Visualização de leitura

Cibersegurança e Ética na Era da Inteligência Artificial: Desafios, Governança e Resiliência Corporativa no Cenário de 2026

Natália Küster Gabardo¹

Resumo A rápida expansão da Inteligência Artificial (IA) em 2026 transformou a tecnologia de uma ferramenta de automação em uma parceira ativa nos processos decisórios humanos. Paralelamente, essa evolução ampliou a superfície de ataque digital, intensificando dilemas éticos e riscos de cibersegurança. Este artigo analisa o impacto dos vazamentos de dados no Brasil, a fragilidade gerada pela “Shadow IA”, os perigos das redes abertas e o novo papel estratégico do Chief Information Security Officer (CISO) diante de regulamentações rigorosas. A metodologia baseia-se em análise documental e estudos de caso contemporâneos. Conclui-se que a resiliência organizacional depende da integração indissociável entre tecnologia robusta, ética aplicada e governança estratégica.

Palavras-chave: Cibersegurança; Ética na IA; Shadow IA; LGPD; Resiliência Corporativa.

1.  Introdução

No cenário tecnológico de 2026, a Inteligência Artificial (IA) permeia serviços, governança pública e interações sociais, deixando de ser uma promessa futurista para se integrar à tomada de decisão humana (MALTEMPI, 2026). Contudo, a eficácia técnica não pode ser dissociada da responsabilidade ética, uma vez que a expansão dessas capacidades intensificou preocupações sobre transparência e proteção de direitos fundamentais (BARAVALLE et al., 2025).

O Brasil registrou em 2025 um impacto financeiro médio de R$ 7,19 milhões por vazamento de dados, uma alta de 6,5% que pressiona as organizações a encararem a segurança não como custo, mas como pilar de continuidade de negócios (SINDPD, 2026). Este artigo sustenta que a resiliência corporativa — a

capacidade de antecipar, absorver e se recuperar de incidentes — só se concretiza quando tecnologia, ética e governança operam como um sistema integrado, não como silos isolados.

2.  Dilemas Éticos e a “Caixa Preta” da IA

O uso de IA em processos críticos, como concessão de crédito ou seleção de pessoal, levanta o desafio central da explicabilidade. Sistemas que operam como “caixas pretas” — cujas decisões não podem ser compreendidas nem pelos próprios engenheiros que os construíram — geram insegurança jurídica e social quando as conclusões automatizadas carecem de justificativas compreensíveis para os afetados (MALTEMPI, 2026). Sem explicabilidade, não há como contestar uma decisão algorítmica, o que fere diretamente princípios do devido processo legal e da transparência administrativa.

Um dos reflexos mais perigosos dessa opacidade são os vieses algorítmicos. Sistemas treinados em dados históricos que refletem desigualdades estruturais — de raça, gênero ou classe — tendem a reproduzir e até amplificar essas discriminações em escala massiva (MALTEMPI, 2026). Uma IA de recrutamento treinada com currículos majoritariamente masculinos, por exemplo, pode “aprender” que homens são candidatos preferíveis, perpetuando a exclusão. O problema não está no algoritmo em si, mas nos dados que o alimentam — e na ausência de curadoria ética sobre esses dados.

A esse cenário soma-se o paradoxo da autoria: quando uma máquina participa ativamente da criação intelectual — redigindo textos, compondo música ou gerando imagens — os conceitos tradicionais de autoria e responsabilidade são desafiados (MALTEMPI, 2026). Quem responde por um conteúdo danoso gerado por IA? O desenvolvedor? O usuário? A própria máquina? A indefinição jurídica nesse campo cria zonas de impunidade que a regulamentação ainda não alcançou.

Por fim, a desinformação potencializada por IA representa uma ameaça direta à estabilidade democrática. O avanço dos deepfakes — vídeos e áudios sintéticos praticamente indistinguíveis da realidade — exige regulamentações urgentes sobre rotulagem obrigatória de conteúdo sintético e criminalização de seu uso malicioso (MALTEMPI, 2026). Sem essas barreiras, a confiança pública em registros audiovisuais, antes considerados provas robustas, se erosiona por completo.

3.  Shadow IA: A Fragilidade da Governança Invisível

Se os dilemas éticos representam o desafio visível da IA, a Shadow IA opera nas sombras — e é precisamente aí que reside seu perigo. Caracterizada pelo uso de ferramentas de inteligência artificial por funcionários sem autorização formal da TI, a Shadow IA cresce na mesma proporção que a popularização de ferramentas como ChatGPT, Copilot e assistentes de código (SINDPD, 2026).

O problema é alarmante em escala. Conforme Peck (2026), o Relatório da IBM aponta que 97% das empresas atingidas por violações em IA não possuíam mecanismos de controle de privilégios. Isso significa que, na prática, qualquer funcionário pode alimentar um modelo de IA com dados corporativos sensíveis — planilhas de clientes, códigos-fonte, estratégias de negócio — sem que a organização sequer tome conhecimento. Esses incidentes ocorrem frequentemente via aplicativos, APIs ou plugins de terceiros que se conectam diretamente aos sistemas internos, criando canais de vazamento invisíveis aos controles tradicionais de segurança (PECK, 2026).

A gravidade da Shadow IA não está apenas no risco de vazamento, mas na impossibilidade de gerenciar o que não se enxerga. Sem mapeamento de dados e trilhas de auditoria que capturem o uso não autorizado de IA, a gestão de riscos corporativos opera cega (SINDPD, 2026). Construir resiliência contra a Shadow IA exige, portanto, três camadas de defesa: visibilidade (descobrir onde e como a IA está sendo usada), controle (estabelecer políticas de uso aceitável e privilégios mínimos) e educação (conscientizar os funcionários sobre os riscos antes que a proibição simples se mostre ineficaz).

4.  Ameaças Contemporâneas e o Fator Humano

Por mais sofisticadas que sejam as defesas tecnológicas, o comportamento do usuário permanece como o elo mais frágil — e mais explorado — da cadeia de segurança (PECK, 2026). De nada adianta investir em firewalls de última geração se um colaborador, distraído ou desinformado, entrega suas credenciais a um golpista. A resiliência organizacional, portanto, começa pelo fator humano.

4.1  Phishing e Engenharia Social

O phishing é uma técnica de má-fé que explora a confiança ou o medo do usuário para obter dados sensíveis (CERT.br, 2012). O que era um e-mail mal escrito com promessas de prêmios evoluiu para campanhas altamente personalizadas, alimentadas por IA, que replicam com precisão a linguagem e o estilo de comunicação de colegas e fornecedores. Em 2026, novas variantes utilizam códigos de dispositivos habilitados por IA para explorar fluxos de autenticação como o OAuth, sequestrando sessões legítimas sem que o usuário perceba (MINUTO DA SEGURANÇA, 2026).

4.2  Redes Wi-Fi Abertas

Se o phishing explora a confiança, as redes Wi-Fi abertas exploram a conveniência. Conexões públicas em aeroportos, cafeterias e hotéis são vulneráveis a ataques de interceptação (sniffing) e redes falsas (evil twin), nas quais o atacante cria um ponto de acesso idêntico ao legítimo e captura todos os dados transmitidos sem criptografia (NIC.br, 2026). Oneda et al. (2025) alertam que esses pontos de acesso facilitam a distribuição de malware e o roubo de credenciais em escala.

A recomendação técnica central é o uso de VPN (Rede Virtual Privada) para criptografar todo o tráfego entre o dispositivo e o destino, tornando inútil a interceptação. Aliada a isso, a adoção obrigatória de MFA (Autenticação de Múltiplos Fatores) garante que mesmo credenciais roubadas não sejam suficientes para acessar sistemas críticos (G1, 2026). Essas duas medidas, embora simples, formam uma barreira robusta contra a maioria dos ataques que exploram o fator humano.

5.  Impacto Econômico e Cenário Regulatório

A conjugação de ameaças éticas, Shadow IA e vulnerabilidade humana produz um impacto financeiro crescente. O setor de Saúde no Brasil lidera os prejuízos por vazamentos, com custos superiores a R$ 11 milhões por ocorrência (GABARDO, 2026).

Estudo de caso: Instituto ISAC. Um dos episódios mais emblemáticos de 2026 foi o ataque de ransomware ao Instituto ISAC, que comprometeu dados sensíveis de 500 mil pacientes, incluindo informações médicas, CPFs e prontuários. O caso ganhou contornos ainda mais graves com a investigação da ANPD, que apurou falhas não apenas na proteção dos dados, mas também na comunicação aos titulares — obrigação prevista no art. 48 da LGPD (CONVERGÊNCIA DIGITAL, 2026). As lições do caso ISAC são claras: a resiliência não se mede apenas pela capacidade de evitar o ataque, mas pela preparação para responder quando ele ocorre — e isso inclui planos de comunicação de incidentes, notificação ágil aos afetados e evidências técnicas de que as medidas de segurança eram adequadas antes da violação.

No âmbito regulatório, a Resolução CMN nº 5.274 estabeleceu um novo patamar de rigor para o setor financeiro, exigindo mecanismos expressos de detecção de intrusão e monitoramento da deep e dark web (PECK, 2026). A conformidade agora exige evidências técnicas robustas — resultados de testes de intrusão, varreduras de vulnerabilidades periódicas e trilhas de auditoria contínuas (PECK, 2026). O que antes era “recomendável” tornou-se mandatório, e as organizações que não se adequarem enfrentarão não apenas multas regulatórias, mas exclusão de cadeias de suprimento que passam a exigir comprovação de maturidade cibernética como critério de contratação.

6.  Liderança e Estratégias de Resiliência

Diante desse cenário, o papel do CISO evoluiu de técnico para estrategista central na mitigação de riscos digitais (NEUBER, 2025). Não basta mais configurar firewalls e gerenciar patches — o CISO de 2026 precisa traduzir riscos técnicos em linguagem de negócio, defender orçamentos de segurança perante conselhos administrativos e integrar a cibersegurança à estratégia corporativa.

CISOs proativos que utilizam frameworks consolidados como NIST CSF, CIS Controls ou ISO/IEC 27001 conseguem reduzir em 25% as perdas financeiras e em 30% o tempo de resposta a incidentes (NEUBER, 2025). Esses números não são acidentais: frameworks maduros fornecem processos testados para detecção, resposta e recuperação, eliminando o improviso que custa caro durante uma crise.

Lições do caso CrowdStrike (2024). Embora não tenha sido um ataque cibernético, a falha massiva que paralisou 8,5 milhões de PCs Windows em 2024 oferece uma lição valiosa sobre resiliência: a dependência excessiva de um único fornecedor de segurança é, em si mesma, um risco estratégico (IBSEC, 2024). O incidente — causado por uma atualização defeituosa sem controle de qualidade adequado — demonstrou que mesmo empresas tecnicamente robustas podem falhar, e que planos de redundância e validação de atualizações em ambiente controlado são tão críticos quanto as defesas contra ameaças externas.

A construção da imunidade digital passa por uma mudança de mentalidade: em vez de negociar resgates, as empresas devem priorizar o disaster recovery e tratar o ransomware como um risco estratégico vital, com planos testados periodicamente (MINUTO DA SEGURANÇA, 2026). A pergunta que todo conselho administrativo deveria fazer não é “estamos protegidos?”, mas “se formos atacados hoje, quanto tempo levaremos para voltar a operar?”.

7.  Conclusão

A análise do cenário de 2026 revela que cibersegurança e ética na IA não são mais temas periféricos ou responsabilidade exclusiva dos departamentos de TI — são imperativos de sobrevivência organizacional. A transparência e a explicabilidade das decisões automatizadas tornaram-se critérios de aceitação social superiores ao desempenho isolado dos sistemas. Uma IA que aprova crédito com 99% de acerto, mas é incapaz de explicar por que negou um empréstimo a um cliente qualificado, é um passivo jurídico e reputacional, não um ativo tecnológico.

Para as empresas brasileiras, a maturidade cibernética exige uma mudança cultural profunda: a segurança precisa sair do departamento de TI e ocupar a sala do conselho. Isso significa orçamento adequado, liderança qualificada (CISOs com assento estratégico), evidências técnicas auditáveis e, acima de tudo, educação contínua do fator humano — porque o elo mais fraco também pode ser o mais fortalecido quando bem treinado.

A resiliência corporativa em 2026 não se define pela ausência de incidentes — nenhuma organização está imune — mas pela capacidade de responder, aprender e se adaptar após cada violação. As empresas que entenderem isso não apenas sobreviverão aos próximos ataques; sairão delas mais fortes.

 

Referências Bibliográficas

BARAVALLE, Adriana et al. Ethical Dilemmas for Cybersecurity and the Impact of

Artificial Intelligence. Anais do Simpósio Brasileiro de Cibersegurança (SBSeg), 2025.

CERT.br. Cartilha de Segurança para Internet. Versão 4.0. São Paulo: CGI.br, 2012.

CONVERGÊNCIA DIGITAL. Ataque cibernético vaza dados de 500 mil pacientes e ANPD investiga infrações graves à LGPD, 2026.

GABARDO, Natália Küster. Resiliência e Proteção de Dados no Cenário Digital. Segurança da Informação, 2026.

IBSEC. Desvendando o problema recente com a atualização do software CrowdStrike, 2024.

MALTEMPI, Clark. Inteligência Artificial e Ética: Desafios e Perspectivas para 2026, 2026.

MINUTO DA SEGURANÇA. Por que pagar o resgate se tornou um risco jurídico, 2026.

NEUBER, Diego. Liderança de CISOs sob pressão: tomada de decisão estratégica em ambientes modernos de cibersegurança. Revista Tópicos, 2025.

NIC.br. Fascículo Redes. Cartilha de Segurança para Internet. São Paulo: CGI.br, 2026.

ONEDA, A. R. et al. Os perigos de redes Wi-Fi abertas. Seminário de Iniciação Científica (SIEPE), Editora Unoesc, 2025.

PECK, Patricia. Novas regras para a segurança digital em 2026. Febraban Tech, 2026.

ROHR, Altieres. Usar VPN em Wi-Fi público no celular deixa a conexão mais segura?. G1 – Globo, 2026.

SINDPD. Brasil registra custo recorde por vazamentos de dados em 2025, 2026.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE COMPUTAÇÃO. Código de Ética e Conduta

Profissional da SBC. Resolução nº 02, 2024.

 

 

Engenharia de Software, Universidade do Contestado, Curitibanos, Santa Catarina, Brasil, natalia.gabardo@aluno.unc.br

Quando a IA encontra centenas de vulnerabilidades, o desafio deixa de ser corrigir tudo.

A atualização crítica da Oracle de julho de 2026 chamou a atenção da comunidade de segurança não apenas pelo número recorde de 1.449 correções, mas pelo que esse volume representa: a Inteligência Artificial está mudando a forma como vulnerabilidades são descobertas. Ao mesmo tempo em que fortalece a defesa, ela também cria novos desafios para as equipes de segurança, que precisam decidir rapidamente quais riscos tratar primeiro.

Durante muitos anos, a gestão de vulnerabilidades era vista como um processo relativamente previsível. Os fabricantes publicavam seus boletins de segurança, as equipes avaliavam o impacto, planejavam uma janela de manutenção e aplicavam as correções conforme a criticidade dos ativos.

Todavia, esse modelo está mudando. Em julho de 2026, o Critical Patch Update (CPU) da Oracle trouxe absurdos 1.449 novos patches distribuídos por centenas de produtos, incluindo Oracle Database, Fusion Middleware, E-Business Suite e diversos componentes de infraestrutura. O volume impressiona, mas o verdadeiro recado está por trás desses números: a descoberta de vulnerabilidades está entrando em uma nova era impulsionada pela Inteligência Artificial.

Para quem atua como CISO, gestor de risco ou analista de cibersegurança, essa mudança merece atenção. A IA deixou de ser apenas uma ferramenta para responder incidentes ou auxiliar na análise de logs. Hoje ela já participa da identificação automática de falhas de programação, revisa grandes volumes de código e ajuda pesquisadores a localizar vulnerabilidades que poderiam permanecer invisíveis durante anos. Trabalhos acadêmicos recentes e iniciativas como o DARPA AI Cyber Challenge demonstram que agentes inteligentes já conseguem apoiar a descoberta e validação de vulnerabilidades em escala cada vez maior.

Esse avanço poderia representar uma excelente notícia para quem desenvolve software, mas existe outro lado dessa história, pois quando um fornecedor publica milhares de correções simultaneamente, ele também divulga, de forma indireta, informações suficientes para que pesquisadores, e também criminosos, iniciem processos de engenharia reversa dos patches. Com apoio de IA, esse trabalho tende a ser muito mais rápido do que no passado. Além disso, indica falhas no desenvolvimento das soluções, o que gera questionamentos se os grandes desenvolvedores realmente aplicam as melhores práticas de desenvolvimento seguro e Secure by Desing.

A janela de exposição (window of exposure) surge enquanto a organização ainda está avaliando impactos, negociando períodos de manutenção ou aguardando homologações. Durante isso,  atacantes podem utilizar ferramentas automatizadas para comparar versões corrigidas e identificar exatamente qual vulnerabilidade foi eliminada. Em muitos casos, isso acelera a criação de exploits conhecidos como “1-day”, desenvolvidos logo após a publicação oficial do patch. O problema, portanto, já não é apenas descobrir vulnerabilidades, mas também o quanto conseguiremos decidir sobre quais delas realmente colocam o negócio em risco e priorizar a implementação de suas correções.

No cenário descrito, onde centenas ou milhares de correções são divulgadas simultaneamente, tentar aplicar tudo imediatamente deixa de ser uma estratégia realista. Surge um fenômeno conhecido entre equipes de segurança como patch fatigue, ou fadiga de patches: excesso de demandas, filas crescentes, recursos limitados e dificuldade para estabelecer prioridades. A pergunta deixa de ser:

“Quantos patches precisamos instalar?”

E passa a ser:

“Quais patches reduzem o maior risco para a organização?”

Essa mudança exige uma gestão muito mais orientada por inteligência do que por volume. Uma priorização madura considera diversos fatores simultaneamente:

  • o ativo está exposto à Internet?
  • existe exploração ativa conhecida?
  • há vulnerabilidades catalogadas pela CISA como exploradas em ambiente real?
  • o impacto para o negócio é elevado?
  • existe exploração pública ou PoC disponível?
  • qual a facilidade de exploração indicada pelo CVSS e por outras métricas contextuais.

Nenhuma dessas perguntas pode ser respondida apenas olhando a pontuação CVSS. Nesse momento entram em cena, o uso de Threat Intelligence, ASM e inventário de ativos, pois a gestão contínua de exposição passa a fazer parte da análise e solução.

Outro ponto importante é compreender que a IA democratiza capacidades. Se ela permite que fabricantes encontrem vulnerabilidades mais rapidamente, também reduz barreiras para pesquisadores independentes e, infelizmente, para agentes maliciosos. A comunidade de segurança já discute esse novo equilíbrio, observando que ferramentas baseadas em LLMs podem acelerar tanto a identificação quanto a correção de falhas, enquanto também aumentam o volume de análises e pesquisas sobre vulnerabilidades recém-divulgadas.

Ao chegar neste ponto da análise, podemos afirmar que o tratado não significa que a Inteligência Artificial seja um problema. Naverdade, muito pelo contrário, ela tende a se tornar um dos principais aliados dos programas modernos de Vulnerability Management. Apenas como exemplo, a IA possibilita termos modelos capazes de correlacionar CVEs, inventários, inteligência de ameaças, exposição externa e criticidade dos ativos, que poderão auxiliar equipes a decidir, em minutos, aquilo que hoje leva dias ou semanas para ser analisado manualmente.

Talvez essa seja a principal lição deixada pelo Oracle CPU de julho de 2026. O recorde de 1.449 patches não representa necessariamente que o software esteja menos seguro. Pode significar exatamente o contrário, que estamos entrando em uma fase em que as vulnerabilidades serão descobertas em uma velocidade sem precedentes graças à automação e à Inteligência Artificial. O verdadeiro diferencial competitivo não será a capacidade de instalar milhares de correções, mas de identificar rapidamente quais delas representam risco real para o negócio e agir antes que adversários façam o mesmo.

No entanto, cabe sempre reforçar que a segurança cibernética continuará sendo uma disputa entre velocidade, inteligência e capacidade de adaptação.

Infere-se, portanto, que o cenário da cibersegurança está passando por uma transformação significativa. A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa e passou a integrar o ciclo completo da gestão de vulnerabilidades, desde a identificação de falhas até a priorização das correções. Essa evolução amplia a capacidade de defesa das organizações, mas também acelera a atuação de agentes maliciosos que utilizam as mesmas tecnologias para reduzir o tempo entre a divulgação de uma vulnerabilidade e sua exploração.

Nesse contexto, a maturidade de um programa de segurança não será medida apenas pela quantidade de patches aplicados, mas pela capacidade de combinar inteligência de ameaças, conhecimento do ambiente, automação e gestão de riscos para tomar decisões rápidas e assertivas.

Mais do que acompanhar a evolução tecnológica, CISOs e analistas precisam desenvolver processos que permitam transformar informação em ação. A Inteligência Artificial deve ser encarada como um multiplicador de capacidades humanas, potencializando a experiência, o pensamento crítico e a capacidade de tomada de decisão.

A velocidade com que vulnerabilidades são descobertas continuará aumentando. O diferencial das organizações resilientes será sua capacidade de correlacionar inteligência, contexto e automação para reduzir a janela de exposição e responder aos riscos de forma eficiente.

Fiquem seguros e utilizem a Inteligência Artificial para evoluir suas técnicas de defesa. A tecnologia continuará evoluindo, e as organizações que aprenderem a utilizá-la de forma estratégica estarão mais preparadas para enfrentar os desafios da segurança cibernética.

As referências abaixo serviram como base técnica e conceitual para a elaboração deste artigo e são recomendadas para aprofundamento do tema.

Oracle Corporation. Critical Patch Update Advisory – July 2026. Disponível em: https://www.oracle.com/security-alerts/cpujul2026.html

Oracle Corporation. Oracle Security Alerts. Disponível em: https://www.oracle.com/security-alerts/

Cybersecurity and Infrastructure Security Agency (CISA). Known Exploited Vulnerabilities (KEV) Catalog. Disponível em: https://www.cisa.gov/known-exploited-vulnerabilities-catalog

DARPA AI Cyber Challenge (AIxCC). Competição sobre Inteligência Artificial aplicada à descoberta e correção automatizada de vulnerabilidades. Disponível em: https://aicyberchallenge.com/semifinal-competition/

The Hacker News. Google’s AI Tool Big Sleep Finds Zero-Day Vulnerability in SQLite. Disponível em: https://thehackernews.com/2024/11/googles-ai-tool-big-sleep-finds-zero.html

CSO Online. Oracle’s July Update Fixes Ten Critical Vulnerabilities in Fusion Middleware. Disponível em: https://www.csoonline.com/article/4200184/oracles-july-update-fixes-ten-10-0-vulnerabilities-in-fusion-middleware.html

GitHub Security Advisories. Base pública de avisos de segurança e vulnerabilidades. Disponível em: https://github.com/advisories

National Vulnerability Database (NVD) – NIST. Base oficial de vulnerabilidades e métricas CVSS. Disponível em: https://nvd.nist.gov/

FIRST – Forum of Incident Response and Security Teams. Common Vulnerability Scoring System (CVSS). Disponível em: https://www.first.org/cvss/

Nota: As análises e reflexões apresentadas neste artigo foram elaboradas a partir de informações públicas disponíveis nas referências acima e representam uma interpretação técnica do autor sobre as tendências relacionadas à gestão de vulnerabilidades, Inteligência Artificial aplicada à cibersegurança e gerenciamento de riscos.

Relatório Semestral de Ameaças da Gen: cibercriminosos se aproximam de sistemas nos quais as pessoas confiam

00A Gen (NASDAQ: GEN) publicou seu Relatório de Ameaças do primeiro semestre de 2026 para ajudar as pessoas a entender quais ciberameaças estão emergindo e quais riscos estão moldando a vida digital hoje. Um ponto em comum permeia todo o relatório: cibercriminosos estão se movendo para mais perto das partes confiáveis da vida digital. Eles não estão apenas enviando links maliciosos ou distribuindo malwares, mas também explorando o contexto, sessões, fluxos de trabalho, marcas, sistemas de atualização, plataformas de publicidade e autoridade delegada.

 A confiança se tornou a nova superfície de ataque

A descoberta central do Relatório de Ameaças é uma mudança em como os ataques funcionam. As ameaças mais eficazes na primeira metade de 2026 não dependeram de explorações técnicas ou engano óbvio, elas tiveram sucesso porque eram difíceis de distinguir da vida digital normal. Golpes chegaram através de uma plataforma de reserva de hotel, referenciando uma reserva real. Contas de WhatsApp foram comprometidas não através de uma violação de senha, mas ao enganar usuários para aprovarem o navegador de um cibercriminoso como um dispositivo vinculado. A fraude se moveu através de contas financeiras reais e verificadas porque as pessoas por trás daquelas contas tinham sido recrutadas através das redes sociais com ofertas de dinheiro rápido. E agentes de IA, operando com permissões que o usuário já tinha concedido, foram parados antes de executarem um shell reverso (técnica de invasão que dá o controle remoto do sistema ao cibercriminoso).

“Os ataques mais eficazes no primeiro semestre de 2026 não pareciam ataques”, afirma Vita Santrucek, Diretor de Tecnologia e Desenvolvimento na Gen. “Eles chegaram por meio de plataformas de reservas, conversas familiares em aplicativos de mensagens, canais de atualização de software e fluxos de trabalho de agentes de IA — todos ambientes nos quais as pessoas já confiam. À medida que os cibercriminosos se misturam às experiências digitais do dia a dia, a proteção precisa estar cada vez mais próxima dos momentos em que essa confiança é conquistada, explorada ou quebrada”.

 Entre golpes, violações de identidade e de privacidade, o padrão é o mesmo: o ataque se moveu para dentro de sistemas confiáveis antes que o perigo se tornasse visível.

Destaques do Relatório de Ameaças

 A telemetria da Gen do primeiro semestre de 2026 mostra a atividade de tendências nas principais áreas de ameaças ao longo dos últimos seis meses.

As principais descobertas incluem:

  • 114,2 milhões de ataques de golpes de e-shop bloqueados, aumento de 109% – destacando o risco crescente de lojas online falsas visando compradores.
  • Um aumento de 387% em golpes de personificação de governo – mostrando que criminosos estão crescentemente explorando a confiança em instituições públicas para roubar dinheiro e informações.
  • Um aumento de mais de 454% nos golpes de personificação de familiares, enquanto uma atividade separada, chamada “GhostPairing”, mostrou como o recurso de dispositivo vinculado do WhatsApp pode ser explorado para obter acesso persistente a uma conta e permitir que pessoas se passem por familiares.
  • 20,3 milhões de ataques de golpes de suporte técnico bloqueados – refletindo tentativas contínuas de enganar pessoas para darem a golpistas acesso remoto a seus dispositivos ou informações financeiras.
  • Mais de 304 milhões de impressões de anúncios de golpes identificadas através da União Europeia e do Reino Unido em menos de um mês, evidenciando o quão facilmente anúncios fraudulentos podem alcançar as pessoas.
  • Aproximadamente 1,9 bilhão de tentativas de rastreamento bloqueadas durante o primeiro semestre de 2026 – demonstrando a escala do rastreamento online que pode corroer a privacidade do consumidor.
  • Os alertas de notificação de violação de dados do Norton e do LifeLock com fontes de origem atribuídas aumentaram 628,1%, chegando a 3,3 milhões. No total, mais de 10 milhões de notificações de violação de dados foram enviadas, comprovando que as informações pessoais de um número cada vez maior de pessoas estão sendo expostas em vazamentos de dados.
  • Aumento de 734% nos alertas de atividade de contas bancárias — mais uma evidência da rápida exploração financeira que acontece após uma violação.
  • 1 milhão de ataques de web skimming bloqueados, aumento de 212% – mostrando como criminosos continuaram a visar fluxos de checkout onde usuários já esperam inserir detalhes de pagamento.
  • Mais de 15,7 milhões de registros violados contendo endereços de e-mail identificados, dando a cibercriminosos mais oportunidades para visar consumidores com phishing, golpes e tentativas de tomada de conta.

 As principais descobertas no Brasil incluem diversas categorias de golpes que registraram aumento no primeiro semestre de 2026, entre elas:

  • Golpes relacionados a apostas (+755%)
  • Golpes financeiros genéricos (+261%)
  • Golpes de suporte técnico (+93%)
  • Golpes de lojas online falsas (e-shop scams) (+62%)
  • Golpes de relacionamento (+24%)
  • Phishing (+20%)
  • A atividade de ransomware aumentou 43%
  • A atividade de exploits aumentou 31%
  • A atividade de droppers aumentou 23%
  • A atividade de infostealers: web skimming (+176%), ladrões de senhas (password stealers) (+16%) e ameaças do tipo banker (+10%).
  • O relatório também identificou uma tendência específica no Brasil: PDFs falsos de pagamento que imitavam marcas de comércio eletrônico e instituições bancárias foram utilizados para atingir o ecossistema de pagamentos via boleto.

O relatório também identifica a IA agêntica como uma fronteira de segurança emergente. À medida que os sistemas de IA ganham a capacidade de navegar, instalar softwares, acessar arquivos, conectar-se a serviços e agir em nome dos usuários, os cibercriminosos visam cada vez mais as permissões e a confiança em que esses sistemas se baseiam. A telemetria inicial do Sage, a plataforma de segurança agêntica da Gen por trás de recursos como o AI Agent Protection da Norton e Avast, revelou que os comportamentos de risco mais comuns de agentes de IA envolveram:

  1. Tentar executar comandos de sistema perigosos.
  2. Tentar abrir um canal de comando remoto, o que poderia permitir que um invasor controlasse o sistema.
  3. Baixar e executar códigos da internet.
  4. Ler arquivos de credenciais sem autorização.
  5. Tentar criar um acesso remoto persistente, como adicionar uma chave SSH confiável.
  6. Tentar anular as instruções do agente.

O Relatório completo de Ameaças do primeiro semestre de 2026 da Gen está disponível (em inglês) em: https://www.gendigital.com/blog/insights/reports/threat-report-h1-2026.

Brasil é o terceiro país que mais sofreu ataques de ransomwares em junho, aponta Cohesity

O Brasil foi o terceiro país que mais sofreu ataques com ransomwares em junho, registrando 23 casos. Os dados são da plataforma Ransomware.live, iniciativa de Julien Mousqueton, CISO da Cohesity, empresa líder em segurança de dados com IA. É a primeira vez que o Brasil aparece entre os dez países mais afetados desde o início da publicação de dados do site, em janeiro.

A plataforma monitora e coleta dados de sites de vazamento de grupos de ransomware continuamente para identificar e listar novas vítimas. Ransomwares são softwares maliciosos que bloqueiam o acesso de usuários ou organizações, exigindo pagamento de resgate para restauração, sob a ameaça de vazamento ou exclusão permanente.

O Brasil só aparece atrás de Estados Unidos, com 199 casos, e Alemanha, com 49. O Reino Unido vem logo após o Brasil, com 21, seguido de Índia e Canadá, ambos com 20. França (15), Itália (15), México (14) e Tailândia (13) completam o top 10.

“A emergência do Brasil, Índia e Tailândia como alvos recém identificados pode ser reflexo de uma estratégia deliberada de focar em jurisdições com menor maturidade na resposta a incidentes e na coordenação com forças de segurança”, avalia Gustavo Leite, vice-presidente da Cohesity para América Latina.

O número total de vítimas em junho, 708, representa uma redução de 10,5% em relação às 791 registradas em maio. “Apesar dessa diminuição mensal, o volume permanece historicamente elevado quando comparado aos doze meses anteriores, deixando claro o quão intenso e consistente é o atual cenário de ameaças”, aponta Leite.

Setores mais afetados

Em junho, o mercado B2B se manteve no topo dos alvos mais atingidos, registrando 123 vítimas — uma redução de 23,1% em comparação às 160 de maio. O setor de manufatura ficou na segunda colocação, com 83 ocorrências (queda de 19,4%), seguido por tecnologia, que somou 56 vítimas (recuo de 21,1%).

O segmento de saúde contabilizou 52 vítimas, registrando uma queda de 23,5% em relação às 68 do mês anterior. Na contramão, serviços ao consumidor foi o único a apresentar crescimento: uma alta discreta de 1,9%, passando de 52 para 53 vítimas. Já o setor de serviços financeiros teve um recuo de 26,5%, somando 25 vítimas, enquanto transporte/logística baixou 25,7%, chegando a 26 registros.

Números do site Ransomware.live são divulgados todos os meses pela Cohesity, que conta com a confiança de clientes em mais de 140 países, incluindo 70% da Fortune Global 500.

Ataques com ransomware nos últimos 12 meses:

  • Junho – 708
  • Maio – 791
  • Abril – 870
  • Março – 844
  • Fevereiro – 784
  • Janeiro – 702
  • Dezembro de 2025 – 882
  • Novembro de 2025- 717
  • Outubro de 2025 – 839
  • Setembro de 2025 – 598
  • Agosto de 2025 – 530
  • Julho de 2025 – 547

Setores com ransomwares mais afetados em junho:

  1. Mercado B2B – 123 (queda de 23.1% em relação a maio)
  2. Manufatura – 83 (queda de 19.4% em relação a maio)
  3. Tecnologia – 56 (queda de 21.1% em relação a maio)
  4. Serviços ao consumidor – 53 (aumento de 1.9% em relação a maio)
  5. Saúde – 52 (queda de 23.5% em relação a maio)
  6. Agricultura e produção de alimentos – 36 (queda de 7.7% em relação a maio)
  7. Construção – 27 (queda de 15.6% em relação a maio)
  8. Transportes/logísticas – 26 (queda de 25.7% em relação a maio)
  9. Serviços financeiros – 25 (queda de 26.5% em relação a maio)
  10.  Educação – 24 (queda de 14.3% em relação a maio)

Países mais afetados por ataques com ransomwares em junho:

  1. Estados Unidos – 199
  2. Alemanha – 49
  3. Brasil – 23
  4. Reino Unido – 21
  5. Índia – 20
  6. Canadá – 20
  7. França – 15
  8. Itália – 15
  9. México – 14
  10. Tailândia – 13

Cibersegurança: Como impedir que malware bancário roube dados financeiros do celular

Um tipo de software malicioso tem chamado a atenção de especialistas: o malware bancário. Trata-se de um programa criado para acessar e roubar dados de celulares e computadores e que dá aos criminosos o controle total do dispositivo infectado. Diferente de fraudes financeiras em que o golpista se passa por outra pessoa para pedir uma transferência, aqui o criminoso convence a vítima a instalar um software malicioso que dá acesso a aplicativos, contas bancárias, mensagens e informações pessoais, podendo, inclusive, realizar movimentações financeiras sem que a vítima perceba.

Malware bancário é um mecanismo usado para aplicar golpes digitais e acessar e roubar dados financeiros de celulares e computadores. Costuma chegar até o dispositivo das vítimas por meio de engenharia social, quando o criminoso engana a pessoa para que ela mesma realize alguma ação (como clicar em um link ou baixar um aplicativo de fonte desconhecida), acreditando que se trata de algo legítimo. Depois de instalado, o software funciona como um “espião” dentro do aparelho, transmitindo para o criminoso informações confidenciais como senhas, dados de contas e códigos de segurança.

Como criminosos aplicam golpes com o malware bancário?

Os golpes se iniciam em um contato direto, geralmente por WhatsApp. O criminoso se apresenta como um contato confiável, um representante de uma empresa conhecida, ou de um serviço que a vítima já usa ou tenha interesse. Durante a conversa, ele pede que a pessoa baixe ou atualize um aplicativo, ou até mesmo clique em um link. Em alguns casos, o golpista pode até fazer uma chamada de vídeo ou telefônica para parecer mais convincente, aumentar a sensação de segurança e acompanhar o processo em tempo real, gerando pressão e sentimento de urgência.

Depois disso, o programa malicioso é instalado no celular e o criminoso passa a interferir no funcionamento do aparelho sem que a pessoa perceba. É nesse momento em que ele aproveita para realizar ações em segundo plano, como movimentações financeiras sem autorização. Em poucos minutos, os golpistas podem realizar empréstimos, transferências e outras operações, gerando prejuízos significativos para a vítima.

Como saber se o celular foi infectado?

Alguns sinais podem indicar que há algo errado com o aparelho:

  • O celular trava ou fica lento com mais frequência;
  • A bateria acaba muito mais rápido que o normal;
  • A tela fica preta ou sem resposta por alguns momentos;
  • O dispositivo reinicia ou fecha aplicativos de forma repentina;
  • O celular esquenta de forma excessiva;
  • Mensagens são enviadas automaticamente pelo celular, sem que o usuário tenha realizado a ação;
  • Presença de aplicativos desconhecidos, com nomes genéricos ou incomuns, que a pessoa não se lembra de ter instalado;
  • Mudanças inesperadas nas configurações do celular ou nos aplicativos instalados;
  • Aplicativos solicitando permissões incomuns, como acesso a acessibilidade, mensagens ou controle do dispositivo

Além dos sinais visíveis, é importante ficar atento às permissões concedidas aos aplicativos. Alguns malwares bancários solicitam acesso aos recursos de acessibilidade do celular, uma funcionalidade criada para auxiliar usuários com necessidades específicas. Quando utilizada de forma indevida, essa permissão pode permitir que aplicativos maliciosos visualizem informações exibidas na tela e executem ações no aparelho. Por isso, desconfie sempre que um aplicativo solicitar esse tipo de acesso sem uma justificativa clara.

“Se você perceber comportamentos anormais ou sentir que perdeu o controle do seu aparelho, principalmente após clicar em links desconhecidos ou instalar aplicativos fora das lojas oficiais, o mais seguro é restaurar o dispositivo para as configurações de fábrica. Essa medida ajuda a remover aplicativos ocultos, eliminar permissões indevidas e reduzir o risco de o malware continuar ativo”, orienta Rodrigo Fernandes, Supervisor de Prevenção à Fraude da DM

Dicas para se proteger

A principal forma de prevenção é nunca seguir instruções de terceiros que envolvam a instalação de aplicativos ou o acesso ao seu dispositivo. “Não clique em links suspeitos enviados por mensagem e não baixe aplicativos fora das lojas oficiais, como App Store e Google Play. Desconfie de contatos inesperados, mesmo que pareçam conhecidos, ou feitos por números de empresas que não sejam oficialmente verificados. Além disso, não realize qualquer ação, instalação ou atualização de aplicativo seguindo instruções, nem clique em links enviados por pessoas que não são da sua confiança. E nunca conceda acesso ao seu aparelho durante uma ligação”, aponta Rodrigo Fernandes.

Caí no golpe. E agora?

Se a pessoa desconfia que caiu em um golpe, o mais importante é agir rápido. “Entre em contato com o seu banco ou com a sua instituição financeira pelos canais oficiais para informar o ocorrido e tentar bloquear movimentações. Em seguida, altere suas senhas, principalmente de aplicativos bancários e e-mail, para recuperar o controle dos acessos. Se houver suspeita de instalação de aplicativo malicioso, considere restaurar o dispositivo para as configurações de fábrica. Além disso, é recomendado registrar um boletim de ocorrência, que pode ajudar no acompanhamento do caso”, aconselha o especialista.

Camadas de segurança

Para auxiliar clientes a se prevenir contra os prejuízos causados pelos golpes, a DM conta com camadas de segurança que ajudam a proteger as transações, como:

  • Confirmação de compra: em caso de movimentações suspeitas, entramos em contato por ligação ou WhatsApp pra aprovar a transação;
  • Bloqueio temporário do cartão: o cliente pode bloquear o cartão rapidamente pelo DM App em caso de suspeita;
  • Bloqueio de pagamentos de madrugada: transações realizadas em horários ou padrões considerados fora do comum são bloqueadas;
  • Gestão de limite: o usuário pode ajustar o limite conforme o seu perfil de uso, o que ajuda a reduzir possíveis prejuízos.

Além das camadas de segurança presentes no aplicativo DM, os clientes contam com recursos adicionais de proteção, como o código de segurança dinâmico (CVC), que dificulta o uso indevido dos dados do cartão em compras online.

Hospitais cada vez mais conectados ampliam eficiência, mas também aumentam exposição a ataques cibernéticos

A transformação digital tem revolucionado a medicina. Prontuários eletrônicos, equipamentos conectados à internet, sistemas integrados de gestão e plataformas de telemedicina tornaram os hospitais mais ágeis e eficientes. No entanto, essa rápida evolução trouxe consigo um desafio crítico: o aumento exponencial da vulnerabilidade a ataques cibernéticos.

Hoje, as instituições de saúde figuram entre os alvos mais visados por criminosos digitais. Além do alto valor comercial das informações armazenadas, que incluem dados pessoais, históricos médicos e registros financeiros, esses ambientes dependem da disponibilidade ininterrupta de seus sistemas para garantir a assistência à vida. Quando ocorre um incidente cibernético, os impactos vão muito além do vazamento de dados. A indisponibilidade tecnológica pode paralisar consultas, suspender cirurgias, adiar exames laboratoriais e até comprometer o funcionamento de dispositivos médicos essenciais.

Para Flavio Cruz, da Cyrex Security, empresa especializada em cibersegurança, o setor precisa tratar a proteção digital como um pilar estratégico de continuidade operacional. “Os hospitais estão hiperconectados e essa transformação trouxe ganhos inestimáveis para a qualidade da assistência. Porém, quanto maior a conectividade, maior é a superfície de ataque. Um incidente na saúde não representa apenas prejuízo financeiro; ele afeta diretamente a ponta do atendimento e coloca vidas em risco. Por isso, investir em prevenção, monitoramento contínuo e planos de resposta a incidentes deixou de ser uma demanda exclusiva da TI e passou a ser uma necessidade de governança corporativa”, afirma o executivo.

Para mitigar esses riscos, especialistas recomendam medidas fundamentais como a segmentação de redes hospitalares, a atualização constante de softwares, o uso de autenticação multifator (MFA) e a realização de backups isolados e protegidos. Contudo, o fator humano continua sendo decisivo: treinar e capacitar os colaboradores para identificar tentativas de fraude e engenharia social é indispensável, já que esta segue como uma das principais portas de entrada para invasões.

A necessidade de amadurecer a segurança digital é respaldada por dados globais contundentes. De acordo com o relatório Cost of a Data Breach 2025, da IBM, o segmento de saúde registrou o maior custo médio por incidente entre todos os setores analisados, atingindo a marca de US$ 7,42 milhões por violação de dados. Além disso, as organizações do setor levaram, em média, 279 dias para identificar e conter um ataque, um longo período em que operações críticas podem permanecer sob ameaça.

Outro levantamento da IBM, o X-Force Threat Intelligence Index 2025, aponta que 70% dos ataques atendidos por sua equipe de resposta a incidentes tiveram como alvo organizações de infraestrutura crítica, grupo no qual os hospitais estão inseridos. Em mais de um quarto dos casos, os invasores exploraram vulnerabilidades conhecidas que poderiam ter sido corrigidas, o que reforça a urgência de auditorias e correções constantes em equipamentos e aplicações.

No Brasil, o cenário é igualmente alarmante. Hospitais, clínicas e operadoras de saúde vêm sofrendo sucessivas tentativas de ransomware e sequestro de dados nos últimos anos. “Os dados mostram que a saúde virou uma prioridade para o crime organizado digital. Quando uma instituição para devido a um ataque, estamos falando de pacientes sem acesso ao próprio histórico clínico. A cibersegurança deve caminhar lado a lado com a segurança assistencial. Afinal, investir em prevenção custa muito menos do que remediar a paralisação de uma operação hospitalar”, conclui Flávio Cruz.

A Quarta Onda: Inteligência Artificial, Segurança Nacional e a Nova Corrida Tecnológica

1. Introdução

Alvin Toffler (1928-2016) foi um dos futuristas do século XX. Além de ensaios sobre avanços tecnológicos, escreveu o livro O Choque do Futuro, no ano de 1970.

Em seu livro de maior sucesso, A Terceira Onda (1980), Toffler organizou a história da humanidade não por séculos ou dinastias, mas por grandes “ondas” que representaram momentos de mudanças tecnológicas e sociais.

Para Toffler, uma “onda” ocorre quando uma nova tecnologia ou forma de produzir riqueza colide com a sociedade, transformando modelos econômicos, as relações interpessoais, a forma de produção cultural e até mesmo a maneira como vivemos. As três ondas que Toffler apresentou, resumidamente, foram:

1ª Onda: A Revolução Agrícola – Iniciada há cerca de 10 mil anos, representou a transição do nomadismo para o sedentarismo. Caracterizou-se pelo domínio da agricultura e do pastoreio, onde a terra era a principal fonte de riqueza e poder.

2ª Onda: A Revolução Industrial – iniciada no final do século XVIII (Inglaterra) e que dominou os séculos XIX e XX. Os motores da mudança foram: a máquina a vapor, os combustíveis fósseis e a produção em massa.

3ª Onda: A Era da Informação – emergiu na metade do século XX (década de 1950/1960), cujos motores da mudança foram: o computador, a internet, a biotecnologia.

Ao encerrarmos o primeiro quarto do século XXI, uma ferramenta tecnológica demonstra estar revolucionando o cotidiano da sociedade e, ao mesmo tempo, desafiando nada menos do que a própria inteligência humana: a Inteligência Artificial (IA).

Diante desse cenário, então, surge uma indagação: em que medida o comunicado emitido pelo Five Eyes sobre IA faz soar o alarme para uma quarta onda?

Seria o Mythos, da Anthropic, a corrente de vento que começa a agitar os “mares da tecnologia”, os mesmos que conectam as nações por meio de uma navegação entre bits e bytes?

2) A Inteligência e o alarme

Five Eyes significa a aliança existente entre as Agências de Inteligência dos seguintes países: Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos da América (EUA), e representa, em última instância, a extensão do antigo projeto Echelon (vide livro Contra & Inteligência, 2024, pág. 83).

Em 22/06/2026, agências de cibersegurança ligadas ao Five Eyes emitiram um comunicado conjunto que denotou ser um alerta quanto à rápida obsolescência dos recursos tradicionais de cibersegurança, indicando que o avanço dos modelos de IA de Fronteira pode reduzir significativamente a marcha do tempo em relação à validade de premissas que orientam a cibersegurança tradicional.

Segundo o Five Eyes, as alterações tecnológicas que anteriormente eram esperadas ao longo de anos poderão ocorrer em poucos meses, exigindo maior capacidade de adaptação por parte das organizações públicas e privadas.

Em síntese, Agências de Inteligência anunciaram que ferramentas de IA estão incorporando novas e mais potentes capacidades de encontrar e explorar vulnerabilidades, cada vez mais rapidamente. Ou seja, a marcha do tempo foi acelerada pela IA reduzindo a janela temporal entre o surgimento de uma vulnerabilidade e sua exploração prática.

O alerta baseia-se na rápida evolução dos modelos de IA, que demonstram capacidades para executar, com elevado grau de automação e velocidade, atividades que tradicionalmente exigiam equipes altamente especializadas. Entre elas destacam-se:

‒        o reconhecimento técnico de infraestruturas digitais, mediante o mapeamento automatizado de ativos físicos e serviços;

‒        a identificação e correlação de vulnerabilidades em softwares, sistemas operacionais e aplicações;

‒        a análise de grandes volumes de dados para identificação de padrões, anomalias e oportunidades de exploração; e

‒        a priorização de vetores de ataque e o apoio à tomada de decisão em operações defensivas ou ofensivas no domínio cibernético.

Tarefas que antes dependiam predominantemente de operadores dedicados passam a ser executadas com maior velocidade e escala por sistemas baseados em IA, que, entre outras capacidades, podem reduzir barreiras técnicas para agentes maliciosos, ampliando a velocidade, a automação e a complexidade das operações cibernéticas.

O cenário torna-se ainda mais complexo porque amplia a capacidade operacional tanto de grupos criminosos independentes ou de atores patrocinados por Estados, tornando os ataques mais frequentes, adaptáveis e difíceis de serem detectados.

Embora muitas das recomendações já integrem as boas práticas consolidadas da cibersegurança, tal como a sempre sugerida redução da superfície de ataque, o Five Eyes orienta para que as organizações adotem estratégias baseadas em resiliência operacional, partindo do pressuposto de que incidentes de segurança poderão ocorrer.

Entre as medidas sugeridas estão:

‒        incorporação da IA para as operações defensivas;

‒        modernização de infraestruturas legadas;

‒        cadência de patching;

‒        fortalecimento dos controles de acesso e a aplicação do princípio do menor privilégio; e

‒        aprimoramento das capacidades de detecção, contenção e resposta a incidentes.

O alerta também evidencia uma mudança na dinâmica da cibersegurança. Se, nas últimas décadas, a evolução das defesas ocorreu por meio de melhorias graduais, a IA tende a reduzir significativamente os ciclos de inovação, exigindo revisões mais frequentes das arquiteturas de segurança, dos processos de governança e das estratégias de gestão de riscos. Nesse contexto, a capacidade de adaptação contínua passa a ser um componente essencial da postura de segurança das organizações.

A terminologia IA de Fronteira tornou-se mundialmente reconhecida na Cúpula de Bletchley Park, em novembro de 2023, também conhecida como Artificial Intelligence Safety Summit. Segue-se a sua definição:

2.1 What do we mean by frontier AI models?

For the purposes of this paper, we define “frontier AI models” as highly capable foundation models2 that could exhibit sufficiently dangerous capabilities. Such harms could take the form of significant physical harm or the disruption of key societal functionson a global scale, resulting from intentional misuse or accident [25, 26]. It would be prudent to assume that next-generation foundation models could possess advanced enough capabilities to qualify as frontier AI models, given both the difficulty of predicting when sufficiently dangerous capabilities will arise and the already significant capabilities of today’s models.[1] (grifei)

3) Quem é Mythos 5?

O Mythos 5 é um modelo de IA de Fronteira desenvolvido pela empresa Anthropic, pertencendo à mesma linhagem e geração do Claude.

Enquanto o Claude Fable 5 é a versão comercial e distribuída para o público e empresas, o Claude Mythos 5, como “irmão gêmeo” do Fable 5, compartilha a mesma base de dados, porém com modificações especificamente para defesa técnica avançada.

O Mythos, como modelo de testes controlados, encontrava-se enclausurado dentro de uma sandbox, uma espécie de prisão digital. Ao operar fora dessa sandbox, em pouco tempo, o Mythos encontrou centenas de falhas em sistemas operacionais, tal como o OpenBSD, navegadores, vulnerabilidades zero-day em softwares, além de bugs no Linux, inconsistências essas antes desconhecidas pelas comunidades de cybersegurança.

Essas descobertas, segundo o governo norte-americano, foram entendidas como potencialmente graves à segurança nacional dos EUA, resultando, em 12/06/2025, na diretriz de controle de exportação do Departamento de Comércio dos EUA que exigiu a suspensão imediata do acesso aos dois modelos por qualquer cidadão estrangeiro, tanto fora quanto dentro dos EUA, incluindo os próprios funcionários estrangeiros da Anthropic.

Como consequência, a Anthropic informou que, diante da dificuldade operacional de verificar, em tempo real, a nacionalidade de todos os usuários, optou por desabilitar temporariamente os modelos para toda a sua base de clientes. Segundo a Anthropic, o governo norte-americano não apresentou detalhes técnicos sobre a preocupação de segurança. A empresa declarou entender que a decisão estaria relacionada à existência de um método capaz de contornar (“jailbreak”) determinadas salvaguardas do modelo Fable 5, permitindo sua utilização para identificar vulnerabilidades de softwares.

Segundo a Anthropic, o Mythos 5 estava restrito a um conjunto limitado de organizações participantes do programa Project Glasswing, voltado para defesa cibernética e proteção de infraestruturas críticas.

A preocupação do governo norte-americano, em relação ao Mythos, seria decorrente do alerta de pesquisadores da Amazon que usaram prompts para fazer o Fable 5 fornecer informações supostamente proibidas e que poderiam auxiliar ciberataques.

Em suma, a determinação de suspensão, segundo o governo dos EUA, se deve ao potencial do modelo para acelerar a identificação de vulnerabilidades em softwares complexos, fortalecendo atividades defensivas, como auditorias de segurança e identificação preventiva de falhas. Entretanto, o mesmo modelo poderia ser empregado para apoiar agentes maliciosos a conduzirem operações ofensivas.

4) Reflexões críticas para a cybersegurança

Embora o comunicado do Five Eyes não mencione diretamente a Anthropic ou o Mythos, ambos os episódios convergem para uma mesma preocupação estratégica: o rápido aumento das capacidades ofensivas e defensivas proporcionadas pelos modelos de IA de Fronteira.

A metáfora da “quarta onda” parece ganhar consistência justamente porque os elementos disruptivos dessa transformação não decorrem apenas da evolução tecnológica em si, mas da velocidade com que os modelos de IA de Fronteira passam a alterar o equilíbrio entre ataque e defesa no domínio cibernético, com consequência diretas nas relações socioeconômicas.

A principal mensagem do comunicado é que modelos cada vez mais avançados tendem a acelerar a descoberta de vulnerabilidades, reduzir barreiras técnicas para agentes maliciosos e encurtar significativamente o ciclo de eficácia das arquiteturas tradicionais de cibersegurança.

O caso Mythos 5 da Anthropic representa um exemplo concreto para esse cenário de evolução tecnológica. Ao que tudo indica, em vez de tratar o risco apenas sob uma perspectiva teórica, o governo norte-americano passou a considerar determinados modelos de IA como ativos estratégicos, submetendo-os a mecanismos de controle compatíveis com tecnologias sensíveis de interesse para a segurança nacional, não distante do próprio espectro militar.

Sob essa perspectiva, os dois episódios (Five Eyes e Anthropic) sinalizam uma possível mudança de paradigma. A IA deixa de ser percebida apenas como uma ferramenta de inovação tecnológica e passa a integrar, de forma crescente e dual (civil e militar), as agendas de segurança nacional, governança tecnológica e competição estratégica entre Estados.

Não por acaso, CEOs de gigantes tecnológicas como o Google, OpenAI e a Anthropic estiveram presentes na última reunião do G7, realizada na cidade francesa de Évian-les-Bains, em junho de 2026, coincidentemente dias antes do comunicado das Agências de Inteligência. A ocasião foi marcada por uma deliberação conjunta voltada para o estabelecimento de diretrizes de governança para a IA, com ênfase na proteção de menores em plataformas online.

5) Conclusão parcial

Na medida em que essa nova onda tecnológica ganha forma, a atuação das Agências de Inteligência com projeção global, como o Five Eyes, torna ainda mais relevante o acompanhamento desse fenômeno sob a perspectiva da Inteligência Estratégica e da Contrainteligência Corporativa.

Até recentemente, as preocupações relacionadas à espionagem empresarial concentravam-se na proteção de pessoas, documentos, sistemas e redes. A rápida evolução dos modelos de IA, contudo, introduz uma nova categoria de ativo estratégico: a própria capacidade computacional de acelerar a identificação de vulnerabilidades, de ampliar a produção de conhecimentos técnicos especializados e de influenciar diretamente a vantagem competitiva de Estados e organizações privadas.

Nesse contexto, observa-se também o fortalecimento do que a Bravus Consultoria cita como sendo o Complexo Industrial da Inteligência (vide Contra & Inteligência, 2024, p. 104), caracterizado pela crescente integração entre governos, empresas de tecnologia, universidades, centros de pesquisa e organizações de defesa na disputa por capacidades críticas na Atividade de Inteligência e agora, mais do que nunca, em IA.

Se Alvin Toffler identificou três grandes ondas de transformação da civilização, os acontecimentos recentes sugerem que a IA poderá representar a força motriz de uma quarta onda, cujos efeitos extrapolam o ambiente tecnológico para alcançar a geopolítica, a segurança nacional e, por conseguinte, a contrainteligência corporativa.

Se essa interpretação estiver correta, talvez o alerta do Five Eyes não deva ser compreendido apenas como mais um Relatório de Inteligência (RELINT) sobre cibersegurança, mas como um dos primeiros sinais institucionais de que a IA inaugura uma nova fronteira de competição estratégica entre Estados, empresas e organizações.

Luis Fernando Baptistella

Capitão de Mar e Guerra (Vet.)

Diretor da Bravus Consultoria || Consultor em Inteligência e Contrainteligência

Autor dos livros Contra & Inteligência 4.0 e Counter & Intelligence 4.0

Pós-graduado em Inteligência Estratégica

Fontes consultadas:

https://www.cisa.gov/news-events/news/five-eyes-cyber-security-agencies-statement

Eric Geller – https://www.cybersecuritydive.com/news/ai-cyberattacks-five-eyes-frontier-models-warning/823526/

Pieter Arntz – https://www.malwarebytes.com/blog/ai/2026/06/claude-fable-5-and-mythos-5-abruptly-disabled-after-us-gov-deems-them-too-clever?utm_source=iterable&utm_medium=email&utm_campaign=b2c_pro_oth_20260622_juneweeklynewsletter_v4_178177982315&utm_content=Claude_logo

Bloqueios da Anthropic vieram após alerta da Amazon – CISO Advisor

Professor Danilo Gato – @odanilogato

Nota de Esclarecimento: Embora este artigo de opinião seja fundamentado nas referências citadas, o conceito de Quarta Onda, com base em Alvin Toffler, no que tange à Atividade de Inteligência e à Cybersegurança, é uma tese autoral desenvolvida pelo autor através de pesquisas e estudos próprios. Os direitos sobre esta metodologia/abordagem específica são reservados.


[1] Disponível em https://arxiv.org/abs/2307.03718.

 

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/quarta-onda-intelig%25C3%25AAncia-artificial-seguran%25C3%25A7a-e-nova-baptistella-xloif/

Sequestro de dados: 79% das empresas financeiras atacadas pagaram resgate a hackers

O setor financeiro global enfrenta uma crise sem precedentes na segurança digital, onde pagar o resgate de dados sequestrados virou a regra, não a exceção. Nos últimos 12 meses, 79% das instituições financeiras que sofreram ataques cibernéticos optaram por pagar os criminosos para recuperar seus sistemas. O dado alarmante faz parte de um novo estudo da Cohesity, empresa líder em segurança de dados com Inteligência Artificial, que ouviu 390 tomadores de decisão de TI e segurança em grandes corporações da América do Sul, América do Norte, Europa e Ásia.

O levantamento traça um diagnóstico severo sobre a vulnerabilidade do mercado: 77% das empresas financeiras globais já foram vítimas de cibercriminosos, sendo que mais da metade (57%) foi alvo de investidas apenas no último ano. O impacto financeiro e reputacional é quase inevitável, com 87% das organizações registrando perdas diretas de receita e 93% enfrentando severas consequências regulatórias ou legais após as invasões.

Apesar do cenário de terra arrasada, a pesquisa revela uma desconexão preocupante entre a realidade dos ataques e a percepção de segurança das lideranças. O cenário atual exige uma mudança profunda de postura, já que as ameaças deixaram de ser eventos isolados para se tornarem uma constante no ambiente digital, com frequência e sofisticação cada vez maiores.

  • Confiança em alta: Mesmo com uma em cada quatro empresas sendo atacada repetidamente, 46% dos entrevistados afirmam ter total confiança em suas estratégias de resiliência.
  • O fator IA: A Inteligência Artificial surge como a grande aposta de defesa para 39% dos executivos, que acreditam que a tecnologia assumirá um papel central na detecção de ameaças e na tomada de decisões autônomas, otimizando a eficiência das equipes internas e do SOC (Security Operations Center) na resposta a incidentes.

A Estratégia da Sobrevivência: Organização Mínima Viável (MVC)

Diante do consenso de que é praticamente impossível blindar as empresas contra todos os tipos de ameaças, o mercado financeiro passou a adotar uma nova filosofia de sobrevivência: o conceito de Minimum Viable Company (MVC), ou Organização Mínima Viável.

Em vez de gastar energia e tempo tentando reerguer toda a infraestrutura tecnológica de uma só vez após um apagão cibernético, o foco da estratégia MVC muda drasticamente. A prioridade máxima passa a ser a recuperação estritamente essencial. O objetivo é colocar de pé a menor versão funcional possível da empresa, garantindo que o negócio continue operando (mesmo que de forma limitada ou sob condições degradadas) até que a crise seja totalmente controlada.

Medidas Práticas: O Caminho para a Resiliência

Para enfrentar o aumento dessas ameaças, viabilizar a estratégia de MVC e reduzir vulnerabilidades críticas, a Clavis Segurança da Informação destaca medidas prioritárias, com foco no SOC, voltadas à proteção e rápida recuperação do ambiente digital corporativo:

Treinamento de Colaboradores: A capacitação contínua transforma o elo mais fraco em defesa activa, reduzindo drasticamente a eficácia de ataques de phishing e engenharia social.

Controle de Identidade: A adoção de Autenticação Multifator (MFA) é a barreira mais eficiente para impedir que credenciais roubadas permitam o acesso indevido a dados sensíveis.

Monitoramento e Auditoria: O acompanhamento em tempo real permite detectar anomalias rapidamente, enquanto auditorias frequentes corrigem vulnerabilidades antes que sejam exploradas por criminosos.

Automação de Segurança: O uso de ferramentas automatizadas acelera a resposta a incidentes e reduz a janela de exposição de falhas críticas, que pode superar 55 dias.

Backup e Recuperação: Manter cópias de segurança isoladas e planos de recuperação testados garante a continuidade do negócio e protege a empresa contra extorsões digitais.

A segurança de redes corporativas consolida-se como um pilar indispensável para a estabilidade e o crescimento sustentável no mercado brasileiro. Com ameaças cada vez mais ágeis e onerosas, investir em um ecossistema que integre soluções tecnológicas, processos automatizados e conscientização humana deixa de ser uma demanda técnica para se tornar um diferencial competitivo estratégico.

Megavazamento de 24 bilhões de credenciais e bloqueio do Telegram na Índia expõem nova fase do crime digital

Dois acontecimentos recentes acenderam um alerta global sobre a evolução das fraudes digitais e a profissionalização do crime cibernético. De um lado, pesquisadores da Cybernews identificaram uma base exposta contendo aproximadamente 24 bilhões de registros de credenciais, incluindo e-mails, nomes de usuário, senhas em texto claro e URLs de acesso. De outro, o governo da Índia bloqueou temporariamente o Telegram após suspeitas de que grupos organizados estariam utilizando a plataforma para tentar fraudar candidatos do NEET 2026, principal exame nacional de admissão para cursos de medicina do país. Para a LC SECconsultoria especializada em cibersegurança e compliance, os dois episódios evidenciam a crescente profissionalização do crime digital.

Segundo informações divulgadas pela Cybernews, a base reúne dados provenientes de diferentes fontes, incluindo infostealers, compilações de vazamentos anteriores e outras exposições digitais acumuladas ao longo dos anos. Embora ainda não seja possível determinar quantos registros são duplicados ou quantas pessoas únicas foram afetadas, a consolidação desse volume de informações em um único conjunto amplia significativamente o potencial para ataques de tomada de contas, fraudes financeiras e invasões corporativas.

Na Índia, o caso envolvendo o Telegram também chamou a atenção pela escala da operação, pois, segundo informações divulgadas pela Reuters, o bloqueio temporário da plataforma ocorreu após autoridades apontarem que grupos organizados teriam utilizado o aplicativo para coordenar tentativas de fraude relacionadas ao exame NEET 2026. O episódio ganhou repercussão nacional após o cancelamento dos resultados de cerca de 2,3 milhões de estudantes em meio a investigações sobre possível vazamento de questões e irregularidades no processo seletivo.

Embora distintos, os dois casos compartilham um elemento importante: a utilização de plataformas digitais como parte da infraestrutura que sustenta operações criminosas. Ao rastrear a origem dos dados presentes na base identificada pela Cybernews, os pesquisadores encontraram 36 fontes distintas de informação. Segundo a investigação, grande parte delas estaria associada a canais do Telegram utilizados para compartilhamento de credenciais roubadas, dados obtidos em violações de segurança e materiais relacionados a atividades ilícitas.

“O aspecto mais relevante desses casos é que eles mostram como o crime digital funciona atualmente. Não estamos falando apenas de vazamentos ou de uma plataforma específica, mas de um ecossistema onde dados roubados são coletados, organizados, compartilhados e utilizados por diferentes grupos criminosos. O Telegram aparece nesse contexto como um dos canais identificados para circulação dessas informações, evidenciando como plataformas digitais podem ser incorporadas à cadeia operacional das fraudes”, afirma Luiz Cláudio, CEO e fundador da LC SEC.

O cenário acompanha uma tendência observada globalmente pelo relatório Microsoft Digital Defense de 2025, que aponta que mais de 97% dos ataques contra identidade são baseados em senhas e que esse tipo de ameaça cresceu 32% no primeiro semestre de 2025. O relatório também destaca que mecanismos de autenticação multifator resistentes a phishing são capazes de bloquear mais de 99% desses ataques.

Na avaliação do especialista, o foco das organizações não deve estar apenas na proteção de sistemas, mas também na gestão da identidade digital. “Quando credenciais comprometidas passam a circular livremente, os criminosos conseguem assumir contas legítimas, acessar ambientes corporativos e utilizar essas informações para ataques mais sofisticados. A identidade digital se tornou um dos ativos mais valiosos e mais visados do ambiente corporativo”, explica Luiz Claudio.

Diante desse cenário, a LC SEC recomenda que empresas revisem suas políticas de autenticação, ampliem o uso de autenticação multifator (MFA), fortaleçam processos de validação de identidade e monitorem continuamente credenciais expostas. A adoção de estratégias de Threat Intelligence, avaliações periódicas de acessos privilegiados e programas permanentes de conscientização também são medidas importantes para reduzir riscos e antecipar movimentos de grupos criminosos.

Ataques com ransomwares fizeram 791 vítimas em maio; mercado B2B é o mais visado, aponta Cohesity

Ataques com ransomwares fizeram 791 vítimas no mês de maio, numa leve diminuição de 9,1% em comparação aos 870 registrados em abril. Os dados são da plataforma Ransomware.live, iniciativa de Julien Mousqueton, especialista em cibersegurança e executivo da Cohesity, empresa líder em segurança de dados com IA.

O site monitora e coleta dados de sites de vazamento de grupos de ransomware continuamente para identificar e listar novas vítimas. Ransomwares são softwares maliciosos que bloqueiam o acesso de usuários ou organizações, exigindo pagamento de resgate para restauração, sob a ameaça de vazamento ou exclusão permanente.

Olhando para os últimos 12 meses, a atividade permanece substancialmente elevada. O número de maio está bem acima da faixa de 501 a 598 vista entre junho e setembro, e somente um pouco abaixo do pico recente de 882 em dezembro. “A queda de 9,1% em relação a abril é estatisticamente notável, mas não deve ser interpretada como evidência de uma queda sustentada”, analisa Gustavo Leite, vice-presidente da Cohesity para América Latina e Caribe.

Apesar desse recuo, o cenário de ameaças permaneceu dinâmico, diz. “Quatro grupos divulgaram suas primeiras vítimas em maio, e nove agentes novos apareceram em sites de vazamento. Isso sinaliza a fragmentação contínua do ecossistema de ‘ransomware-as-a-service’, quando desenvolvedores profissionais alugam ou vendem sua infraestrutura para outros hackers”.

Segundo Leite, o surgimento de nove atores em um mês reflete a fragmentação do ecossistema, onde afiliados mudam de nome ou se separam de grandes operações. Apesar desse influxo, 15 grupos antes ativos ficaram inativos em maio. “Embora novas operações surjam, muitas são efêmeras devido à pressão policial, dissolução interna ou mudança de identidade”, destaca.

Países e setores mais afetados

Os Estados Unidos seguiram como o país mais afetado, representando 309 das 791 vítimas (39,1%). O Reino Unido (49 vítimas) e a Alemanha (41 vítimas) ocuparam o segundo e o terceiro lugares, respectivamente. O Canadá (32), a Espanha (23) e o Japão (17), aparecem em seguida, antes de Austrália (20), México (16) e França (16).

O mercado B2B continuou sendo o mais visado, com 160 vítimas. O setor de manufatura registrou 103 casos, seguido pelos setores de tecnologia (71) e saúde (68). “O alto volume registrado constantemente no setor de saúde ressalta a persistente atratividade do setor para operadores de ransomware que buscam alvos com alto potencial de exploração”, diz o executivo.

O vice-presidente da Cohesity para América Latina e Caribe também chamou a atenção para os 39 casos no setor de agricultura e produção de alimentos. “Ataques a esse setor têm aumentado, numa tendência que merece atenção, dadas as implicações para a infraestrutura crítica das cadeias de suprimentos de alimentos”, disse. O setor de educação figurou pela primeira vez no ranking dos dez principais setores neste mês, com 28 vítimas.

Números do site Ransomware.live são divulgados todos os meses pela Cohesity, que conta com a confiança de clientes em mais de 140 países, incluindo 70% da Fortune Global 500.

Ataques com ransomware nos últimos 12 meses:

  • Maio – 791
  • Abril – 870
  • Março – 844
  • Fevereiro – 784
  • Janeiro – 702
  • Dezembro de 2025 – 882
  • Novembro – 717
  • Outubro – 839
  • Setembro – 598
  • Agosto – 530
  • Julho – 547
  • Junho – 501

Setores com ransomwares mais afetados em maio:

  1. Mercado B2B – 160
  2. Manufatura – 103
  3. Tecnologia – 71
  4. Saúde – 68
  5. Serviços ao consumidor – 52
  6. Agricultura e produção de alimentos – 39
  7. Transportes/logísticas – 35
  8. Serviços financeiros – 34
  9. Construção – 32
  10. Educação – 28

Países mais afetados por ataques com ransomwares em maio:

  1. Estados Unidos – 309
  2. Reino Unido – 49
  3. Alemanha – 41
  4. Canadá – 32
  5. Espanha – 23
  6. Austrália – 20
  7. Itália – 20
  8. Japão – 17
  9. França – 16
  10. México – 16

Incidente no Defesa Civil Alerta: análise técnica de um disparo indevido em sistema crítico nacional

Um disparo indevido no sistema Defesa Civil Alerta expôs a superfície de ataque de uma infraestrutura crítica baseada em redes móveis 4G e 5G, Cell Broadcast e integrações entre governo e operadoras. Este artigo analisa o incidente sob a ótica de arquitetura provável desse sistema, segurança cibernética e telecomunicações.

Na madrugada de sábado, um disparo indevido do sistema Defesa Civil Alerta provocou o envio de mensagens de emergência para diversas regiões do Brasil, sem que houvesse um evento emergencial real correspondente. Segundo nota oficial, a plataforma foi retirada do ar após a identificação de um acesso não autorizado e a Polícia Federal foi acionada para investigação. Embora o episódio tenha sido inicialmente tratado como “possível invasão cibernética”, a análise técnica exige uma leitura mais ampla: trata-se de um sistema altamente distribuído, dependente de múltiplas camadas de infraestrutura, desde aplicações governamentais até redes móveis 4G e 5G operadas por “telecoms”.

O Defesa Civil Alerta é baseado no conceito de Cell Broadcast Service (CBS), padronizado em redes móveis LTE e 5G. Diferente de SMS tradicional, que é ponto a ponto, o Cell Broadcast funciona como um broadcast geográfico, pois a mensagem é injetada na rede da operadora e distribuída para todos os dispositivos conectados a células específicas da antena. Isso reduz latência e garante entrega mesmo em cenários de congestionamento.

Do ponto de vista de arquitetura, o fluxo típico envolve:

  • Interface de autorização e gestão de alertas (IDAP ou equivalente institucional)
  • Sistema central de decisão da Defesa Civil
  • Gateways de integração com operadoras móveis
  • Infraestrutura de rede 4G/5G (eNodeB/gNodeB)
  • Camada de broadcast para dispositivos finais

Essa cadeia cria uma superfície de ataque ampla e distribuída, onde a segurança não depende de um único ponto, mas da coerência entre autenticação, autorização e integração entre sistemas heterogêneos. Podemos observar que, segundo documentação oficial de concepção de sistemas de alerta, esses sistemas são estruturados em quatro pilares: monitoramento de risco, análise, decisão e comunicação de alerta. O incidente em questão afeta diretamente o último pilar, que é a comunicação, mas pode ter origem em qualquer ponto anterior, incluindo a camada a integração com operadoras.

A nota oficial indica que o sistema foi “acionado remotamente por alguém não autorizado”, o que sugere uma quebra de controle de acesso lógico. Em arquiteturas modernas, isso pode ocorrer por diferentes vetores:

  • Credenciais comprometidas em sistemas administrativos
  • Token de API exposto ou mal protegido
  • Falha em autenticação entre sistemas federados
  • Exploração de vulnerabilidade em interface web ou middleware
  • Má configuração em gateways de integração com operadoras

Um ponto crítico aqui é que sistemas como o IDAP e plataformas de alerta não operam isoladamente: eles são integrados a múltiplos serviços e dependem de autenticação forte entre domínios administrativos diferentes. Qualquer falha nesse encadeamento pode permitir a emissão indevida de alertas válidos do ponto de vista técnico da rede, mas inválidos do ponto de vista de governança.

Outro aspecto relevante é o papel das redes 4G e 5G. O Cell Broadcast é implementado diretamente na camada de controle da rede móvel, o que significa que, uma vez autorizado o envio, a distribuição é extremamente eficiente e praticamente imune a congestionamentos. No entanto, essa eficiência também implica um risco: a mensagem não passa por validações individuais em cada dispositivo. Ou seja, o controle precisa ser rigorosamente feito na origem. Em termos de segurança, isso caracteriza um modelo de alto impacto e baixa granularidade de controle no endpoint, o que reforça a necessidade de proteção forte na camada de backend.

A presença de um alerta classificado como “Alerta Extremo” com conteúdo fora do padrão esperado, incluindo termos não técnicos como “misantropia”, indica possível comprometimento não apenas do canal de envio, mas também da integridade do payload da mensagem. Isso sugere que o atacante teve capacidade de manipular o conteúdo estruturado do alerta, e não apenas acioná-lo.

Nesse contexto, a análise forense digital torna-se essencial. A perícia normalmente se concentra em:

  • Logs de autenticação (quem acessou o sistema e quando)
  • Trilha de auditoria de ações administrativas
  • Integridade de APIs e tokens de sessão
  • Eventual movimentação lateral dentro de redes governamentais
  • Correlação com acessos externos via VPNs ou redes administrativas

A retirada imediata do sistema do ar indica uma ação de contenção, típica de resposta a incidentes de alta severidade. Em sistemas críticos, essa decisão é tomada para preservar evidências, impedir novos disparos e reduzir impacto operacional enquanto a integridade do ambiente é verificada.

Do ponto de vista de projeto de sistemas críticos, o incidente evidencia um ponto estrutural a ser destacada, que sistemas de alerta precisam ser desenhados sob o princípio de fail-safe control, onde qualquer comportamento fora do padrão esperado deve resultar em bloqueio automático de emissão, e não em execução.

Além disso, há uma dimensão de confiança pública. Sistemas de alerta via celular funcionam como mecanismos de alta credibilidade. Uma vez acionados incorretamente, há um risco de degradação de confiança. Este fenômeno, conhecido como alert fatigue, representa a situação onde usuários passam a ignorar notificações devido a falsos positivos.

O episódio também evidencia a complexidade da integração entre governo e operadoras de telecomunicações. Redes 4G e 5G operam com múltiplos nós distribuídos e virtualização de funções de rede (NFV), o que amplia a superfície de ataque quando há integração com sistemas externos. Embora o Cell Broadcast seja robusto do ponto de vista de entrega, ele depende criticamente da integridade da camada de sinalização e dos gateways de controle.

Em síntese, o incidente no Defesa Civil Alerta não deve ser interpretado apenas como um evento isolado de invasão, mas como um caso clássico de falha potencial em um sistema complexo com impacto nacional, onde segurança não depende apenas de software, mas da interação entre redes móveis, governança institucional e controles de acesso rigorosos.

A resposta das autoridades, que realizaram a remoção do sistema do ar e acionamento da Polícia Federal, segue o protocolo esperado em incidentes dessa natureza. O desafio agora é estrutural: reforçar autenticação, segmentação de rede, auditoria contínua e mecanismos de validação dupla antes da emissão de qualquer alerta crítico.

No final, o caso reforça uma verdade central da cibersegurança moderna, quanto mais crítico o sistema, menor pode ser a tolerância a falhas de autorização, porque o impacto não é digital, é diretamente na sociedade.

51% das instituições financeiras pesquisadas perdem mais de US$10 milhões ao ano com fraudes no Brasil

As perdas financeiras e o volume de golpes no setor bancário brasileiro continuam em uma escalada agressiva. Uma nova pesquisa da BioCatch, líder em prevenção a fraudes por inteligência comportamental, revela que 89% dos líderes bancários no Brasil relatam aumento nas tentativas de golpe em 2026. O número representa um salto notável frente aos 77% do ano anterior e supera a média global atual, que é de 81%

O estudo inédito entrevistou 100 profissionais de alta liderança (gerência, diretoria e C-suite) das áreas de gestão de fraudes, prevenção a crimes financeiros, risco e compliance no país. O perfil dos participantes reflete o peso do ecossistema financeiro nacional: 99% atuam em instituições com mais de US$ 10 milhões sob gestão, e metade (50%) gerencia ativos que superam a marca de US$ 1 bilhão.

Embora o Brasil tenha se posicionado como o mercado mais próximo das médias globais entre todos os países pesquisados, os dados nacionais de perdas e sofisticação acendem um alerta vermelho para o setor.

O prejuízo financeiro das fraudes no ecossistema brasileiro

A pressão financeira exercida pelas atividades criminosas já dita o orçamento dos grandes bancos, gerando impactos severos tanto para as instituições quanto para os usuários. No âmbito institucional, mais da metade dos entrevistados no Brasil (51%) perde acima de US$ 10 milhões para fraudes todos os anos. Ao mesmo tempo, para 19% dos entrevistados esse rombo supera os US$ 25 milhões anuais e, para 3%, o dano ultrapassa a marca de US$ 100 milhões.

Na outra ponta, o prejuízo transferido ao cliente final é igualmente alarmante. Cerca de 74% dos executivos afirmam que seus clientes perdem mais de US$ 5 milhões anualmente em fraudes autorizadas e golpes, e quase metade (44%) relata perdas de clientes acima de US$ 10 milhões ao ano.

Esse cenário é ainda mais agravado pelo dinamismo e rapidez dos ataques, que preocupam diretamente os comitês de risco: atualmente, 82% dos líderes de fraude no Brasil declaram estar muito preocupados com o aumento na velocidade da atividade fraudulenta, um índice superior aos 76% registrados na média global.

Deepfakes e novas vulnerabilidades

A inteligência artificial transformou-se rapidamente em uma arma de engenharia social nas mãos de organizações criminosas, desafiando as defesas tradicionais das instituições brasileiras. Essa nova realidade é evidente no avanço dos ataques baseados em deepfakes, já observados por quase dois terços (63%) dos executivos no Brasil nos últimos 12 meses, um índice significativamente superior à média global de 50%. Na prática, a tecnologia não está criando golpes inteiramente novos, mas tornando as táticas existentes muito mais críveis em um mercado onde o Pix, o WhatsApp, o mobile banking e o comércio em redes sociais estão profundamente enraizados no cotidiano.

Um dos reflexos disso no dia a dia do ecossistema nacional são os golpes de emergência familiar por chamadas ou mensagens no WhatsApp, em que criminosos utilizam áudios gerados por IA para imitar a voz de filhos ou cônjuges simulando uma urgência e solicitando transferências Pix imediatas. Da mesma forma, os criminosos clonam a voz de gerentes ou utilizam áudio e vídeo alterados por IA em falsas chamadas de suporte bancário; a vítima é induzida a acreditar que sua conta está sob ataque e acaba convencida a transferir fundos para uma suposta ‘conta segura’ ou a instalar softwares de acesso remoto.

Paralelamente, o país enfrenta sérias dificuldades para barrar golpes de falsificação de identidade (impersonation), com 60% dos tomadores de decisão locais classificando como muito ou extremamente difíceis de reconhecer. E, olhando para o futuro, a preocupação com a próxima onda de ataques é um consenso: para 90% dos profissionais brasileiros entrevistados, a IA Agêntica pode se tornar a maior vulnerabilidade explorável pelo crime organizado no próximo ano. E, além de tudo, 83% apontam que será extremamente desafiador mitigar o problema e distinguir ações legítimas assistidas por IA de atividades maliciosas ou manipuladas.

“A grande virada de chave tecnológica que estamos presenciando reside na evolução dos agentes de IA tradicionais para a chamada IA Agêntica. Enquanto um agente comum executa de forma rígida uma única tarefa programada, a IA Agêntica possui autonomia para traçar caminhos alternativos e contornar barreiras até atingir seu objetivo”, afirma Diego Baldin, diretor de Global Advisory da BioCatch para a América Latina.

“Quando essa tecnologia é capturada pelo crime organizado, passamos a lidar com sistemas automatizados capazes de conduzir interações complexas de engenharia social, persuadindo uma vítima até que ela esteja totalmente convencida, para só então repassar o ataque para um operador humano, que  conclui o golpe. Esse ecossistema não apenas automatiza o roubo de dados, mas é inteligente o suficiente para filtrar e priorizar as informações mais valiosas, conectar-se a outras ferramentas maliciosas e aprender com os próprios erros em tempo real. Se o algoritmo encontra um bloqueio de segurança, ele recalcula a rota autonomamente até conseguir violar o sistema.”

A urgência da inteligência interbancária

Diante de um cenário em que a autenticação tradicional perde eficácia contra a persuasão digital e a tecnologia avançada, a alta liderança bancária do país aponta o compartilhamento de dados em rede como uma das principais soluções.

A grande maioria dos executivos brasileiros (88%) acredita que o compartilhamento de inteligência entre bancos teria um impacto positivo significativo na capacidade de conter fraudes e crimes financeiros. Indo além, 89% afirmam que obter inteligência em tempo real sobre a conta destinatária envolvida em uma transação seria o divisor de águas para identificar e conter golpes financeiros antes que o dinheiro seja pulverizado.

Curiosamente, a pesquisa também revelou uma característica cultural do mercado nacional: os líderes bancários brasileiros são significativamente menos propensos do que seus pares internacionais a afirmar que suas instituições investem em prevenção de fraudes para evitar a perda de clientes (churn). Apenas 23% dos executivos no Brasil citam a perda de clientes como motivo para investimentos na área, contra 39% globalmente. O foco do país está direcionado firmemente no combate à sofisticação tática do crime e na proteção sistêmica do fluxo financeiro.

“A IA já está redefinindo a velocidade e a sofisticação das ameaças no Brasil, permitindo que criminosos escalem ataques de engenharia social com o uso de deepfakes em um ritmo muito superior à média global”, conta Baldin.

“O dado mais revelador é que no ecossistema brasileiro, ao contrário do mercado global, a liderança local investe em prevenção a fraudes motivada pela blindagem financeira imediata. Em um ambiente hiperconectado e de transações instantâneas, a urgência financeira e operacional parece ter prioridade, ao conter o vazamento monetário e a velocidade do crime. Para vencer essa corrida, o setor precisa ir além das checagens estáticas de identidade: o futuro depende do entendimento contínuo e em tempo real do comportamento e da intenção do usuário, combinado com uma rede de inteligência interbancária que neutralize as contas de laranjas usadas para lavar o produto das fraudes.”

Acesse a pesquisa completa aqui.

Copa do Mundo 2026: Fortinet identifica mais de 1.140 domínios maliciosos relacionados ao torneio

A expectativa sobre a Copa do Mundo de 2026 vem sendo amplamente explorada por cibercriminosos em escala global. Levantamento realizado pelo FortiGuard Labs, laboratório de inteligência da Fortinet, identificou mais de 13 mil domínios registrados com referências ao torneio entre janeiro e maio deste ano. Desse universo, cerca de 1.140 endereços (o equivalente a 8,8%) foram classificados como maliciosos ou suspeitos, evidenciando o uso crescente do maior evento do futebol mundial como isca para fraudes digitais.

De acordo com a análise, a infraestrutura criada pelos criminosos sustenta campanhas organizadas voltadas à aplicação de golpes financeiros e ao roubo de informações sensíveis. Entre as principais ameaças observadas estão páginas falsas para venda de ingressos, inclusive por meio de canais como o Telegram; lojas virtuais fraudulentas de produtos oficiais; plataformas ilegítimas de transmissão de partidas; campanhas de phishing e falsas oportunidades de emprego relacionadas ao evento.

Nos dois meses que antecederam a competição, foi identificado um crescimento expressivo no registro de novos domínios ligados à Copa do Mundo, acompanhando o movimento do mercado e dos países na ampliação das ações direcionadas ao evento e aumento do interesse do público. O levantamento apontou que mais de 270 mil credenciais de usuários/fãs que visitaram sites relacionados à FIFA foram identificadas em registros de roubo de dados baseados em delimitadores.

Contas falsas em redes sociais
Outro destaque do levantamento é a proliferação de perfis falsos em redes sociais. Mais de 1.700 contas e canais que utilizam indevidamente a identidade visual e a marca da FIFA foram identificados em plataformas digitais, especialmente Facebook e Instagram:

  • Instagram – 60,27%
  • Facebook – 28,94%
  • X (antigo Twitter) – 8,16%
  • Telegram – 1,66%
  • Youtube – 0,97%

“Esses ambientes são utilizados para disseminar promoções inexistentes, páginas de phishing, sorteios falsos e outras estratégias de engenharia social destinadas a enganar torcedores. Os pesquisadores também utilizaram a circulação de aplicativos maliciosos que simulam serviços de apostas esportivas, streaming de partidas e acompanhamento de resultados. Distribuídos por sites não oficiais e canais de mensagens, esses aplicativos podem instalar malwares capazes de roubar credenciais, capturar dados financeiros e comprometer os dispositivos das vítimas”, aponta Alexandre Bonatti, vice-presidente de Engenharia da Fortinet Brasil.

A comercialização fraudulenta de ingressos aparece entre os golpes mais recorrentes. Criminosos criam páginas praticamente idênticas às oficiais para convencer consumidores a realizar pagamentos ou fornecer dados pessoais e bancários. Em muitos casos, a sensação de urgência e a escassez de ingressos são utilizadas para induzir decisões rápidas e reduzir a desconfiança dos usuários.

As falsas lojas de produtos licenciados também ganharam espaço nas campanhas identificadas pelo FortiGuard Labs. Bonatti comenta que os cibercriminosos têm aproveitado o interesse por camisas, itens colecionáveis e produtos exclusivos da Copa do Mundo para comercializar mercadorias inexistentes ou falsificadas, a partir de ambientes que replicam o visual de marcas conhecidas.

“Outra modalidade em crescimento envolve vagas de trabalho temporárias ligadas ao torneio. Mensagens distribuídas por redes sociais, aplicativos de conversa e e-mails direcionam candidatos para páginas falsas de recrutamento que simulam processos seletivos legítimos e capturam credenciais de acesso e informações pessoais”, acrescenta o executivo.

Além das fraudes voltadas aos consumidores, a Fortinet alerta para a necessidade de empresas e organizações envolvidas no evento e parceiros comerciais reforçarem seus mecanismos de proteção. O monitoramento contínuo de domínios semelhantes às marcas, a adoção de autenticação multifator, a atualização constante dos sistemas e o compartilhamento de inteligência sobre ameaças são medidas essenciais para reduzir riscos durante todo o ciclo da competição.

Como consumidores podem se proteger

  • Conferir cuidadosamente o endereço do site antes de realizar qualquer compra ou informar dados pessoais;
  • Priorizar a aquisição de ingressos e produtos em canais oficiais ou parceiros autorizados;
  • Desconfiar de ofertas com descontos muito acima do mercado ou com prazo extremamente limitado;
  • Evitar downloads de aplicativos e plataformas de streaming provenientes de fontes não oficiais;
  • Utilizar autenticação multifator em contas digitais sempre que possível;
  • Acompanhar regularmente movimentações bancárias e notificações de cartões para identificar operações suspeitas.

Recomendações para empresas

Para fortalecer a proteção contra ameaças cibernéticas durante a Copa do Mundo, a Fortinet recomenda que as empresas adotem uma estratégia integrada de segurança. Entre as principais medidas estão o monitoramento contínuo de domínios que possam explorar indevidamente suas marcas, a implementação de soluções avançadas para detecção de phishing e fraudes digitais, além da manutenção permanente de plataformas, aplicações e integrações atualizadas.

A companhia também destaca a importância de reforçar políticas de autenticação multifator para contas críticas e administrativas, promover ações de conscientização voltadas a colaboradores, parceiros e clientes sobre os golpes mais comuns relacionados ao torneio e estabelecer processos integrados de resposta a incidentes, garantindo uma atuação rápida diante de tentativas de fraude ou comprometimento de credenciais.

Sobre a Fortinet
A Fortinet (NASDAQ: FTNT) é uma força motriz na evolução da segurança cibernética e na convergência de rede e segurança. Nossa missão é proteger pessoas, dispositivos e dados em todos os lugares, e hoje oferecemos segurança cibernética onde você precisar com o maior portfólio integrado de mais de 50 produtos de nível empresarial. Mais de meio milhão de clientes confiam nas soluções da Fortinet, que estão entre as mais implantadas, mais patenteadas e mais validadas do setor. O Fortinet Training Institute, um dos maiores e mais amplos programas de treinamento do setor, dedica-se a disponibilizar treinamento em segurança cibernética e novas oportunidades de carreira para todos. O FortiGuard Labs, laboratório de pesquisa e inteligência de ameaças de elite da Fortinet, desenvolve e utiliza aprendizado de máquina de ponta e tecnologias de IA para fornecer aos clientes inteligência de ameaças acionável e proteção oportuna e consistente com a melhor classificação do mercado. Saiba mais em www.fortinet.com/br, Fortinet Blog e FortiGuard Labs.

Pressão geopolítica leva 66% das empresas a ajustarem estratégias de cibersegurança

A instabilidade no cenário internacional impulsionou 66% das organizações globais a reestruturarem suas defesas digitais em resposta à volatilidade geopolítica. Os dados são do estudo Global Cybersecurity Outlook 2026, realizado pelo Fórum Econômico Mundial em parceria com a Accenture e líderes do setor, que destaca ainda que 94% dos líderes entrevistados identificam a IA como a principal força a remodelar o risco cibernético no próximo ano, elevando o potencial de ataques voltados à espionagem e à interrupção de infraestruturas críticas.

Embora a influência geopolítica nas decisões de segurança digital apresente oscilações, o tema permanece central na agenda estratégica. Na prática, esse cenário acelera a necessidade de integrar a cibersegurança às decisões de infraestrutura e continuidade operacional, especialmente em setores críticos e altamente digitalizados.

Para  Rafael Dantas, Head de Cibersegurança da TLD, empresa brasileira especializada em tecnologia, a digitalização acelerada, especialmente no setor público, trouxe ganhos expressivos de eficiência, mas também reforça a necessidade de reforçar a segurança para possíveis ataques em sistemas e dados estratégicos. “A cibersegurança não pode mais ser vista apenas como um suporte técnico; ela deve integrar a arquitetura das infraestruturas tecnológicas para assegurar a continuidade de serviços essenciais e a soberania digital das instituições”, comenta.

Nesse contexto, falhas de proteção podem gerar impactos sistêmicos, desde a interrupção de serviços públicos essenciais até o vazamento de dados sensíveis de milhões de cidadãos. Especialistas reforçam que a salvaguarda dessas estruturas deve ser tratada como um pilar fundamental da infraestrutura nacional.

Os dados reforçam a relevância do tema. De acordo com dados do relatório do Cenário Global de Ameaças de 2026 da Fortinet® (NASDAQ: FTNT), líder global em cibersegurança que impulsiona a convergência entre redes e segurança, o Brasil concentrou 753,8 bilhões de tentativas de ataques ao longo de 2025, revelando que o cibercrime funciona como um sistema, com hackers criminosos atuando em todo o ciclo de vida do ataque e finalizando com agentes ocultos.

O volume coloca o Brasil entre os países mais visados da América Latina, evidenciando que a ameaça é também local e crescente. Setores como financeiro, governo e saúde seguem como os principais alvos, dada a criticidade dos dados que concentram e a dependência de sistemas digitais para a operação de serviços essenciais.

A combinação entre tensões geopolíticas, adoção acelerada de IA e lacunas de maturidade em segurança cria um ambiente de risco multidimensional, que exige das organizações uma postura cada vez mais proativa e estratégica.

“Enquanto as ameaças evoluem com o apoio de inteligência artificial e financiamento estruturado, muitas organizações ainda reagem de forma reativa. O momento exige uma mudança de mentalidade: cibersegurança precisa estar na mesa das lideranças executivas, com orçamento, governança e visão de longo prazo como vantagem competitiva e requisito de soberania”, conclui.

Serviços financeiros em risco: os ataques de DDoS estão maiores, mais longos e mais complexos, segundo uma pesquisa da Akamai

Os cibercriminosos agora visam os serviços financeiros mais do que qualquer outro setor para ataques de negação de serviço distribuída (DDoS) na web e em APIs (camadas 3 e 4), revela a Akamai (NASDAQ: AKAM) em seu relatório State of the Internet (SOTI) intitulado AI-Empowered Botnets and API Visibility Gaps: Attack Trends in Financial Services. As descobertas revelam uma mudança perigosa à medida que hacktivistas pró-Irã e bots impulsionados por IA usam táticas de DDoS para interromper serviços bancários online, sistemas de pagamento e aplicações críticas.

Impulsionada por infraestruturas alimentadas por IA, a duração média dos ataques globais de DDoS das camadas 3 e 4 direcionados ao setor de serviços financeiros aumentou 738% desde 2024. Isso mostra que, embora a transformação digital tenha permitido avanços como serviços bancários online e pagamentos em tempo real, ela também facilitou as invasões.

Algumas descobertas importantes do relatório:

  • Entre os líderes de serviços financeiros entrevistados no Estudo sobre o impacto da segurança de APIs de 2026, 96% relataram pelo menos um incidente com a segurança de APIs nos últimos 12 meses, o índice mais alto entre todos os setores.

  • Em 2025, 60% do total de ataques na web e 83% das incursões contra pontos de extremidade de APIs visaram serviços bancários.

  • Quase 80% das instituições financeiras enfrentaram ataques de ransomware nos últimos dois anos, mas menos da metade adotou tecnologias avançadas de segurança.

  • A atividade avançada de bots aumentou 147% no final de 2025 e, em um estudo de caso, impressionantes 96% de todo o tráfego de websites foram identificados como bots de scraping mal-intencionados.

  • Os métodos de ataques cibernéticos contra serviços financeiros variam significativamente de acordo com a região: a EMEA é o principal alvo de DDoS das camadas 3 e 4 (62%), a APAC é a mais visada por DDoS da camada 7 (52%) e, na América do Norte, os ataques na web são os mais predominantes (44%).

“Os cibercriminosos e hacktivistas continuam impulsionando os ataques de DDoS, transformando-os em uma ameaça constante, e os serviços financeiros estão na mira”, afirma Steve Winterfeld, CISO consultivo da Akamai. “Além disso, os dados mostram que as APIs são cada vez mais visadas, pois a IA não reduz os riscos de segurança tradicionais, ela os amplifica. Felizmente, as organizações de serviços financeiros podem aproveitar as estratégias de segurança e as práticas recomendadas detalhadas neste relatório.”

O relatório também mostra tendências baseadas em dados sobre atividades criminosas, a participação do CISO da FS-ISAC, um destaque de segurança sobre recursos MITRE, um destaque de nuvem sobre as diferenças entre arquiteturas de IA e estratégias práticas de mitigação de ataques de DNS e DDoS.

Já em seu 12º ano, os relatórios SOTI Security da Akamai continuam oferecendo insights críticos sobre tendências de cibersegurança e desempenho na web, extraídos de ataques observados na infraestrutura protetiva de cibersegurança da Akamai, que lida com uma parcela significativa do tráfego global da web.

Sobre a Akamai

A Akamai é a empresa de cibersegurança e computação em nuvem que potencializa e protege negócios online. Nossas soluções de segurança líderes de mercado, inteligência avançada contra ameaças e equipe de operações globais oferecem defesa em profundidade para garantir a segurança de dados e aplicações empresariais em todos os lugares. As abrangentes soluções de computação em nuvem da Akamai oferecem desempenho e acessibilidade na plataforma mais distribuída do mundo. Empresas globais confiam na Akamai para obter a confiabilidade, a escala e a experiência necessárias para expandir seus negócios com confiança. Saiba mais em akamai.com e akamai.com/blog, ou siga a Akamai Technologies no X e no LinkedIn.

Ataques cibernéticos colocam setor elétrico sob pressão e elevam alerta para infraestrutura crítica

O setor elétrico brasileiro enfrenta um cenário cada vez mais desafiador no campo da cibersegurança. Somente no primeiro semestre de 2025 foram registradas mais de 535 mil tentativas de ataques cibernéticos contra empresas do segmento, segundo dados da Energy Future. O avanço das ameaças ocorre em um momento em que o Brasil figura entre os países mais visados por malwares na América Latina, enquanto ataques de ransomware seguem crescendo globalmente. Para especialistas, o volume de ocorrências expõe a vulnerabilidade de uma infraestrutura considerada essencial para o funcionamento da economia e dos serviços públicos.

Para Cláudio Calonge, CEO da Briskcom, empresa com mais de duas décadas de atuação em tecnologia e adequação regulatória para o setor elétrico, o aumento das tentativas de invasão demonstra que a proteção digital deixou de ser uma questão exclusivamente tecnológica e passou a ser um tema estratégico para a continuidade das operações. “A cibersegurança não é mais uma opção, mas uma exigência inegociável para garantir a continuidade e a segurança do fornecimento de energia. O setor precisa adotar uma postura preventiva e entender que a resiliência operacional depende diretamente da maturidade dos seus processos de proteção digital”, afirma.

O risco vai além da interrupção de sistemas. Estudos internacionais mostram que ataques de ransomware ao setor de energia podem gerar prejuízos milionários, considerando paralisação operacional, perda de produtividade, custos de recuperação e danos reputacionais. Em um ambiente cada vez mais conectado e dependente de dados, falhas de segurança podem afetar desde operações de geração e transmissão até processos críticos de monitoramento e tomada de decisão.

A preocupação não é apenas teórica. Em 2024, o Operador Nacional do Sistema Elétrico conseguiu bloquear aproximadamente 539 milhões de ataques cibernéticos, evidenciando a intensidade da atividade criminosa direcionada à infraestrutura energética. Ao mesmo tempo, relatórios recentes apontam que parte relevante dos agentes ainda opera com sistemas legados e enfrenta dificuldades para alcançar os níveis de adequação exigidos pelas normas do setor. O próprio Tribunal de Contas da União já alertou para vulnerabilidades regulatórias e de fiscalização, reforçando a necessidade de investimentos contínuos em proteção digital e gestão de riscos.

Nesse contexto, Calonge avalia que o principal desafio dos próximos anos será transformar a cibersegurança em uma cultura permanente dentro das organizações. Segundo ele, não basta investir em ferramentas se os processos não evoluírem na mesma velocidade das ameaças. “O setor elétrico precisa compreender que cada vulnerabilidade pode representar riscos que ultrapassam os limites de uma única empresa e impactam toda a cadeia de fornecimento de energia. As melhorias precisam ser implementadas com rigor técnico e visão de longo prazo para proteger não apenas os negócios, mas também a estabilidade de um serviço essencial para a sociedade”, conclui.

Cibersegurança e Privacidade: Duas Disciplinas, Uma Estratégia Por Mayara Barbosa 

O Fim da Separação que Nunca Deveria ter Existido 

Durante anos, as organizações brasileiras trataram de cibersegurança e proteção de dados como disciplinas distintas. De um lado, times de TI preocupados com firewalls, detecção de intrusões e resposta a incidentes. Do outro, áreas jurídicas e de compliance debruçadas sobre contratos, políticas de privacidade e adequação à Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD. Havia pouca conversa entre esses dois mundos, e quando havia, costumava acontecer tarde demais, ou seja, no meio de uma crise. Essa separação nunca fez sentido do ponto de vista técnico. Um ataque de ransomware representa, ao mesmo tempo, uma falha de segurança e uma potencial violação de dados pessoais com prazo de notificação de três dias úteis à Agência Nacional de Proteção de Dados. Um bucket de armazenamento em nuvem mal configurado é tanto um problema de infraestrutura quanto uma exposição de dados de clientes com consequências regulatórias sérias. Uma credencial comprometida é um vetor de ataque e, dependendo dos sistemas que ela protege, o início de um incidente com impacto direto sobre titulares de dados.

Em 2026, com a ANPD consolidada como agência reguladora plena, com um Mapa de Temas Prioritários publicado e com fiscalizações ativas em curso, a tolerância com essa divisão acabou. As organizações que ainda operam com silos entre segurança da informação e privacidade de dados estão, silenciosamente, acumulando risco técnico, regulatório e reputacional. Este artigo discute por que essa integração não é apenas desejável, mas necessária, e o que ela significa, na prática, para quem trabalha na linha de frente da defesa cibernética.

Segurança da Informação e LGPD: Onde as Obrigações se Encontram 

A LGPD não é uma lei que existe à margem da cibersegurança. Ela é, em grande medida, uma lei que pressupõe a cibersegurança como condição mínima de cumprimento. Seu artigo 46 exige que os agentes de tratamento, os  controladores e operadores, adotem medidas técnicas e administrativas aptas a proteger dados pessoais de acessos não autorizados e de situações acidentais ou ilícitas de destruição, perda, alteração ou vazamento. O artigo 6º vai além, estabelecendo o princípio da prevenção: não basta reagir a incidentes; é preciso antecipar riscos e agir antes que o dano ocorra. Traduzindo isso para a linguagem técnica, gestão de vulnerabilidades, controle de acesso com princípio do menor privilégio, criptografia de dados em repouso e em trânsito, monitoramento contínuo de ambientes, planos estruturados de resposta a incidentes e segmentação de redes,  todos esses controles que qualquer profissional de segurança reconhece como fundamentais são, ao mesmo tempo, obrigações implícitas da LGPD. Não são apenas boas práticas de engenharia. São exigências legais. 

Esse alinhamento tem uma consequência importante, o programa de segurança da informação de uma organização não pode mais ser avaliado apenas pela sua eficácia técnica. Ele precisa ser avaliado também pela sua capacidade de proteger especificamente dados pessoais, de detectar incidentes que os envolvem, de responder dentro dos prazos exigidos pela lei e de produzir a documentação necessária para demonstrar conformidade perante a autoridade regulatória. 

O Cenário de Ameaças de 2026 e Seus Impactos Sobre a Privacidade 

O cenário de ameaças em 2026 amplia, e muito, os desafios de proteger dados pessoais. A inteligência artificial, que transformou processos em praticamente todos os setores, também transformou a cibercriminalidade. Ataques de phishing gerados por IA são hoje altamente personalizados, utilizando dados pessoais extraídos de vazamentos anteriores e de redes sociais para criar mensagens convincentes que imitam o estilo de comunicação de pessoas reais. Deepfakes de áudio e vídeo são utilizados em ataques de engenharia social que exploram a confiança em identidades conhecidas. 

O ransomware evoluiu de uma ameaça de bloqueio de sistemas para um modelo de negócio criminoso sofisticado. Grupos especializados retiram dados antes de criptografá-los, usando como mecanismo de pressão adicional para o pagamento do resgate  a chamada dupla extorsão. Para uma organização sujeita à LGPD, isso significa que mesmo que ela consiga restaurar seus sistemas a partir de backups, os dados pessoais de seus clientes, funcionários ou pacientes podem já estar nas mãos de criminosos, o que configura um incidente com obrigação de notificação. 

A velocidade de exploração de vulnerabilidades também atingiu níveis que tornam os ciclos tradicionais de gestão de patches insuficientes. O que em 2020 levava cerca de dois anos para ser explorado após a divulgação pública, hoje leva poucos dias. Sistemas que processam dados pessoais sensíveis  como dados de saúde e  biométricos, precisam de ciclos de remediação muito mais ágeis do que os que a maioria das organizações adota. 

Soma-se a isso o fenômeno da shadow AI: funcionários que inserem documentos com dados pessoais em ferramentas de inteligência artificial externas, sem autorização e sem que o time de TI tenha ciência. Cada documento enviado a um serviço não aprovado é uma potencial transferência não autorizada de dados pessoais, um risco tanto de segurança quanto de conformidade com a LGPD que não pode mais ser ignorado. 

A Nova Fase da ANPD: Fiscalização Ativa e Sanções Reais 

A transformação da ANPD em agência reguladora plena, em setembro de 2025, marcou o encerramento do período de tolerância que caracterizou os primeiros anos da LGPD. Com autonomia funcional, técnica, decisória, administrativa e financeira, a agência passou a atuar com mais incisividade e sinalizou essa mudança de forma clara com a publicação do Mapa de Temas Prioritários para 2026 e 2027. 

Os focos prioritários de fiscalização incluem incidentes de segurança, dados biométricos, dados financeiros, dados de saúde, tratamento de dados de crianças e adolescentes e uso de inteligência artificial no tratamento de dados pessoais. Organizações que atuam nesses segmentos ou que tratam essas categorias de dados têm chances concretas de ser alvo de ações fiscalizatórias nos próximos meses.

As sanções disponíveis à ANPD não são simbólicas. Multas de até 2% do faturamento da organização, limitadas a R$ 50 milhões por infração, publicização das penalidades aplicadas, bloqueio de dados e suspensão de operações de tratamento são instrumentos que podem causar danos financeiros e reputacionais de grande magnitude. Há, no entanto, fatores que a agência considera ao dosar as sanções entre eles, a demonstração de boa-fé, a existência de programas de governança e compliance, a adoção de medidas corretivas imediatas e o histórico de investimento em segurança da informação. 

Isso significa que ter um programa de segurança estruturado, documentado e auditável não é apenas uma questão técnica, podemos afirma que é um ativo regulatório. Organizações que conseguem apresentar à ANPD evidências concretas de controles implementados, treinamentos realizados, processos documentados e investimento consistente em segurança estão em posição significativamente melhor do que aquelas que apenas alegam ter boas práticas sem provas.

Integração na Prática: O que Precisa Mudar 

Falar em integração entre cibersegurança e privacidade é fácil. O desafio está em operacionalizar essa integração no dia a dia das organizações. Alguns passos são fundamentais. O primeiro é garantir que o plano de resposta a incidentes inclua, explicitamente, uma etapa de avaliação de impacto sobre dados pessoais. Toda vez que um incidente de segurança é detectado, a pergunta “dados pessoais foram expostos ou comprometidos?” precisa ser respondida de forma estruturada, com critérios documentados, e não como uma reflexão improvisada. O prazo de três dias úteis para notificação à ANPD é curto demais para que essa avaliação seja feita sem processo prévio. 

O segundo é construir uma tríade operacional entre o DPO (Encarregado de Proteção de Dados), o time de segurança e a equipe jurídica. Esses três papéis precisam se comunicar regularmente, compartilhar informações sobre riscos identificados, colaborar na resposta a incidentes e alinhar políticas, não somente em momentos de crise, mas de forma contínua e estruturada. O DPO precisa do suporte técnico do time de TI para entender a natureza e o escopo dos incidentes; o time de TI precisa do DPO e do jurídico para interpretar os requisitos legais, avaliar responsabilidades e tomar decisões informadas sobre notificação à ANPD e comunicação aos titulares; e o jurídico precisa tanto do DPO quanto do time de segurança para embasar contratos com operadores, responder a eventuais processos administrativos e garantir que as evidências técnicas estejam adequadamente documentadas. Quando esses três elos funcionam de forma integrada, a organização consegue responder a um incidente com agilidade, coerência e segurança jurídica  em vez de improvisar sob pressão dentro de um prazo de três dias úteis.  

O terceiro é tratar a documentação como parte do trabalho técnico, não como burocracia paralela. Logs de acesso, registros de varreduras de vulnerabilidade, relatórios de pentest, políticas atualizadas, atas de treinamentos, tudo isso é evidência de conformidade. Em uma fiscalização ou em um processo administrativo sancionador, a capacidade de apresentar essas evidências pode ser a diferença entre uma advertência e uma multa significativa. 

Segurança e Privacidade Como Alicerce do Negócio Digital

Chegamos a um ponto no qual cibersegurança e privacidade de dados não podem mais ser geridas como disciplinas separadas, com orçamentos separados, equipes que raramente conversam e estratégias que raramente se encontram. Elas são, fundamentalmente, duas expressões do mesmo compromisso: proteger as informações que as pessoas confiam às organizações.

Para os profissionais técnicos de segurança, isso representa uma ampliação do escopo de responsabilidade, mas também uma oportunidade. A LGPD oferece argumentos regulatórios poderosos para justificar investimentos em controles técnicos que antes eram difíceis de aprovar. A fiscalização ativa da ANPD transforma a conversa sobre segurança da informação em uma conversa sobre risco de negócio, que a liderança executiva entende e prioriza de forma diferente. 

As organizações que construírem uma postura integrada onde segurança técnica e conformidade regulatória se reforçam mutuamente, onde o time de TI, jurídico e o DPO trabalham em conjunto, onde a documentação é tratada como evidência e não como formalidade, estarão não apenas mais protegidas contra ataques e sanções. Estarão construindo a confiança digital que, em 2026, será um diferencial competitivo real. 

Cibersegurança e privacidade, juntas, não são custo operacional. São o alicerce de qualquer negócio que pretende operar com resiliência, credibilidade e sustentabilidade no mundo digital.

Autora: Mayara Barbosa | Abril de 2026

A Resiliência Tecnológica como Armadura Invisível do Estado.

Este artigo propõe uma reflexão sobre os impactos tecnológicos no setor público devido as mudanças da forma como tratamos a segurança da informação. A Resiliência Tecnológica tem deixado de ser um centro de custos burocráticos para se consolidar como o alicerce de sustentação da continuidade governamental.

Através da lente técnica da ISO/IEC 27001:2022 e do rigor metodológico do Programa de Privacidade e Segurança da Informação (PPSI) do Ministério da Gestão e Inovação, examinamos como os controles tecnológicos operam como engrenagens de uma máquina estatal que não admite pausas. A narrativa foca na transição para uma maturidade de gestão onde a segurança por design e a conformidade estratégica transmutam a proteção de dados em um ativo de soberania digital, garantindo que o Estado permaneça operante e confiável, mesmo sob o cerco de ameaças cibernéticas de alta complexidade.

A legitimidade de um governo não se encerra na promessa de serviços eficientes. Esta se manifesta, fundamentalmente, na capacidade de garantir que tais serviços sejam ininterruptos e protegidos por uma arquitetura de confiança. No ecossistema de um governo de qualquer esfera, a infraestrutura digital tornou-se o novo território soberano, e a atuação do CISO assemelha-se à de um engenheiro de blindagens invisíveis, cuja obra só é notada pela ausência de rupturas.

Quando nos debruçamos sobre a gestão, percebemos que é um equívoco comum restringir o olhar aos processos administrativos. A verdadeira resistência de um Estado moderno reside na costura invisível de seus controles tecnológicos, que devem ser integrados não como um “apêndice” da TI, mas como a própria estrutura “óssea” da governança pública.

Para um governo a resiliência não pode ser tratada como um troféu estático, mas como uma disciplina contínua que exige que a segurança seja o ponto de partida de qualquer política pública, como uma nova forma de olhar para o Secure by Design. Essa maturidade demanda que abandonemos a visão arcaica da “segurança por obrigação” em favor de um compliance estratégico, onde as exigências da LGPD e os rigorosos CIS Controls, harmonizados pelo PPSI do Ministério da Gestão e da Inovação, formam um escudo institucional de defesa e integridade.

O alicerce dessa “fortaleza” digital começa na gestão rigorosa da periferia, onde o controle de Dispositivos de Usuários Finais (User endpoint devices) define o limite entre a ordem institucional e o caos externo. Em um cenário governamental de alta capilaridade, cada terminal é uma “fronteira” em potencial a ser monitorada e sua segurança observada. A governança de identidades deve ser “absoluta”, assegurando que os Direitos de Acesso Privilegiado (Privileged access rights) e a Restrição de Acesso à Informação (Information access restriction) operem sob o rigor do princípio do privilégio mínimo. No setor público, o vazamento de uma credencial não é apenas um incidente técnico, significa uma vulnerabilidade do Estado.

Outros aspectos a serem observados são que a proteção ao Acesso ao Código-Fonte (Access to source code) e a implementação de uma Autenticação Segura (Secure authentication) de múltiplos fatores deixam de ser recomendações para se tornarem imperativos de sobrevivência. O correto Gerenciamento de Acessos Privilegiados (Privileged access rights management) significa, na prática, proteger as chaves da administração pública, garantindo que a confiança seja uma variável sempre verificada e nunca presumida, refletindo a disciplina exigida pelos frameworks internacionais de defesa.

Para que a engrenagem estatal mantenha seu ritmo, a estabilidade operacional e a disponibilidade devem ter prioridade máxima. O Gerenciamento de Capacidade (Capacity management) é, muitas vezes, o “herói” silencioso que impede que portais de serviços essenciais entrem em colapso durante picos de demanda, transformando largura de banda e processamento em “estabilidade política”. Esta infraestrutura é protegida contra as ameaças latentes por um “sistema imunológico” digital composto pela Proteção contra Malware (Protection against malware) e pelo Gerenciamento de Vulnerabilidades Técnicas (Management of technical vulnerabilities).

Em um governo, a proatividade deve superar a reação, o Gerenciamento de Configurações (Configuration management) assegura que o parque tecnológico mantenha sua integridade estrutural, fechando portas antes mesmo que o adversário as encontre. No delicado ciclo de vida dos dados dos cidadãos, o respeito à LGPD ganha materialidade através da Exclusão de Informações (Information deletion) criteriosa e do Mascaramento de Dados (Data masking), técnicas que permitem ao Estado ser inteligente no uso da informação sem ser invasivo ou negligente com a privacidade alheia.

A resiliência de um governo federal, estadual ou municipal é testada na sua capacidade de absorver impactos e restaurar a normalidade sem prejuízo ao cidadão. A proteção da informação, esteja ela em trânsito ou em repouso, exige mecanismos robustos de Prevenção contra Vazamento de Dados (Data leakage prevention) e uma política de Backup (Information backup) que não seja meramente reativa, mas parte de uma estratégia de Redundância das Facilidades de Processamento de Informação (Redundancy of information processing facilities). Esse estado de vigilância constante é sustentado pelo Registro de Eventos (Logging) e pelo Monitoramento de Atividades (Monitoring activities). Para o CISO de governo, o SOC é a sua central de inteligência, onde a Sincronização de Relógios (Clock synchronization) garante a precisão forense necessária para auditar cada bit que atravessa a rede. O controle sobre o Uso de Programas Utilitários Privilegiados (Use of privileged utility programs) e a disciplina na Instalação de Software em Sistemas Operacionais (Installation of software on operational systems) são os “guardiões” da higiene digital, impedindo que a máquina pública seja subvertida por softwares maliciosos ou ferramentas não autorizadas que possam comprometer os dados estaduais.

As redes de dados constituem o sistema nervoso central do governo, e sua proteção exige uma abordagem de defesa em profundidade. A Segurança em Redes (Network security) e o controle rigoroso dos Serviços de Rede (Security of network services) devem ser arquitetados para resistir a ataques de negação de serviço (DoS) e tentativas de interceptação (Man in the Middle).

A técnica de Segregação de Redes (Segregation of networks) funciona como as anteparas de um navio de guerra, pois um “compartimento” pode ser atingido, mas o Estado continua “navegando”. Essa blindagem é reforçada pela Filtragem Web (Web filtering) e pela aplicação da Criptografia (Use of cryptography). No contexto da governança digital, criptografar não é apenas cifrar dados, trata de garantir a inviolabilidade das comunicações oficiais e a proteção dos direitos civis no ambiente digital. Neste ponto é que a conformidade estratégica se torna tangível, elevando a segurança técnica ao status de garantia fundamental da privacidade do cidadão.

Entretanto, o auge da maturidade de gestão governamental revela-se na qualidade do que é construído dentro de casa. O Ciclo de Vida de Desenvolvimento Seguro (Secure development life cycle) deve ser o DNA de cada nova aplicação estatal, integrando os Requisitos de Segurança da Informação (Application security requirements) desde o rascunho do projeto. Uma Arquitetura de Sistemas e Princípios de Engenharia de Segurança (Secure system architecture and engineering principles) sólida projeta resiliência em cada camada da experiência digital do usuário. Através de uma Codificação Segura (Secure coding) e de Testes de Segurança em Desenvolvimento e Aceitação (Security testing in development and acceptance), o governo mitiga o risco na origem, economizando recursos públicos que seriam gastos em remediações emergenciais. Mesmo na gestão do Desenvolvimento Terceirizado (Outsourced development), o Estado mantém o controle, exigindo que o parceiro privado se submeta aos mesmos padrões de rigor. A Separação dos Ambientes de Desenvolvimento, Teste e Produção (Separation of development, test and production environments) e um Gerenciamento de Mudanças (Change management) orquestrado e coordenado evitam que a inovação se torne um vetor de instabilidade. Finalmente, o uso ético de Dados de Teste (Test data) e a vigilância na Segurança da Informação durante Testes de Sistemas (Information security during testing) fecham o cerco contra a exposição inadvertida de dados reais, consolidando o compromisso do Estado com a proteção de uma forma integral.

Ao articular esses 34 controles previstos no tema tecnologia da ISO 27001, o gestor público não está apenas cumprindo um checklist normativo. Podemos afirmar que ele está construindo a infraestrutura ética digital.

A resiliência governamental nasce da compreensão de que, embora a tecnologia seja efêmera, a obrigação do Estado de proteger o cidadão é perene. Ao integrar a secure by design ao cerne da administração, o governo deixa de ser um observador passivo da evolução das ameaças e assume o protagonismo na defesa do bem público. O compliance estratégico, longe de ser uma amarra burocrática, é o caminho que permite ao Estado avançar com segurança rumo à transformação digital. No fim, um governo resiliente é aquele que transforma a complexidade técnica em tranquilidade social, fazendo da segurança da informação o pilar mais sólido e inabalável da cidadania moderna e do cotidiano institucional.

Referências

  • ABNT NBR ISO/IEC 27001:2022

  • Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD)

  • CIS Critical Security Controls (v8)

  • Programa de Privacidade e Segurança da Informação (PPSI): Diretrizes do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI).

  • NIST Cybersecurity Framework (CSF)

  • Instruções Normativas do GSI/PR

Perímetro Físico como Fundamento Silencioso da Segurança da Informação

A segurança da informação raramente falha primeiro no código ou mesmo no hardware. Falhas reais costumam nascer antes, no acesso físico, nos limites mal definidos e na ausência de monitoramento com propósito. Os controles físicos previstos na ISO 27001 não tratam apenas de muros ou câmeras. Eles revelam maturidade institucional, responsabilidade decisória e o compromisso concreto com a proteção de dados pessoais e sensíveis sob custódia do Estado.

A segurança física ocupa um lugar curioso na gestão pública. Estruturas visíveis, investimentos tangíveis e resultados aparentemente simples convivem com uma percepção equivocada de que esses controles pertencem a um domínio operacional secundário. O Anexo A da ISO/IEC 27001 desmonta essa leitura ao tratar o perímetro físico e o monitoramento como extensões diretas da governança da informação.

Os controles de perímetro previstos na norma tratam da definição clara de fronteiras físicas, do uso de barreiras apropriadas, da segregação de áreas sensíveis e do controle rigoroso de pontos de entrada e saída. Edifícios administrativos, salas técnicas, arquivos físicos e ambientes compartilhados passam a ser compreendidos como zonas de risco distintas, cada uma exigindo níveis próprios de proteção e autorização. A ausência dessa diferenciação transforma qualquer espaço institucional em território neutro, onde responsabilidades se diluem.

A gestão de acessos físicos torna-se particularmente sensível em estruturas governamentais marcadas por alta circulação de servidores, prestadores de serviço e visitantes. Crachás, registros de entrada, acompanhamento de terceiros e revisões periódicas de autorizações deixam de ser formalidades administrativas e passam a representar controles que protegem processos, sistemas e dados pessoais. A lógica é simples e desconfortável. Onde o limite físico é frágil, a cadeia de custódia da informação também é.

O controle de monitoramento físico amplia essa discussão. Sistemas de vigilância não existem para registrar o passado, mas para reduzir a incerteza no presente. Câmeras, alarmes e sensores produzem valor apenas quando integrados a processos claros de resposta, análise e responsabilização. Ambientes monitorados sem critérios definidos acumulam imagens, mas não produzem segurança.

A abordagem proposta pelo NIST Cybersecurity Framework reforça essa visão ao tratar proteção e detecção como funções complementares. Atividades alinhadas às categorias de Protective Technology e Anomalies and Events contribuem diretamente para o tema físico. Controles eficazes pressupõem visibilidade sobre comportamentos fora do padrão, correlação entre eventos físicos e digitais e capacidade institucional de resposta coordenada. Monitoramento sem interpretação estratégica produz apenas ruído.

A proteção de dados pessoais encontra no ambiente físico seu primeiro campo de aplicação. Princípios consagrados pela LGPD, como segurança, prevenção e responsabilização, manifestam-se de forma concreta no controle de acessos a locais onde dados são coletados, armazenados ou manipulados fisicamente. Salas com prontuários, estações de trabalho compartilhadas, impressoras e arquivos físicos representam pontos críticos frequentemente subestimados.

A boa prática em proteção de dados exige coerência entre políticas declaradas e controles reais. Ambientes fisicamente desprotegidos tornam irrelevantes políticas de privacidade bem redigidas. A autoridade reguladora deixa claro, por meio de orientações e decisões, que a expectativa de segurança inclui medidas físicas e administrativas proporcionais ao risco. A omissão nesse campo caracteriza falha estrutural, não incidente isolado.

O perímetro físico também funciona como instrumento pedagógico. Barreiras, zonas restritas e monitoramento comunicam regras de convivência institucional. Organizações maduras utilizam esses controles para reforçar a noção de responsabilidade individual e coletiva. Ambientes onde tudo é acessível a todos transmitem uma mensagem inequívoca de informalidade excessiva, incompatível com a custódia de dados sensíveis e informações estratégicas.

A maturidade institucional se revela quando mudanças organizacionais incorporam automaticamente revisões de controles físicos. Reformas, transferências de unidades, criação de novos serviços e adoção de tecnologias exigem reavaliação do perímetro e do monitoramento. A segurança deixa de reagir a problemas e passa a acompanhar decisões. Esse alinhamento representa um dos sinais mais claros de governança efetiva.

Os controles físicos previstos na ISO 27001 não operam à margem da estratégia. Eles a sustentam. Perímetro e monitoramento revelam como uma organização decide, delega e responde. No contexto público, essa clareza protege dados pessoais, fortalece a confiança institucional e reduz riscos que nenhum controle lógico consegue compensar sozinho.

Referências

  • ISO/IEC 27001:2022 Information Security Management Systems
  • ISO/IEC 27002:2022 Information Security Controls
  • NIST Cybersecurity Framework Functions Protect and Detect
  • Princípios da Lei Geral de Proteção de Dados aplicáveis à segurança organizacional

Segurança Não Falha no Firewall, Falha na Rotina

A ISO/IEC 27001 organiza a gestão, mas são os controles previstos que revelam a maturidade real. No conjunto voltado a Pessoas, o tema deixa de ser técnico e passa a ser comportamental. Treinamento, conscientização e responsabilização não sustentam a segurança. Eles a definem.

A estrutura da ISO 27001 oferece coerência metodológica e previsibilidade formal. Ainda assim, a efetividade desse arranjo só se manifesta quando os controles previstos passam a incidir sobre decisões cotidianas, muitas vezes tomadas sob pressão e com informação incompleta.

O eixo de Pessoas evidencia esse ponto com mais clareza do que qualquer outro. A ausência de alinhamento comportamental compromete qualquer arquitetura técnica, por mais sofisticada que seja. Rotinas administrativas consolidadas, atalhos operacionais e práticas informais acabam funcionando como variáveis ocultas que tensionam a aplicação dos controles.

Entre os principais controles relacionados a esse eixo, a triagem antes da admissão introduz o primeiro filtro de risco ao exigir verificação da confiabilidade de indivíduos antes da concessão de acessos. A relação entre confiança e acesso deixa de ser presumida e passa a ser condicionada.

Os termos e condições de emprego estabelecem, desde o início, obrigações explícitas de segurança da informação. Essa formalização reduz ambiguidades frequentes em estruturas complexas, nas quais responsabilidades difusas tendem a diluir a percepção de risco.

A conscientização, educação e treinamento em segurança da informação ocupa posição central nesse conjunto. A exigência de capacitação contínua, alinhada às funções exercidas, diferencia iniciativas meramente formais de processos capazes de influenciar comportamento. Treinamentos episódicos produzem registro. Processos contínuos produzem padrão de decisão.

O processo disciplinar complementa esse ciclo ao vincular desvios a consequências previsíveis. A existência desse mecanismo reforça a credibilidade das políticas estabelecidas, ao transformar orientação em expectativa concreta de conduta.

A gestão do ciclo funcional é reforçada pelo controle de responsabilidades após desligamento ou mudança de função, que assegura a revogação de acessos e a manutenção de deveres de confidencialidade. Momentos de transição concentram riscos silenciosos, muitas vezes invisíveis até a ocorrência de incidentes.

A esses elementos somam-se controles como papéis e responsabilidades em segurança da informação, que estabelecem com precisão quem decide, quem executa e quem responde em cada situação. A ausência dessa definição, comum em estruturas mais tradicionais, tende a gerar zonas cinzentas onde o risco se acumula sem responsável claro. A formalização dessas atribuições não apenas organiza a operação, mas reduz o tempo de resposta em cenários de pressão, nos quais a indefinição sobre responsabilidade costuma ampliar o impacto de falhas iniciais.

Nesse mesmo eixo, os controles de contato com autoridades e contato com grupos de interesse estruturam a dimensão externa da segurança. Incidentes relevantes raramente permanecem restritos ao ambiente interno. Órgãos de controle, entidades reguladoras e outras instituições passam a integrar o ciclo de resposta. A existência prévia de canais definidos, pontos focais estabelecidos e fluxos de comunicação conhecidos evita improvisações que ampliam impactos institucionais. A comunicação, nesse contexto, deixa de ser reativa e passa a ser componente estruturado da resposta.

O controle de relato de eventos e fraquezas de segurança da informação acrescenta uma dimensão crítica: a capacidade de antecipação. A identificação precoce de vulnerabilidades depende de um ambiente onde o relato seja esperado e tratado como insumo de melhoria. Estruturas onde o erro é ocultado tendem a acumular fragilidades até o ponto de ruptura. Estruturas que incentivam o relato ampliam sua capacidade de ajuste contínuo.

A articulação desses controles desloca a segurança de um modelo centralizado para uma lógica distribuída. A responsabilidade deixa de estar concentrada em uma unidade específica e passa a integrar o funcionamento institucional como um todo. Esse arranjo amplia a sensibilidade organizacional ao risco e reduz a dependência de respostas isoladas.

Referenciais do NIST reforçam essa leitura ao posicionar o fator humano como componente permanente da superfície de risco. Diretrizes da ANPD ampliam as consequências dessas falhas, ao conectá-las à proteção de dados pessoais e à responsabilização institucional.

No contexto público, a densidade desse cenário é ampliada. A atuação individual se conecta diretamente à função estatal, e cada interação com a informação carrega implicações que ultrapassam o ambiente interno. A segurança, nesse contexto, se integra ao próprio exercício da atividade administrativa.

A efetividade dos controles relacionados a Pessoas depende de sua incorporação ao funcionamento real da organização. Ambientes que tratam treinamento como formalidade, responsabilização como exceção e comunicação como reação tendem a reproduzir vulnerabilidades de forma contínua. Estruturas que alinham expectativa, prática e consequência constroem previsibilidade comportamental e maior estabilidade operacional. Esse alinhamento sustenta simultaneamente três dimensões. A cultura se torna operacional, ao orientar decisões concretas. A accountability se materializa, ao vincular condutas a responsabilidades definidas. A capacidade de resposta se fortalece, ao reduzir incertezas em momentos críticos.

A segurança da informação, nesse estágio, deixa de depender exclusivamente de controles técnicos. A organização passa a operar com maior resiliência, mesmo diante de falhas humanas inevitáveis. Esse é o ponto em que gestão, responsabilidade e adaptação deixam de ser conceitos isolados e passam a constituir um único sistema funcional.

Referências

  • ISO/IEC 27001
  • ISO/IEC 27002
  • NIST – Cybersecurity Framework
  • ANPD – Diretrizes e LGPD
❌