models, esse problema alcançou a mais alta prioridade já registrada: o consumo ilimitado de tokens agora é classificado como LLM06:2026 e, entre suas variantes, o ataque de “denial of wallet” (negação de carteira), que esgota o orçamento da vítima para o uso de LLMs, é explicitamente destacado.

Como evitar ser vítima do “novo DDoS”

Antes de tudo, é preciso abandonar o princípio de “usar IA só por usar IA”. Não faz sentido delegar todas as tarefas a agentes autônomos. É recomendável analisar periodicamente o custo-benefício do uso de inteligência artificial.

Além disso, você deve limitar as permissões e o conjunto de ferramentas disponíveis para um agente autônomo de IA. Quanto menos ações o sistema puder executar, mais eficiente será em tarefas específicas, menos oportunidades terá de aumentar os custos e menor será a chance de alguém conseguir “manipulá-lo” para gastar tokens desnecessariamente.

Também recomendamos definir limites rígidos para o consumo de tokens e configurar um sistema de notificações para alertar as pessoas quando esses limites forem ultrapassados. Também é recomendável definir vários limites simultaneamente: por tarefa, por dia e assim por diante. Os alertas de limite excedido devem ser enviados imediatamente ao especialista responsável pelo sistema, para que ele decida se o processo deve continuar ou ser interrompido.

Verifique rigorosamente os dados externos não confiáveis. Qualquer informação processada pela IA que venha de fontes externas, como solicitações, consultas, mensagens, comentários ou campos técnicos que possam conter texto arbitrário (registros DNS, cabeçalhos HTTP, nomes de arquivos), pode não apenas levar à injeção de prompt, mas também aumentar deliberadamente a carga de trabalho. É recomendável limitar o tamanho desses dados e monitorar a carga que geram.

Calcule o custo unitário do trabalho e compare as faturas do fornecedor com seus próprios dados. O custo por análise, solicitação ou verificação é a única maneira de entender pelo que você está pagando e identificar erros nas faturas.

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