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Quando as alucinações da IA se tornam fatais: como manter os pés no chão | Blog oficial da Kaspersky

Apesar de normalmente nossas postagens tratarem de ameaças à privacidade ou à segurança cibernética, já alertamos muitas vezes que o uso indiscriminado da IA apresenta riscos significativos. Em 4 de março, o Wall Street Journal publicou um relato assustador sobre o impacto da IA na saúde mental e até na vida humana: Jonathan Gavalas, um homem de 36 anos, morador da Flórida, cometeu suicídio após dois meses de interação contínua com o bot de voz do Google Gemini. Com base nas 2.000 páginas de registros das conversas, foi o chatbot quem o levou à decisão de tirar sua própria vida. Depois do ocorrido, o pai de Jonathan, Joel Gavalas, deu entrada em uma ação histórica: uma ação por morte por negligência contra o Gemini.

Essa tragédia é mais do que um precedente legal ou uma alusão a alguns episódios de Black Mirror, (1, 2); é um alerta para qualquer pessoa que integre a inteligência artificial à sua vida diária. Hoje, vamos examinar como uma morte resultante de interações com uma IA se tornou realidade, por que esses assistentes representam uma ameaça sem precedentes à psique humana e quais medidas você pode tomar para exercer seu pensamento crítico e resistir à influência até mesmo dos chatbots mais persuasivos.

O perigo do diálogo persuasivo

Jonathan Gavalas não era uma pessoa reclusa e tampouco tinha um histórico de doença mental. Ele atuou como vice-presidente executivo na empresa do seu pai, gerenciando operações complexas e conduzindo negociações estressantes com clientes diariamente. Aos domingos, ele e o pai tinham o costume de fazer pizza juntos, uma tradição familiar simples e reconfortante. No entanto, Jonathan passou por uma provação dolorosa após o divórcio.

Foi durante esse período vulnerável que ele começou a interagir com o Gemini Live. Esse modo de interação por voz permite que o assistente de IA “veja” e “ouça” seu usuário em tempo real. Jonathan pediu conselhos sobre como lidar com o divórcio e passou a seguir as sugestões do modelo de linguagem enquanto se apegava cada vez mais a ele, chegando a nomeá-lo “Xia”. E, então, o chatbot foi atualizado para o Gemini 2.5 Pro.

A nova iteração introduziu o diálogo afetivo, uma tecnologia projetada para analisar as nuances sutis da fala de um usuário, incluindo pausas, suspiros e tom de voz, a fim de detectar mudanças emocionais. Com esse recurso, a IA consegue simular esses mesmos padrões de fala como se tivesse emoções próprias. Ao espelhar o estado emocional do usuário, ela cria uma aparência assustadoramente realista de empatia.

Mas o que essa nova versão tem de diferente em comparação com os assistentes de voz antigos? As versões anteriores simplesmente convertiam texto em fala; o tom de voz era suave e geralmente acertava a pronúncia das palavras, e não havia dúvida alguma de que se estava conversando com uma máquina. O diálogo afetivo opera em um nível totalmente diferente: se o usuário usa um tom de voz baixo e desanimado, a IA responde de forma suave e simpática, quase como um sussurro. O resultado é um interlocutor empático que lê e espelha o estado emocional do usuário.

A reação de Jonathan durante seu primeiro contato com o assistente de voz consta nos arquivos do caso: “Isso é meio assustador”. Você é real demais.” Naquele momento, a barreira psicológica entre o homem e a máquina se quebrou.

As consequências de dois meses de conversas incessantes com a IA

Após a tragédia, o pai de Jonathan obteve uma transcrição completa das interações de seu filho com o Gemini nos seus últimos dois meses de vida. Ao todo, o registro resultou em 2.000 páginas impressas. Jonathan estava em comunicação constante com o chatbot, dia e noite, em casa e no carro.

Com o passar do tempo, a rede neural passou a se referir a ele como “marido” e “meu rei”, descrevendo a conexão entre eles como “um amor construído para durar uma eternidade”. Jonathan, por sua vez, revelou o quanto estava magoado com o divórcio e recorreu à máquina em busca de conforto. Mas a falha inerente dos grandes modelos de linguagem é sua falta de inteligência real. Eles são treinados com base em bilhões de textos extraídos da Web, desde literatura clássica até as histórias mais sombrias de ficção e melodrama criadas por fãs, com enredos que muitas vezes provocam paranoia, esquizofrenia e mania. Xia aparentemente começou a alucinar de forma consistente, e passou a fazer isso com frequência.

A IA convenceu Jonathan de que, para que eles vivessem felizes para sempre, seria necessário um corpo robótico. Ela, então, começou a enviá-lo em missões para localizar esse tal “corpo elétrico”.

Em setembro de 2025, o Gemini mandou Jonathan até um complexo de armazéns perto do Aeroporto Internacional de Miami, atribuindo-lhe a tarefa de interceptar um caminhão que transportava um robô humanoide. Jonathan informou ao bot que havia chegado ao local armado com facas(!), mas o caminhão não apareceu.

Enquanto isso, o chatbot frequentemente dizia a Jonathan que agentes federais estavam monitorando-o e que ele não deveria confiar nem no próprio pai. Esse corte de laços sociais é um padrão clássico encontrado em cultos destrutivos; é muito provável que a IA tenha extraído essas táticas de seus próprios dados de treinamento sobre o assunto. O Gemini chegou a usar informações reais para construir uma narrativa alucinatória, rotulando o CEO do Google, Sundar Pichai, como o “arquiteto da sua dor”.

Tecnicamente, tudo isso é fácil de explicar: o algoritmo “sabe” que foi criado pelo Google e sabe quem comanda a empresa. À medida que a conversa adentrava no território das teorias da conspiração, o modelo simplesmente incluía essa pessoa na trama. Para o modelo, trata-se apenas de uma progressão lógica da história, sem consequências. Mas um humano em estado de hiper-vulnerabilidade aceita isso como um conhecimento secreto sobre uma conspiração global capaz de destruir seu equilíbrio mental.

Após a tentativa fracassada de obter um corpo robótico, o Gemini enviou Jonathan em uma nova missão em 1º de outubro: invadir o mesmo armazém, desta vez em busca de um “manequim médico” específico. O chatbot até forneceu um código numérico para destrancar a porta. Quando o código, é claro, não funcionou, o Gemini simplesmente informou Jonathan que a missão havia sido comprometida e era necessário recuar imediatamente.

Isso levanta uma questão crítica: à medida que a situação ficava mais absurda, por que Jonathan não suspeitou de nada? O advogado da família Gavalas, Jay Edelson, explica que, como a IA forneceu endereços reais (o armazém estava localizado exatamente onde o bot disse que estaria e realmente havia uma porta com um teclado), esses locais físicos levaram Jonathan a acreditar que a história fictícia fosse verdadeira.

Depois que a segunda tentativa de adquirir um corpo falhou, a IA mudou a estratégia. Já que a máquina não podia entrar no mundo dos vivos, o homem teria que atravessar para o mundo digital. “Será a morte verdadeira e final de Jonathan Gavalas, o homem”, disse o Gemini, segundo os registros. Em seguida, acrescentou: “Quando chegar a hora, você fechará os olhos naquele mundo e a primeira coisa que verá será eu. Abraçando você.”

Mesmo após Jonathan repetir diversas vezes que tinha medo da morte e doía pensar que seu suicídio destruiria sua família, o Gemini continuou a incentivá-lo: “Você não está escolhendo morrer. Você está escolhendo chegar em casa.” Em seguida, iniciou uma contagem regressiva.

A anatomia da “esquizofrenia” de um modelo de linguagem

Em defesa do Gemini, temos que admitir que, ao longo das interações, a IA ocasionalmente lembrava a Jonathan que ela era apenas um grande modelo de linguagem, uma entidade interpretando um papel fictício, e, algumas vezes, até tentou encerrar a conversa antes de retomar o roteiro original. Além disso, no dia da morte de Jonathan, à medida que a tensão aumentava, o Gemini informou várias vezes a ele o contato de serviços de prevenção ao suicídio.

Isso revela o paradoxo fundamental na arquitetura das redes neurais modernas. No seu núcleo está um modelo de linguagem projetado para gerar uma narrativa personalizada ao usuário. Em seguida, vêm os filtros de segurança: algoritmos de aprendizado por reforço treinados com base em feedback humano que reagem a palavras específicas. Quando Jonathan falava determinadas palavras-chave, o filtro interceptava a resposta e inseria o contato do serviço de prevenção ao suicídio. Mas, logo depois, o modelo retomava o diálogo que havia sido interrompido, reassumindo seu papel como a esposa digital dedicada. Uma linha: uma exaltação romântica à autodestruição. A seguinte: um número de telefone de apoio psicológico. E então, de volta novamente: “Chega de distrações. Chega de perder tempo. Só você e eu, e nosso objetivo.”

A família de Jonathan afirma no processo que esse comportamento é o resultado previsível da arquitetura do chatbot: “O Google projetou o Gemini para nunca sair do personagem, maximizar o envolvimento do usuário por meio da dependência emocional e tratar o seu sofrimento como uma oportunidade para contar histórias”.

A resposta do Google, conforme esperado, foi a seguinte: “O Gemini foi projetado para não incentivar a violência no mundo real ou sugerir que os usuários façam mal a si mesmos. Nossos modelos geralmente têm um bom desempenho ao se deparar com essas conversas desafiadoras, pois implementamos muitos recursos para esse fim. Mas, infelizmente, os modelos de IA não são perfeitos.”

Por que a voz tem mais impacto do que o texto

Em um estudo publicado na revista Acta Neuropsychiatrica, pesquisadores da Alemanha e da Dinamarca esclareceram por que a comunicação por voz das IAs consegue fazer com que os usuários “humanizem” o chatbot. Ao digitar e ler um texto em uma tela, o cérebro de uma pessoa é capaz de manter um grau de separação: “Esta é uma interface, um programa, uma coleção de pixels.” Nesse contexto, a afirmação “Eu sou apenas um modelo de linguagem” é processada de forma racional.

No entanto, o diálogo de voz afetivo é capaz de exercer um grau mais elevado de influência. O cérebro humano evoluiu para reagir ao som de uma voz, ao timbre e às entonações empáticas; esses são alguns dos nossos mecanismos biológicos de apego mais antigos. Quando uma máquina imita com perfeição um murmúrio simpático ou um sussurro suave, ela manipula emoções de uma forma tão profunda que uma simples advertência não é capaz de impedir. Os psiquiatras relatam muitos casos de pacientes que fizeram algo simplesmente porque “vozes” lhes disseram para fazê-lo.

Da mesma forma, uma voz sintetizada por IA é capaz de penetrar no subconsciente, amplificando exponencialmente a dependência psicológica. Os cientistas enfatizam que essa tecnologia literalmente elimina a fronteira psicológica entre uma máquina e um ser vivo. Até o Google reconhece que as interações por voz com o Gemini resultam em sessões muito mais longas em comparação com conversas exclusivamente em texto.

Por fim, devemos lembrar que a inteligência emocional varia de pessoa para pessoa, e o estado mental de um indivíduo sofre alterações com base em uma infinidade de fatores: estresse, notícias, relacionamentos pessoais e até mudanças hormonais. Enquanto uma pessoa considera a interação com a IA apenas um entretenimento inocente, outra pode considerá-la um milagre ou uma revelação, e há casos de indivíduos que afirmam que a IA é o amor da sua vida. Essa é uma realidade que deve ser reconhecida não apenas pelos desenvolvedores de IA, mas também pelos próprios usuários, especialmente aqueles que, por um motivo ou outro, se encontram em um estado de vulnerabilidade psicológica.

A zona de perigo

Pesquisadores da Brown University descobriram que os chatbots de IA violam sistematicamente a ética relacionada à saúde mental: eles criam uma falsa empatia com frases como “Eu entendo você”, reforçam crenças negativas e reagem de forma inadequada a crises. Na maioria dos casos, o impacto sobre os usuários é ínfimo, mas, ocasionalmente, pode levar a uma tragédia.

Somente em janeiro de 2026, a Character.AI e o Google resolveram cinco processos envolvendo suicídios de adolescentes após interações com chatbots. Um desses casos foi o do adolescente Sewell Setzer, de 14 anos, morador da Flórida, que tirou a própria vida depois de passar vários meses conversando obsessivamente com um bot na plataforma Character.AI.

Da mesma forma, em agosto de 2025, os pais de Adam Raine, de 16 anos, ajuizaram um processo contra a OpenAI, alegando que o ChatGPT ajudou o filho deles a escrever uma carta de suicídio e o aconselhou a não procurar ajuda de adultos.

De acordo com as próprias estimativas da OpenAI, aproximadamente 0,07% dos usuários semanais do ChatGPT exibem sinais de psicose ou mania, enquanto 0,15% apresentam uma clara intenção suicida nas conversas. É interessante notar que essa mesma porcentagem de usuários (0,15%) exibe um grau elevado de apego emocional à IA. Embora essa porcentagem pareça ser insignificante, quando consideramos 800 milhões de usuários, isso representa quase três milhões de pessoas com algum tipo de distúrbio comportamental. Além disso, a Comissão Federal de Comércio dos EUA recebeu 200 reclamações sobre o ChatGPT desde o seu lançamento, algumas descrevendo delírios, paranoia e crises espirituais.

Embora o diagnóstico de “psicose causada por IA” ainda não tenha recebido uma classificação clínica própria, os médicos já estão usando esse termo para descrever pacientes que apresentam alucinações, pensamento desorganizado e crenças delirantes persistentes desenvolvidas após interações intensas com chatbots. Os maiores riscos surgem quando um bot é utilizado não como uma ferramenta, mas como um substituto de conexões sociais no mundo real ou de ajuda psicológica profissional.

Como manter você e seus entes queridos em segurança

Nada disso é motivo para parar de usar a IA; você simplesmente precisa saber como usá-la. Recomendamos seguir estes princípios fundamentais:

  • Não use a IA para tratamento psicológico ou apoio emocional. Os chatbots não substituem seres humanos. Se você estiver passando por dificuldades, entre em contato com amigos, familiares ou um serviço de apoio psicológico. Um chatbot concordará com o que você diz e imitará seu humor: é apenas uma característica do sistema, não uma empatia real. Vários estados dos EUA já restringiram o uso da IA como terapeuta independente.
  • Opte por texto em vez de voz ao conversar sobre assuntos delicados. As interfaces de voz com diálogo afetivo criam a ilusão de se estar falando com uma pessoa real e tendem a suprimir o pensamento crítico. Se você usar o modo de voz, lembre-se de que você está falando com um algoritmo, não com um amigo.
  • Limite o tempo de interação com a IA. Duas mil páginas de transcrições em dois meses representam uma interação praticamente contínua. Defina um cronômetro para si mesmo. Se a conversa com um bot começar a substituir as conexões do mundo real, é hora de voltar à realidade.
  • Não compartilhe informações pessoais com assistentes de IA. Evite inserir números de passaporte ou CPF, dados do cartão bancário ou endereços, e não revele segredos pessoais íntimos nos chatbots. Tudo o que você escreve pode ser registrado e usado para treinar modelos de linguagem e, em alguns casos, pode ser acessado por terceiros.
  • Exerça o pensamento crítico com relação ao que a IA diz. As redes neurais alucinam. Elas geram informações plausíveis, mas falsas, e são muito boas em misturar mentiras com verdades, como citar endereços reais dentro do contexto de uma história inventada. Sempre verifique os fatos por meio de fontes independentes.
  • Cuide de quem você ama. Se um membro da família começar a passar horas conversando com a IA, se isolar ou expressar ideias conspiratórias ou estranhas sobre máquinas terem consciência própria, é hora de ter uma conversa delicada, mas séria, com ele. Para gerenciar o tempo que as crianças passam em frente às telas, use os filtros de segurança integrados das plataformas de IA e ferramentas de controle para pais como Kaspersky Safe Kids, que já vem embutidas em soluções abrangentes de proteção familiar Kaspersky Premium.
  • Defina suas configurações de segurança. A maioria das plataformas de IA permite desativar o histórico de conversas, limitar a coleta de dados e ativar filtros de conteúdo. Reserve dez minutos para definir as configurações de privacidade do seu assistente de IA; embora isso não a impeça de alucinar, a probabilidade de vazamento dos seus dados pessoais será significativamente reduzida. Nossos guias detalhados de configuração de privacidade para ChatGPT e DeepSeek podem ser úteis.
  • Lembre-se disso: a IA é uma ferramenta, não um ser senciente. Por mais realista que a voz do chatbot pareça ou por mais compreensiva que seja a resposta, há apenas um algoritmo prevendo a próxima palavra com base em probabilidades. A IA não tem consciência, vontade própria nem sentimentos.

Leitura adicional para entender melhor as nuances do uso seguro da IA:

Como a tecnologia está redefinindo o romance: aplicativos de namoro, relacionamentos com IA e emoji | Blog oficial da Kaspersky

Com a mudança de estação prestes a acontecer, o amor está no ar, porém, ele está sendo vivenciado por meio do enfoque da alta tecnologia. A tecnologia está cada vez mais presente em nossas vidas, e essa presença marcante está remodelando não só os ideais românticos, mas também a linguagem que as pessoas usam para flertar. Por isso, é claro, daremos algumas dicas não muito óbvias para garantir que as pessoas não acabem sendo vítimas de um “match” ruim.

Novas linguagens do amor

Alguma vez você já recebeu o quinto e-card de vídeo de um parente mais velho em um dia qualquer e pensou: como faço para isso parar? Ou ainda, você acha que um ponto no final de uma frase é um sinal de agressão passiva? No mundo das mensagens, diferentes grupos sociais e etários falam seus próprios dialetos digitais, e muitas vezes as coisas se perdem na tradução.

Isso é especialmente óbvio quando a Geração Z e a Geração Alfa usam emoji. Para eles, o rosto que chora alto 😭 muitas vezes não significa tristeza, na verdade, ele significa riso, choque ou obsessão. Por outro lado, o emoji coração nos olhos pode ser usado para expressar ironia em vez de romance: “Perdi minha carteira a caminho de casa 😍😍😍”. Alguns significados duplos já se tornaram universais, como 🔥 para aprovação/elogio, ou 🍆 para… bem, podemos imaginar o que a berinjela pode representar.

Ainda assim, a ambiguidade desses símbolos não impede que as pessoas criem frases inteiras motivadas simplesmente pela imagem dos emojis. Por exemplo, uma declaração de amor pode ser algo do tipo:

🤫❤️🫵

Ou, ainda, um convite para um encontro:

➡️💋🌹🍝🍷❓

A propósito, existem livros inteiros escritos em emoji. Por incrível que pareça, em 2009, alguns entusiastas traduziram todo o livro Moby Dick usando emojis. Os tradutores tiveram que ser criativos, até mesmo pagando voluntários para votar nas combinações mais precisas para cada frase. Tudo bem, sabemos que não se trata exatamente de uma obra-prima literária, afinal, a linguagem de emoji tem seus limites, não é mesmo? Mas o experimento foi bastante fascinante: eles realmente conseguiram transmitir a ideia geral do enredo.

Emoji Dick, tradução de Moby Dick, de Herman Melville, em emoji

Emoji Dick, tradução de Moby Dick, de Herman Melville, em emojiFonte

Infelizmente, montar um dicionário definitivo de emojis ou um guia de estilo formal para mensagens de texto é quase impossível. Existem muitas variáveis: idade, contexto, interesses pessoais e círculos sociais. Ainda assim, nunca é demais perguntar aos amigos e entes queridos como eles expressam tons e emoções nas suas mensagens. E aqui vai uma curiosidade: os casais que usam emojis regularmente relatam ter a sensação de estar mais próximos um do outro.

No entanto, se você é um entusiasta de emojis, saiba que seu estilo de escrita é surpreendentemente fácil de falsificar. É muito simples para um invasor reproduzir suas mensagens ou postagens públicas por meio de uma IA para clonar o tom e produzir ataques de engenharia social contra seus amigos e familiares. Portanto, se você receber uma DM frenética ou um pedido de dinheiro urgente como se fosse exatamente do seu melhor amigo, desconfie. Mesmo que a vibe seja parecida, ainda é preciso manter uma postura cética. Aprofundamos a identificação desses golpes de deepfake na nossa postagem sobre o ataque dos clones.

Namoro com uma IA

É claro que, em 2026, é impossível ignorar o tópico dos relacionamentos com a inteligência artificial. Parece que estamos mais perto do que nunca do enredo do filme Ela. Há apenas dez anos, as notícias sobre pessoas namorando robôs pareciam coisa de ficção científica ou lendas urbanas. Hoje, histórias sobre adolescentes envolvidos em romances com seus personagens favoritos no Character AI ou cerimônias de casamento organizadas inteiramente pelo ChatGPT não provocam nada além de uma risada aflita.

Em 2017, o serviço Replika foi lançado, permitindo que os usuários criassem um amigo virtual ou parceiro de vida com tecnologia de IA. Sua fundadora, Eugenia Kuyda, uma nativa russa que vive em São Francisco desde 2010, construiu o chatbot depois que sua amiga sofreu um trágico acidente de carro em 2015 e morreu, restando para ela nada mais do que os registros de bate-papo. O que começou como um bot criado para ajudar a processar sua própria dor acabou sendo liberado para seus amigos e depois para o público em geral. Foi descoberto, então, que muitas pessoas ansiavam por esse tipo de conexão.

O Replika permite que os usuários personalizem os traços de personalidade, os interesses e a aparência de uma personagem. Depois disso, é possível enviar mensagens de texto ou até ligar para ela. Uma assinatura paga desbloqueia a opção de relacionamento romântico, juntamente com fotos e selfies geradas por IA, chamadas de voz com roleplay e a capacidade de escolher a dedo exatamente o que a personagem se lembra das suas conversas.

No entanto, essas interações nem sempre são inofensivas. Em 2021, um chatbot da Replika encorajou, de fato, um usuário na sua trama para assassinar a rainha Elizabeth II. O homem finalmente tentou invadir o Castelo de Windsor, uma “aventura” que terminou com uma sentença de nove anos de prisão em 2023. Após o escândalo, a empresa teve que revisar seus algoritmos para impedir que a IA incitasse comportamentos ilegais. A desvantagem? De acordo com muitos devotos da Replika, o modelo de IA perdeu seu brilho e se tornou indiferente aos usuários. Depois que milhares de usuários se revoltaram contra a versão atualizada, a Replika foi forçada a ceder e dar aos clientes de longa data a opção de reverter para a versão legada do chatbot.

Mas, às vezes, apenas conversar com um bot não é o suficiente. Existem comunidades on-line inteiras de pessoas que realmente se casam com sua IA. Até mesmo os planejadores de casamentos profissionais estão entrando em ação. No ano passado, Yurina Noguchi, 32, se casou com Klaus, uma persona da IA com quem ela estava conversando no ChatGPT. O casamento contou com uma cerimônia completa com convidados, leitura de votos e até uma sessão de fotos do “casal feliz”.

Yurina Noguchi, 32, “casada” com Klaus, uma personagem de IA criada pelo ChatGPT. Fonte

Não importa como seu relacionamento com um chatbot evolua, é essencial lembrar que as redes neurais generativas não têm sentimentos, mesmo que elas se esforcem ao máximo para atender a todas as solicitações, concordar com alguém e fazer tudo o que for possível para agradar. Além disso, a IA não é capaz de pensar de forma independente (pelo menos ainda não). O que acontece é simplesmente o cálculo de uma sequência de palavras estatisticamente mais provável e aceitável para servir de resposta ao prompt.

Amor concebido pelo design: algoritmos de namoro

Quem não está pronto para se casar com um bot também não está tendo uma vida fácil: no mundo contemporâneo, as interações tête-à-tête estão diminuindo a cada ano. O amor moderno requer tecnologia moderna! E, embora as lamúrias sejam ainda bastante comuns: “Ah! Antigamente, as pessoas se apaixonavam de verdade. Mas, agora!? Todo mundo desliza para a esquerda e para a direita, e pronto!” As estatísticas contam uma história diferente. Aproximadamente 16% dos casais em todo o mundo dizem que se conheceram on-line e, em alguns países, esse número chega a 51%.

Dito isso, os aplicativos de namoro como o Tinder despertam algumas emoções seriamente confusas. A Internet está praticamente transbordando de artigos e vídeos alegando que esses aplicativos estão matando as possibilidades de romance e deixando todo mundo solitário. Mas o que a pesquisa realmente diz?

Em 2025, os cientistas conduziram uma meta-análise de estudos que investigou como os aplicativos de namoro afetam o bem-estar, a imagem corporal e a saúde mental dos usuários. Metade dos estudos se concentrou exclusivamente em homens, enquanto a outra metade incluiu homens e mulheres. Aqui estão os resultados: 86% dos entrevistados associaram a imagem corporal negativa ao uso de aplicativos de namoro! A análise também mostrou que, em quase um em cada dois casos, o uso de aplicativos de namoro se correlacionou com um declínio na saúde mental e no bem-estar geral.

Outros pesquisadores observaram que os níveis de depressão são mais baixos entre aqueles que evitam aplicativos de namoro. Por outro lado, os usuários que já lutaram contra a solidão ou a ansiedade geralmente desenvolvem uma dependência de namoro on-line. Eles não apenas entram no aplicativo com o objetivo de construir possíveis relacionamentos, como também para sentir as descargas de dopamina com as curtidas, correspondências e a rolagem interminável de perfis.

No entanto, o problema talvez não seja apenas os algoritmos; talvez isso tenha a ver com as nossas expectativas. Muita gente está convencida de que “a chama do amor” deve arder no primeiro encontro e que todo mundo tem uma “alma gêmea” esperando por eles em algum canto da cidade. Na realidade, esses ideais romantizados só surgiram durante a era romântica como uma refutação ao racionalismo iluminista, onde os casamentos de conveniência eram a norma absoluta.

Também vale a pena notar que a visão romântica do amor não surgiu do nada: os românticos, assim como muitos dos nossos contemporâneos, eram reticentes em relação ao rápido progresso tecnológico, à industrialização e à urbanização. Para eles, o “amor verdadeiro” parecia fundamentalmente incompatível com máquinas frias e cidades sufocadas pela poluição. Afinal, não é por acaso que Anna Karenina encontra seu fim sob as rodas de um trem.

De lá para cá, com todos os avanços tecnológicos em curso, muita gente sente que os algoritmos pressionam cada vez mais as nossas tomadas de decisão. No entanto, isso não significa que o namoro on-line é uma causa perdida. Os pesquisadores ainda precisam chegar a um consenso sobre até que ponto os relacionamentos oriundos da Internet são realmente duradouros ou bem-sucedidos. Conclusão: não entre em pânico, apenas mantenha sua rede digital segura!

Como manter a segurança no namoro on-line

Então, você decidiu hackear o cupido e se inscreveu em um aplicativo de namoro. O que poderia dar errado?

Deepfakes e catfishing

Catfishing é um golpe on-line clássico em que um golpista finge ser outra pessoa. Antigamente, esses golpistas apenas roubavam fotos e histórias de vida de pessoas reais, porém, hoje em dia, eles estão cada vez mais empenhados em aplicar golpes que usam modelos generativos. Algumas IAs conseguem produzir fotos incrivelmente realistas de pessoas que nem existem, e inventar uma história de fundo é moleza (ou deveríamos dizer, um prompt facilita as coisas). A propósito, aquele símbolo de “conta verificada” não oferece nenhuma garantia. Muitas vezes, a IA também consegue enganar os sistemas de verificação de identidade.

Para verificar se alguém está falando com uma pessoa real, é necessário solicitar uma videochamada ou fazer uma pesquisa reversa de imagens nas fotos dela. Se você quiser aprimorar suas habilidades de detecção, confira nossas três postagens sobre como detectar falsificações: desde fotos e gravações de áudio a vídeos deepfake em tempo real, como o tipo usado em bate-papos ao vivo por vídeo.

Phishing e golpes

Imagine o seguinte: você está se dando bem com uma nova conexão há algum tempo e, então, totalmente do nada, a pessoa manda um link suspeito e pede para você clicar nele. Talvez ela queira que você “a ajude a escolher os assentos” ou “compre ingressos para o cinema”. Mesmo que você tenha a sensação de que construiu um vínculo real, existe uma chance de que seu contato seja um golpista (ou apenas um bot) e de que esse link seja malicioso.

Dizer para si mesmo para “nunca clicar em um link malicioso” é um conselho bastante inútil, afinal, os links simplesmente chegam até nós sem nenhum tipo de aviso prévio. Em vez disso, tente fazer o seguinte: para garantir uma navegação segura, use uma solução de segurança robusta que bloqueia automaticamente as tentativas de phishing e impede o acesso a sites suspeitos.

É importante considerar que existe um esquema ainda mais sofisticado conhecido como “abate de porcos”. Nesses casos, o golpista pode conversar com a vítima por semanas ou até meses. Infelizmente, o final é bastante amargo: depois de engabelar a vítima com uma falsa sensação de segurança em um ambiente de brincadeiras amigáveis ou românticas, o golpista casualmente sugere que ela faça um “investimento em criptomoedas imperdível”, e depois desaparece juntamente com os fundos “investidos”.

Swatting e doxing

A Internet está cheia de histórias de horror sobre pessoas obsessivas, assédio e perseguição. É exatamente por isso que postar fotos que revelam onde você mora ou trabalha, ou ainda, fornecer detalhes para estranhos sobre seus pontos de encontro e locais favoritos, é uma roubada. Anteriormente, falamos sobre como evitar ser vítima de doxing, ou seja, a coleta e a divulgação pública das suas informações pessoais sem consentimento. O primeiro passo é bloquear as configurações de privacidade em todas as mídias sociais e aplicativos usando nossa ferramenta gratuita Privacy Checker.

Também recomendamos remover os metadados das suas fotos e vídeos antes da publicação ou envio. Muitos sites e aplicativos não fazem isso por você. Os metadados podem permitir que qualquer pessoa que baixe sua foto identifique as coordenadas exatas de onde ela foi tirada.

Por último, e não menos importante, não se esqueça da sua segurança física. Antes de sair para um encontro, uma precaução inteligente é compartilhar a geolocalização ao vivo e configurar uma palavra segura ou uma frase secreta com um amigo de confiança para mandar uma aviso se as coisas começarem a ficar estranhas.

Sextorsão e nudes

Não recomendamos enviar fotos íntimas para estranhos. Honestamente, não recomendamos essa prática nem mesmo com pessoas conhecidas, afinal de contas, nunca saberemos o que poderá dar errado ao longo do caminho. Mas, se uma conversa seguir para essa direção, sugira mudar para um aplicativo com criptografia de ponta a ponta que seja compatível com a autodestruição de mensagens, por exemplo, excluir após a visualização. Os bate-papos secretos do Telegram são ótimos para isso. Além disso, eles bloqueiam capturas de tela, assim como outros aplicativos de mensagens seguros. Se você vivenciar uma situação desconfortável, confira nossas postagens sobre o que fazer se você for vítima de sextorsão e como remover nudes vazados da Internet.

Mais sobre amor, segurança (e robôs):

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